Cidade Nua

16/06/2006 | Categoria: Críticas

Longa-metragem adota estilo semi-documental em busca de realismo ao mostrar uma investigação policial

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A segunda metade da década de 1940 viu surgir um estilo diferente de filmes policiais. Os cineastas noir buscavam inspiração no estilo visual sombrio do expressionismo alemão e o aplicavam às narrativas dos romances baratos produzidos às dúzias na época, obtendo um resultado muito estilizado. A reação a esse procedimento veio de uma vertente mais obscura, que perseguia o realismo a todo custo. “Cidade Nua” (Naked City, EUA, 1948), de Jules Dassin, talvez seja o filme mais conhecido deste subgênero, que tentava imprimir um tom semi-documental à história, concentrando a narrativa nos detalhes da investigação de um crime intrincado.

É importante ressaltar, contudo, que a fama de “Cidade Nua” não vem do filme em si, mas da série policial que ele inspirou, e que foi ao ar, na TV norte-americana, entre os anos de 1958 e 1963. Além disso, o cineasta Jules Dassin também ficou conhecido por razões extra-cinema, já que foi perseguido sob a acusação de comunismo e teve que se exilar na França, onde filmou o espetacular “Rififi”, já adotando uma perspectiva muito mais ficcional e estilizada, mais afeita ao padrão noir.

A história acompanha, passo a passo, dois detetives encarregados de investigar um crime complicado ocorrido em Nova York. Certa manhã, a descoberta do corpo de uma jovem e bela modelo desperta suspeitas nos investigadores Dan Muldoon (Barry Fitzgerald) e Jimmy Halloran (Don Taylor). Sem pistas aparentes, a dupla recolhe todos os objetos espalhados pelo apartamento da garota morta e começa a entrevistar todo mundo que ela conhecida: os pais, os parentes, os amigos, o médico da família, o vendedor da farmácia onde comprava remédios. É como procurar uma agulha em um palheiro – e no entanto, trata-se de uma investigação excitante.

Os primeiros minutos de projeção já deixam claro que “Cidade Nua” não é um filme comum. Os créditos não são exibidos em letreiros, como de costume, mas mencionados por um narrador que se identifica como o produtor Mark Hellinger. A estratégia é clara: a opção por radicalizar na introdução, assumindo que se trata de um filme, objetiva alertar o espectador para o fato de que “Cidade Nua” não tem nada de comum. O mérito maior do longa-metragem é enfocar os detalhes complexos e sutis dos bastidores de uma investigação policial, o que torna os tiras – aquela raça de super-homens que, no cinema, bebem litros de uísque e nunca ficam bêbados, e jamais são atingidos pelos tiros dos bandidos – mais humanos.

Na época, não eram muitos os filmes que mostravam os policiais em casa, fora da cena do crime ou da delegacia. “Cidade Nua” faz isso, enfatizando inclusive a falta de tempo que eles tinham para dedicar às famílias, problema com que os detetives eram obrigados a lidar. Dassin prova ser um diretor sensível ao mostrar que sabe os momentos adequados para inserir humor e agilidade na narrativa – a seqüência da velhinha que chega à delegacia dizendo saber quem matou a modelo é hilariante – e quando apostar na ação pura e simples.

Na forma de narrar, Dassin é direto, mostrando quase sempre a ação do mesmo ponto de vista dos policiais. Uma das exceções está na cena de abertura, quando o diretor prefere fazer a platéia saber mais que os detetives (nós conhecemos, desde o princípio, a identidade dos criminosos, embora não estejamos cientes dos elos entre vários personagens do filme). Dassin também quebra a regra no terço final, quando acompanhamos a perseguição derradeira a um dos assassinos em uma montagem paralela que mostra tanto as ações da polícia quanto as reações do acusado. O recurso é eficiente, pos aumenta a tensão.

“Cidade Nua” lembra um pouco o excepcional “M – O Vampiro de Düsseldorf”, de Fritz Lang, pelo ângulo quase jornalístico com que enfoca o trabalho policial. Curioso notar, aliás, que o próprio diretor germânico filmava em Hollywood na mesma época, mas optando por filmes mais estilizados. Dentro dos EUA, o longa-metragem possui uma semelhança evidente com “Demônio da Noite”, pequena produção do mesmo ano, que investia no mesmo filão semi-documental emergente. Ambos são ótimos filmes, que exerceriam uma influência notável em alguns dos melhores thrillers dos anos 1990, como “Seven” (1995) e “O Silêncio dos Inocentes” (1991).

A Continental lançou a produção no Brasil em uma edição simples, tendo apenas um trailer e galeria de pôsteres como extras. O filme está com enquadramento correto (4:3, ou tela cheia) e som razoável (Dolby Digital 2.0).

– Cidade Nua (Naked City, EUA, 1948)
Direção: Jules Dassin
Elenco: Barry Fitzgerald, Howard Duff, Dorothy Hart, Don Taylor
Duração: 96 minutos

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