Ciladas da Sorte

24/10/2006 | Categoria: Críticas

Estréia de Kevin Spacey na direção mescla thriller e drama de forma irregular

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Reconhecidamente bom ator, dono de dois Oscar no currículo por interpretações inesquecíveis em “Os Suspeitos” (1995) e “Beleza Americana” (1999), Kevin Spacey se aventurou pela primeira vez na direção de um longa-metragem através de um projeto independente. Com o minúsculo orçamento de US$ 5 milhões e um roteiro tipicamente teatral, calcado em bons diálogos e interpretações tensas, ele construiu o thriller “Ciladas da Sorte” (Albino Alligator, EUA, 1996) de modo irregular.

Apesar da história interessante e da excelente direção de atores – o elenco, cheio de gente boa do naipe de Gary Sinise (“Forrest Gump”) e Faye Dunaway (“Chinatown”), ajuda bastante – o trabalho de Spacey é o ponto fraco da obra. No geral, o filme realiza uma interessante simbiose entre o tenso policial “Um Dia de Cão” (1975) e o melodrama “A Escolha de Sofia” (1982), mas a direção vacilante do ator acaba comprometendo o resultado final, por não prestar atenção em detalhes que dão à obra uma indisfarçável atmosfera artificial. Em outras palavras, o público jamais consegue mergulhar na história e acreditar que a ação mostrada poderia se passar no mundo real.

A abertura, no entanto, é ótima. A platéia acompanha uma vigília policial a uma ação criminosa, mas o meliante – cujo rosto nunca vemos – consegue escapar da prisão fugindo de carro. Na perseguição, o carro dos agentes acaba se chocando contra o de um outro grupo de ladrões, uma turma quase amadora: Dova (Matt Dillon), Milo (Gary Sinise) e Law (William Fichtner). Eles se refugiam em um bar no subterrâneo de um velho e imundo prédio de tijolos aparentes, fazem cinco reféns e acabam cercados pela polícia. No restante do filme, vamos assistir aos bandidos quebrando a cabeça para imaginar uma maneira de conseguir escapar do cerco policial.

O desenvolvimento da história é convincente, e o roteiro de Christian Forte consegue desenvolver bem as situações de conflito dentro do grupo, mesmo clonando cenas inteiras de “Um Dia de Cão”, incluindo as personalidades de componentes do bando criminoso (nos dois filmes citados há um líder indeciso e um psicopata que ameaça pôr tudo a perder). No entanto, o filme derrapa devido à direção equivocada. Spacey erra, por exemplo, ao escolher como locação um bar de salão amplo e bem iluminado, o que desfavorece bastante o clima claustrofóbico que um filme do gênero deveria ter.

Além disso, o comportamento de policiais e meliantes é inconcebível, de um amadorismo flagrante. Os primeiros, liderados pelo agente Browning (Joe Mantegna), parecem mais interessados em bater boca com membros da imprensa presentes no local do que em resolver a situação. Os últimos jogam sinuca e bebem cerveja tranqüilamente dentro do bar, como se estivessem apenas esperando o dia clarear para tomar o rumo de casa. O resultado desses equívocos é o que o filme parece frouxo, sem tensão, parecendo mais teatro filmado do que o thriller tenso que poderia ser, mesclando drama e suspense em doses iguais.

Há, no entanto, elementos positivos, como o misterioso personagem do ator dinamarquês Viggo Mortensen (“O Senhor dos Anéis”) e a brilhante idéia do “crocodilo albino” do título original. A partir deste conceito, o roteirista conseguiu criar um final surpreendente e excitante, capaz de apagar para muita gente os equívocos apresentados no miolo da trama. “Ciladas da Sorte” foi muito criticado na época do lançamento em cinemas, chegando a concorrer ao Framboesa de Ouro (o prêmio dos piores filmes de cada ano, entregue na véspera do Oscar), e tem defeitos graves, mas está longe de ser um filme ruim.

O DVD brasileiro, vendido em bancas de revistas, tem qualidade bastante fraca. A imagem sofreu cortes laterais (fullscreen 4:3) e o som é apenas razoável (Dolby Digital 2.0). Não há extras no disco simples.

– Ciladas da Sorte (Albino Alligator, EUA, 1996)
Direção: Kevin Spacey
Elenco: Matt Dillon, Gary Sinise, William Fichtner, Faye Dunaway
Duração: 97 minutos

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