Cidadão Kane

07/10/2003 | Categoria: Críticas

Edição especial em DVD do filme mais importante de todos os tempos é obrigatória em qualquer coleção

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Muita gente não entende porque “Cidadão Kane” (Citizen Kane, EUA, 1941) é considerado, de forma quase unânime, o maior filme da história do Cinema. As pessoas se aproximam respeitosamente da obra-prima de Orson Welles, esperando assistir a algo que mudará para sempre suas vidas. Só que esta abordagem é um caminho inevitável para uma grande decepção. Visto hoje, “Cidadão Kane” não parece nada espetacular, porque inúmeros filmes que vieram depois o copiaram – se o espectador já viu esses filmes, não perceberá as inovações como tal. Todas as técnicas revolucionárias que Welles e seus colaboradores criaram, em 1941, foram desde então utilizadas milhares de vezes. Você precisa entender o contexto em que o filme foi produzido para poder compreender a dimensão dos feitos de Welles, do fotógrafo Gregg Toland e do roteirista Herman Mankiewicz.

O que essa turma de beberrões e proscritos conseguiu realizar literalmente rachou o Cinema em dois. “Cidadão Kane” está para a história da Sétima Arte como Jesus Cristo para o mundo ocidental. O filme inovou em virtualmente todas as áreas, do roteiro à edição de som, da fotografia à composição de personagens, da montagem à mise-en-scéne, elevando os parâmetros técnicos, estéticos e narrativos para um novo patamar. Com a produção de Orson Welles, o Cinema chegou à maioridade artística definitiva. É irônico pensar que os cinéfilos (e o mundo em geral) quase foram privados de conhecer “Cidadão Kane”, já que o estúdio responsável pela obra, o RKO, por pouco não cedeu às pressões do magnata William Randolph Hearst para destruir os negativos originais.

Isto aconteceu porque Welles baseou o protagonista de “Cidadão Kane” – um milionário dono de um império de comunicações, tão ousado e impetuoso quanto dominador e egocêntrico – nos acontecimentos da vida de Hearst. Aos 25 anos de idade, o diretor era recém-chegado em Hollywood e tinha com a RKO um contrato que lhe dava plenos poderes para fazer o filme que desejasse, sem prestar satisfações a ninguém, com o orçamento de US$ 1 milhão. Especialista em Shakespeare e cheio de vontade de ousar, ele reuniu um grupo de homens talentosos e lhes deu liberdade total para experimentar, mesmo com pouco dinheiro. O resultado foi um filme que não tinha qualquer preocupação com bilheteria (algo raríssimo em Hollywood), e em cuja montagem os executivos não podiam mexer.

Welles inovou em cada área da produção de filmes. Para driblar problemas de orçamento, não construiu grandes cenários; preferiu usar um conjunto de técnicas ainda incipientes, fundindo maquetes, pinturas de cenários e objetos de maneira tão elegante e bem feita que muita gente nunca percebeu. Junto com o fotógrafo Gregg Toland, desenvolveu uma técnica ainda recente de fotografia, que chamou de “profundidade de foco”. Com novas lentes, os dois eram capazes de deixar em foco, simultaneamente, todos os elementos dos cenários suntuosos criados para o longa. Welles queria obrigar o espectador a atingir um novo nível de percepção, acompanhando duas e até três ações simultâneas que aconteciam num único plano, só que em profundidades diferentes.

Observe, por exemplo, a extraordinária seqüência em que a mãe do menino Kane vende o garoto para um banco. Ao fundo, a criança é vista brincando. Ele atira bolas de neve na direção da mãe, como se estivesse condenando o ato que, na verdade, não vê. O foco nítido garante que o espectador veja toda a ação e faça a correlação entre o primeiro e o segundo plano. Outras vezes, quando não era possível manter todos os planos desejados em foco em uma única tomada, Welles os filmava em separado e os unia por meio de trucagens, sempre de nível espetacular. Na cena em que a segunda esposa tenta o suicídio, vemos um longo plano com três imagens em profundidades distintas: um copo de água junto a comprimidos, o rosto da mulher desmaiada e a porta que Kane, do outro lado, esmurra desesperadamente. É uma trucagem. Tão bem feita que as pessoas não percebem, um verdadeiro prodígio técnico em 1941.

Do ponto de vista da narrativa, a criatividade de Welles não era menor. A cinebiografia do fictício Charles Foster Kane (interpretado por ele mesmo, na versão adulta) vai e volta no tempo, sem ordem cronológica, seguindo os passos de um repórter que investiga sua vida. Essa estratégia permitiu a construção de um retrato ambíguo e fragmentado de um homem egoísta e dominador. Esse sempre foi o tema favorito de Welles: desnudar gradativamente a personalidade de um monstro, mostrando como traumas e cicatrizes deixadas pela vida podem endurecer o coração de qualquer um. Para Welles, esse processo não permite volta. E os diálogos, afiados, trazem ironia fina e observações cortantes sobre a natureza humana. O monólogo do diretor do banco sobre a garota num barco vestida de branco, que ele viu na juventude por um instante e jamais conseguiu esquecer, funciona não apenas como uma pista da natureza efêmera do mistério central da trama (Rosebud), mas como uma parábola maravilhosa sobre os mistérios insondáveis da mente humana.

Há, é claro, uma infinidade de outras inovações. A edição de som é complexa. Muita vezes, o som de uma cena invade a seguinte, tornando as transições muito mais suaves e fluidas – esta técnica se tornaria padrão no Cinema após “Cidadão Kane”, mas até então era pouco usada. O uso das sombras como elemento artístico e a estratégia de filmar o protagonista com a câmera captando imagens de baixo para cima, para realçar a sensação de dominação, são algumas das técnicas que Welles tomou emprestado de diretores expressionistas, como Fritz Lang, dando-lhes uma dimensão ainda maior. Para fazer isso sem perder o realismo, Welles usou tetos falsos, feitos de pano, de forma a esconder os equipamentos de luz e som que ficavam acima dos atores. Os tetos reduziam os espaços livres e acentuavam ainda mais a sensação de sufocamento e desconforto que progressivamente tomava conta de Kane, enquanto ele envelhecia. A maquiagem também foi inovadora para a época.

Existe uma enorme quantidade de cenas antológicas. Uma delas é uma elipse maravilhosa, quando o filme salta seis anos. O momento acontece quando Kane decide contratar toda a equipe do jornal concorrente. Ele está olhando para uma fotografia do grupo de jornalistas na vitrine do outro jornal. A câmera se aproxima lentamente da foto e depois se afasta. Os homens da foto agora são seres de carne e osso; eles estão posando para uma nova foto, pois agora trabalham no jornal de Kane. É isso: a foto se transformou no primeiro enquadramento de uma nova cena. Pura mágica. Existem várias transições tão criativas e inteligentes quanto esta. É importante ressaltar que a qualidade das elipses e transições, muitas vezes, é o melhor modo de avaliar o nível de criatividade e ousadia do diretor, itens em que Orson Welles foi insuperável.

A distribuidora Continental foi a primeira a lançar “Cidadão Kane” no Brasil. Se você comprou a primeira versão nacional daquele que é unanimemente considerado o maior clássico do cinema do século XX, dê um jeito de trocá-lo ou vendê-lo e corra atrás da edição lançada pela Warner. O DVD duplo de “Cidadão Kane” é um item obrigatório em qualquer videoteca. Trata-se do disco ideal para iniciar uma coleção e, pode acreditar, é motivo suficiente para os amantes da Sétima Arte desembolsarem uma grana a mais e adquirirem um aparelho.

São muitos os motivos para considerar esse lançamento imperdível. O primeiro é a qualidade da restauração feita pela Warner, a partir de uma cópia do negativo original (perdido até hoje) encontrada há poucos anos no arquivo do estúdio. A qualidade das imagens é absolutamente impecável. O contraste, o jogo de sombras, os enquadramentos, as texturas, é tudo de qualidade técnica assombrosa. Fica difícil mesmo acreditar que todas aquelas imagens foram produzidas há 60 anos. E o som também beira a perfeição, restaurado com os efeitos mono originais. Resumindo: é “Cidadão Kane” em todo o seu esplendor.

Para completar, há os extras. Dois comentários de áudio esclarecem muito bem o porquê de tantos elogios feitos a “Cidadão Kane”. Na verdade, pode-se dizer que o diretor, roteirista e ator Orson Welles mudou o cinema para sempre. Ele catalogou e utilizou uma assombrosa quantidade de técnicas narrativas e estéticas, revolucionando quase todo aspecto que se pode imaginar. O trabalho de construção meticuloso desse filme vem narrado em detalhes pelo crítico Roger Ebert e pelo cineasta e biógrafo de Welles, Peter Bogdanovich. Infelizmente, essas trilhas de áudio estão sem legendas.

E o DVD não traz apenas o filme. O segundo disco do pacote é outra preciosidade e traz o documentário “A Batalha Sobre Cidadão Kane”. Indicado ao Oscar da categoria em 1995, o filme, de 113 minutos e com som estéreo, dá um panorama completo da carreira de Welles, mostra imagens raras e oferece trechos da famosíssima transmissão da “Guerra dos Mundos” pelo rádio. Além disso, traça um belo paralelo com a trajetória do magnata William Randolph Hearst, que inspirou o Kane original. E vai mais além: explica passo a passo o processo criativo do filme, em que Welles estava envolvido até a medula, e depois detalha a briga de bastidores promovida por Hearst, que ouviu falar no filme e recorreu a ordens judiciais e chantagem junto ao estúdio RKO para tentar impedir sua divulgação. Hearst venceu parcialmente a briga na época: “Cidadão Kane” foi um fracasso de público. Mas a História deu a Welles oque ele merecia. Tudo isso vem com legendas em português.

Para quem ainda não ficou satisfeito, há um trecho de um minuto que contém cenas da estréia de gala do filme em Nova Iorque; dez minutos de exibição de fotografias das filmagens com comentário de Roger Ebert; e toda a galeria (animada meio de longe, o que não permite ao espectador ver as imagens com detalhes) de storyboards, que demonstram como Welles tinha noção exata da obra-prima que estava prestes a assinar. Ainda existe um trailer, biografias e notas de produção, tudo com menus animados. Se existe um pequeno defeito, é a ausência de um documentário que esmiúce e contextualize todas as inovações técnicas realizadas por Welles. Mas para isso existe este texto (e a Internet), certo?

- Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941)
Direção: Orson Welles
Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore
Duração: 119 minutos

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5 comentários
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  1. Excelente post, Cidadão Kane é realmente o número 1. É incrível o que essa equipe conseguiu realizar em pleno início dos anos 40.

  2. Cidadão Kane | Cine Repórter http://t.co/Q7ancQg via @AddThis

  3. Somente com Cidadão Kane, Orson Welles já poderia se dar por satisfeito e saber que seu nome ficaria pra sempre como um dos maiores gênios (se não o maior) da Sétima Arte. Mas houveram outras obras-primas suas que engradecem o quadro das maiores obras do cinema: Soberba, Macbeth, A Marca da Maldade, etc.

  4. [...] no Google, e o buscador iria dar como resultado o meu texto (que não existe, vale notar), e não o texto do Rodrigo Carreiro no CineRepórter, ou o do Pablo Villaça no Cinema em [...]

  5. Ótimo filme e um verdadeiro estudo sobre acensão,sucesso e queda de um homem.Muitas inovações que hoje não são nada demais,mas que na época eram revolucionárias.Perfeito…sua liderança nas listas de melhores de todos os tempos e tudo o que escrevem até hoje sobre CIDADÃO KANE é a mais pura verdade.Clássico.

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