Chumbo Grosso

01/04/2008 | Categoria: Críticas

Edgar Wright e Simon Pegg repetem a dose e unem humor negro, ação e mistério em comédia empolgante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Depois de satirizar com sucesso os filmes de zumbi com o hilariante “Todo Mundo Quase Morto” (2004), a dupla formada pelo diretor/roteirista Edgar Wright e pelo ator/roteirista Simon Pegg partiu para detonar os thriller de ação no estilo “Duro de Matar”. Utilizando um estilo de direção jovem e vibrante, usando sons não-orgânicos de maneira criativa e criando grande número de citações de maneira muito mais sutil e inteligente do que o habitual, os dois alcançaram uma vitória pessoal. “Chumbo Grosso” (Hot Fuzz, Reino Unido/França, 2007) supera um tabu importante – a perda do sabor de novidade no segundo trabalho – e repete a dose do primeiro filme, alcançando um raro equilíbrio entre a comédia, a ação e o mistério.

A chave para o sucesso de “Chumbo Grosso” está no tratamento cuidado que os dois roteiristas dedicaram à confecção da história a ser contada. Via de regra, o maior desafio de uma sátira é conseguir dedicar ao enredo principal o mesmo nível de cuidado e criatividade atribuído às piadas. Exatamente por isso, boa parte dos melhores exemplares do gênero (inclusive os impagáveis “O Cálice Sagrado” e “A Vida de Brian”, filmaços do grupo Monty Python que estão entre as comédias mais engraçadas já realizadas) apresentam um resultado final desequilibrado, em que as cenas são isoladamente melhores do que a soma das partes. Consistência e solidez são duas grandes virtudes da indústria cinematográfica, e o fato de Pegg e Wright terem alcançado resultado positivo mostra que o sucesso de “Todo Mundo Quase Morto” não foi obra do acaso.

“Chumbo Grosso” transita em uma zona limítrofe perigosa, uma interseção de três gêneros que não se misturam com facilidade: comédia, ação e mistério. A história segue os passos do policial Nick Angel (Pegg), um tira 100% dedicado ao trabalho. Por ter colocado alguns colegas em apuros, devido aos altíssimos índices de eficiência alcançado no trabalho de rua em Londres, ele é transferido para uma pacata e bucólica cidadezinha no interior da Inglaterra, onde nenhum assassinato é registrado há mais de 20 anos. Louco pela profissão, Angel se desespera. Para um homem cosmopolita como ele, não é fácil trocar uma rotina de investigações difíceis por casos banais, como o desaparecimento de um ganso e a fiscalização tediosa do excesso de velocidade em estradas rurais.

Aos poucos, ele começa a desconfiar da aparência excessiva de normalidade dos habitantes do lugar. A quantidade de acidentes violentos também desperta o instinto policial do agente, que começa a investigar por conta própria, indo contra as ordens do simpático chefe da polícia local (Jim Broadbent) e do ingênuo parceiro de trabalho, Danny (Nick Frost). O mistério, porém, só existe para Angel, já que o diretor Edgar Wright opta por revelar logo de cara, para o público, a existência de um misterioso serial killer encapuzado, cujos crimes sangrentos são tão criativos que não despertam suspeitas, a não ser para um tira de faro aguçado como o nosso herói. O que se segue é uma legítima comédia de humor negro, sutil e inteligente, crivada de citações (a maioria imperceptível, a não ser para cinéfilos atentos) e pontuada por seqüências sangrentas que parecem retiradas de algum outro filme, talvez um horror bem gore e excêntrico.

O roteiro é tão bem cuidado que os detalhes mais saborosos podem passar despercebidos. Danny, por exemplo, é fanático por filmes policiais, e durante os dois primeiros atos enche o saco do parceiro com perguntas sobre ações mirabolantes de protagonistas de filmes de aventura (“você já atirou com duas armas ao mesmo tempo enquanto saltava no ar?”). A cada questionamento, um enfastiado Angel precisa informar ao colega que aquelas coisas só existem no cinema, não na vida real. Já no terceiro ato, que começa com Angel encarnando uma versão contemporânea e inglesa de um pistoleiro de faroeste espaguete, os dois parceiros precisam enfrentar uma série de improváveis vilões – e, no processo, realizam cada uma das proezas impossíveis que Angel achava só serem vistas no cinema. Hilário.

O estilo vistoso de Edgar Wright, na direção, chega mesmo a encobrir uma das poucas falhas da produção – a longa duração, com um segundo ato excessivo e cheio de seqüências dispensáveis –, já que utiliza uma edição veloz, com cortes rápidos e elegantes (nada no estilo “verité” da franquia Bourne), muitos jump cuts (elipses dentro de uma única cena, que eliminam os “tempos mortos” e aceleram ainda mais a ação) e raccords criativos, utilizados muitas vezes como transição de uma cena a outra. Wright também comanda uma criativa edição sonora, adicionando ruídos não-orgânicos a diversas seqüências e criando gags interessantes – em determinado momento, por exemplo, ele aproveita uma piscadela para a câmera do ex-007 Timothy Dalton para acrescentar o som de uma caixa registradora e criar um pequeno momento engraçado.

Da mesma forma que havia ocorrido em “Todo Mundo Quase Morto”, também a música exerce um papel narrativo importante. As canções ouvidas por personagens, em diversos momentos do longa-metragem, adicionam comentários gozados a determinadas cenas (o casal de atores de teatro a caminho do ensaio de uma peça de Shakespeare, parados por Angel numa cena, está escutando “Romeo and Juliet”, do Dire Straits, no rádio do carro). Além disso, a qualidade geral das músicas, que incluem Supergrass, John Spencer Blues Explosion, T-Rex e The Kinks, é muito boa. Assim como o ótimo elenco, recheado por craques como Billie Whitelaw (“A Profecia”), Paddy Considine (“O Ultimato Bourne”) e Bill Nighy (“Ainda Muito Loucos”) e vitaminado por participações especiais praticamente invisíveis de gente como o cineasta Peter Jackson e a atriz Cate Blanchett. Ótimo programa.

Lançado no Brasil diretamente no mercado caseiro, sem passar pela telona, “Chumbo Grosso” pelo menos tem um DVD caprichado. O disco simples da Universal traz o longa com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem comentário em áudio com Edgar Wright e Simon Pegg, 22 cenas cortadas com comentários opcionais, erros de gravação, um clipe musical, dois spots promocionais, storyboards completos, dois trailers e dois featurettes de bastidores.

– Chumbo Grosso (Hot Fuzz, Reino Unido/França, 2007)
Direção: Edgar Wright
Elenco: Simon Pegg, Nick Frost, Jim Broadbent, Timothy Dalton
Duração: 121 minutos

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