Cidade dos Sonhos

01/01/2004 | Categoria: Críticas

Filme de David Lynch pode ser impenetrável e confuso, mas é uma experiência sensorial fascinante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O universo de David Lynch não é para todos. Povoado de criaturas bizarras, alegorias fantasmagóricas, sujeitos que vagam desconcertados pelos submundos de Los Angeles, ele compõe uma obra de perguntas. Lynch é um desses raros cineastas que recusam respostas fáceis. Isso resulta em filmes sombrios, esquitos, às vezes impenetráveis, e nem sempre compreensíveis aos nossos olhos acostumados a filmes que pensam por nós. Por isso, “Cidade dos Sonhos” não foi capaz de bater recordes de bilheteria. Nem tinha esse objetivo, aliás. Muito pelo contrário.

Antes de se aventurar no mundo de charadas proposto por David Lynch, portanto, é melhor aceitar um conselho: se decidir encarar os 140 minutos do longa, prepare-se para encarar um filme que provavelmente não vai entender. Se você caiu na gargalhada ou se enfureceu ao ver a chuva de sapos no final de “Magnólia”, provavelmente “Cidade dos Sonhos” não é para você.

O filme de David Lynch, cuja direção foi premiada em Cannes, confunde mais do que explica, deixa portas abertas e espalha enigmas e pistas durante quase duas horas e meia. Não é um filme para ser compreendido; nem sempre o bom cinema precisa ser entendido. A obra de David Lynch deve ser sentida. Veja “Cidade dos Sonhos” com o coração e se delicie com seqüências delirantes, bizarras até, mas emocionantes ou intrigantes; depois, se quiser, procure juntar os cacos e formular uma teoria para aquilo que viu. Vai ser uma experiência diferente, pode acreditar.

Bem, se você chegou até aqui, possivelmente ficou interessado em ver “Cidade dos Sonhos”. Algumas informações sobre os percalços da produção e sua repercussão diante da crítica cinematográfica, portanto, podem dar mais detalhes sobre o espetáculo que você vai testemunhar, mas sem revelar demais para não estragar a surpresa. Primeiro, o espectador precisa saber que “Mulholland Drive” (título original) foi concebido como o piloto de uma série de TV para a empresa norte-americana ABC, em 1999. O canal queria algo no estilo de “Twin Peaks”, a minissérie de sucesso, até hoje o trabalho comercialmente mais bem sucedido de Lynch.

Aprovado o roteiro, Lynch rodou o longa-metragem ao custo de US$ 8 milhões. O enredo narra o encontro de duas mulheres, a loira Betty (Naomi Watts, numa interpretação estupenda; isso fica evidente numa determinada seqüência onde ela faz um teste cênico, perto do final do filme, repetindo um diálogo que recitara alguns momentos antes, de forma completamente diferente – são as mesmas palavras, mas elas ganham significado muito diferente) e a morena Rita (Laura Elena Harring), em Hollywood. A primeira acaba de chegar do Canadá para tentar a vida como atriz de cinema. Ao chegar e se hospedar na casa de uma tia, encontra Rita, desmemoriada depois de sofrer um acidente na Mulholland Drive do título.

Aviso aos navegantes: a tal avenida, escura e deserta, liga Los Angeles e Hollywood no alto de uma cadeia de montanhas que circunda a região; ela oferece uma linda vista das duas cidades e de todo o vale californiano onde está situado o verdadeiuro oásis metropolitano que é a grande Los Angeles. Juntas, Rita e Betty começam a investigar para descobrir quem a morena realmente é, e o que fazia antes do acidente. Ao mesmo tempo, numa trama paralela, um cineasta famoso (Justin Theroux) é pressionado por mafiosos para escalar uma desconhecida como protagonista de seu novo filme, algo que se recusa a fazer.

“Cidade dos Sonhos” virou filme por um caminho bastante tortuoso. Depois que a ABC viu o piloto da futura série, recusou o resultado e engavetou o projeto indefinidamente. Lynch então conseguiu um financiamento de US$ 8 milhões da empresa francesa Studio Canal, reescreveu o roteiro e condensou o que seria a minissérie num filme mais longo, cuja trama sofre uma reviravolta inesperada no último terço da projeção.

O resultado rachou a crítica internacional em centenas de opiniões. Uns amaram, outros detestaram; alguns não entenderam nada, outros fingiram entender. As interpretações para os acontecimentos vistas na tela raramente convergem. Para se ter uma idéia, o jornal inglês The Guardian fez uma enquete com seis críticos de renome; cada um havia compreendido o filme de uma maneira diferente.

Na Internet, o burburinho diante da obra é tão grande que existem fóruns onde os espectadores continuam a esquadrinhar detalhadamente todas as cenas do filme, em busca de pistas que possam reforçar ou descartar essa ou aquela interpretação. “Cidade dos Sonhos”, porém, paira acima de toda essa discussão. Afinal, para ser genial, um filme não precisa necessariamente ser compreendido; ele precisa, sim, ser sentido.

– Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, EUA/França, 2001).
Direção: David Lynch
Elenco: Naomi Watts, Laura Elena Harring, Justin Theroux, Ann Miller, Robert Forster
Duração: 140 minutos

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