Cidade Baixa

21/03/2006 | Categoria: Críticas

Sérgio Machado faz um filme que sabe de onde vem e para onde vai, cru, violento e despudorado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Os baianos Wagner Moura e Lázaro Ramos são, sem dúvida, os dois atores que mais acumularam bagagem e experiência cinematográfica na fase chamada de retomada do cinema brasileiro (de 1994 para a frente). Os dois, grandes amigos longe das telas, interpretam dois vértices de um triângulo amoroso incomum em “Cidade Baixa” (Brasil, 2005), surpreendente estréia do cineasta Sérgio Machado na direção. A surpresa vem da confiança e da maturidade que exalam da tela. “Cidade Baixa” é um filme que sabe de onde vem e para onde vai; é um filme cru, violento e despudorado, que transpõe elementos carregados do melodrama apaixonado de Fassbinder para o ambiente decadente de uma zona de prostituição de Salvador (BA).

O filme gira em torno de três personagens. Karina (Alice Braga) é uma prostituta de 20 anos que sai do interior baiano para ir tentar a sorte em Salvador (BA). No caminho para a capital, pega uma carona de barco com os amigos Naldinho (Moura) e Deco (Ramos). A dupla, inseparável, vive de pequenos roubos e do transporte de carga, via marítima, pelas cidades baianas. No início, Karina não passa de uma diversão passageira, por quem pagam R$ 40,00 por um programa duplo. A convivência forçada por alguns dias dentro do barco, porém, faz os três se aproximarem. Daí para os dois rapazes se apaixonarem por ela é um pulo.

“Cidade Baixa” impressiona, acima de tudo, porque pulsa com vigor, algo que não acontece com muita freqüência no cinema; trata-se de um filme que pega pelo estômago, não pelo intelecto. Nada há no filme de cerebral, ele é puro instinto. Por trás dessa eletricidade, contudo, está uma obra que celebra a paixão, o estar vivo. Deco ama Karina, e Naldinho ama Karina, que ama os dois. A tensão gerada por esse encontro tríplice desemboca numa conseqüência desagradável da paixão, que é o ciúme, e aí o filme investe na dor e na delícia do amar, que chegam juntos em um pacote único para abalar uma amizade aparentemente inabalável.

O filme não tem exatamente um enredo, uma história linear; seu fio condutor é a transformação dos personagens em animais sexuais. Por isso, o que salta aos olhos em primeiro lugar é a interpretação do trio de atores. Eles funcionam como força-motriz do longa-metragem, e é deles que emana a energia vital do projeto. Qualquer cena de sexo – e elas são muitas – deixa evidente a entrega com que Lázaro, Wagner e Alice encararam a obra de Sérgio Machado. Quando se beijam, quase engolem a boca um do outro. Quando se abraçam, só faltam tirar pedaço. Os atores empregam tanta energia na atuação quanto os seus personagens no ato de amar. Tanta vontade funciona a favor do filme, que fica carregado de tensão e energia sexual. É um sentimento primitivo, não há dúvida. Mas esse caráter animalesco é a marca registrada de “Cidade Baixa”, e sua maior qualidade.

Os três atores tiveram que passar por uma preparação de dois meses antes de filmar. Fátima Toledo, a profissional que treinou o elenco de “Cidade de Deus” e “Pixote”, foi a responsável pelo trabalho. Essa preparação só fez bem ao projeto. Improvisando à vontade nos diálogos, o trio perseguiu uma linguagem desordenada, cheia de gírias, apelidos, palavrões, frases pela metade; uma linguagem que emulasse o português das ruas, dos becos, das boates vagabundas de strip-tease, dos inferninhos do porto de Salvador (BA). A gramática do filme, como bem observou o produtor Walter Salles, é uma grande virtude. O filme traz o vocabulário e o ritmo de fala das ruas. O resultado final é diferente do que se vê no cinema normalmente, mas a diferença funciona para o bem, pois confere uma autenticidade e uma originalidade instantâneas ao filme.

Outra virtude é o roteiro simples e bem amarrado, assinado pelo diretor e por Karim Aïnouz (diretor de “Madame Satã”). Os dois afirmam que não estavam interessados em contar uma história ou filmar um panfleto sobre a condição de vida nas favelas, mas apresentar personagens consistentes que vivessem a vida como se estivessem à beira da morte. Acertaram na mosca – e, como quase sempre acontece nesses casos, apresentaram um retrato pulsante da periferia urbana brasileira. Nesse sentido, “Cidade Baixa” não é um caso isolado; demonstra, mais uma vez, como os homens que fazem cinema no Brasil consideram a vida nas favelas infinitamente mais interessante do que a monotonia que reina nos bairros das elites. Pense: quantos filmes nacionais cujos cenários são lugares ricos você tem visto por aí? Não são muitos, certo?

Diversos cineastas acertaram ao retratar a vida na favela brasileira, de maneiras às vezes muito diferentes. Os dois pólos antagônicos são o Cláudio Assis cru de “Amarelo Manga”, que chega a resvalar no grotesco, e o Fernando Meirelles do já clássico “Cidade de Deus”, filme que filtra a favela com uma lente pop e colorida. Sérgio Machado está mais para o primeiro, embora obtenha um registro particular, graças ao excelente trabalho de iluminação do fotógrafo Toca Seabra (de “O Invasor”), especialmente nas cenas noturnas.

Como a maior parte do filme se passa à noite, em boates de strip-tease do porto de Salvador (BA), esse trabalho salta aos olhos sem esforço. Por outro lado, também na fotografia existe um problema, que é o abuso de imagens tremidas e fora de foco, captadas com câmera na mão. Esse é um cacoete que 11 entre 10 filmes brasileiros têm repetido à exaustão nos últimos tempos. O que era uma ousadia estética virou um clichê do qual Sérgio Machado não conseguiu de desvencilhar. O problema depõe certa falta de originalidade, mas que não afeta o resultado como um todo.

“Cidade Baixa” vem tendo excelente receptividade, tanto nacional quanto internacional. Ganhou o Festival do Rio 2005 e o Prêmio da Juventude em Cannes, além de ter recebido críticas positivas de grandes veículos internacionais, o que deve lhe garantir razoável carreira nos cinemas. Embora não seja o tipo de produto com potencial para agradar a grandes platéias, tem boas chances de formar um público pequeno e fiel, que certamente vai reconhecer como grande revelação – talvez a maior do filme – na figura de Alice Braga.

Sobrinha de Sônia Braga e figurinha promissora para quem viu “Cidade de Deus”, Alice virou mulher e está perfeita no papel de Karina. Ela compensa a falta de experiência em cinema, em comparação com os globais Lázaro Ramos e Wagner Moura, realizando um trabalho de postura corporal perfeita; sua Alice tem o nariz empinado e o olhar desafiador das prostitutas que tentam, na marra, encobrir a fragilidade própria das mulheres. De quebra, é desinibida e dona de uma beleza refrescante, certamente pouco glamourosa, mas cheia de intensidade e energia sexual. Suas cenas de sexo são vulcânicas, como não se via desde o tempo das pornochanchadas nacionais.

Vale comentar, ainda, o desempenho homogêneo de todo o desconhecido elenco de apoio, incluindo as atrizes que interpretam as garotas de programa e a ponta sempre talentosa de José Dumont. Este aparece logo no início, numa das cenas mais bacanas do filme: uma impressionante e realista briga de galos (filmada com lentes especiais para dar a impressão de que os animais realmente estavam lutando). A cena funciona como microcosmo da produção como um todo, cheia de energia, sangue, suor e vontade de viver. É ótimo ver um filme assim.

O lançamento em DVD é da Videofilmes. O disco é simples e traz o filme com enquadramento original (wide anamórfico), mais som de boa qualidade (Dolby Digital 5.1).

– Cidade Baixa (Brasil, 2005)
Direção: Sérgio Machado
Elenco: Wagner Moura, Lázaro Ramos, Alice Braga, José Dumont
Duração: 100 minutos

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