Cinturão Vermelho

17/12/2008 | Categoria: Críticas

Espécie de ‘Touro Indomável’ do jiu-jitsu, filme de David Mamet é drama adulto, povoado de personagens consistentes e boas atuações

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

É um erro pensar em “Cinturão Vermelho” (Redbelt, EUA, 2008) seja um filme de jiu-jitsu, como querem alguns. O longa-metragem de David Mamet está para a modalidade esportiva assim como “Touro Indomável”, de Martin Scorsese, está para o boxe. Trata-se de um drama que usa a estrutura narrativa carimbada marca registrada do diretor e roteirista norte-americano – diálogos não-expositivos, trama intrincada, reviravoltas surpreendentes – para entrelaçar duas grandes paixões pessoais dele: o cinema e o próprio jiu-jitsu. Apresentando influência palpável dos filmes de Akira Kurosawa que retrataram o código de honra dos samurais, “Cinturão Vermelho” acaba mostrando um lado pessoal raro de apreciar nos trabalhos de Mamet.

Como se sabe, o cineasta é praticante assíduo de jiu-jitsu (usa faixa roxa, nível avançado que normalmente só competidores de alto nível ostentam), além de militar na periferia de Hollywood por mais de duas décadas. Assim, ele concebeu um enredo que vai além de simplesmente cruzar os dois mundos que habita. Mamet divide os habitantes desses mundos em dois blocos bem distintos. Nas academias e ringues de jiu-jitsu e na indústria cinematográfica, existe gente de ética e lealdade inquestionáveis, gente disciplinada física e mentalmente, mas também há tubarões e predadores prontos para tirar proveito de qualquer fragilidade de um oponente. E a composição do personagem protagonista, um professor de jiu-jitsu fiel ao código de honra do esporte, deixa bem claro qual em que lado David Mamet está.

Mike Terry (Chiwetel Ejiofor) é o tipo de homem raro nos dias de hoje. Ele dirige uma pequena academia e vive de acordo com os ensinamentos originais do esporte – é uma espécie de samurai moderno. Um sujeito honrado e anacrônico, cujo apego ferrenho ao código de honra do esporte anda deixando-o em apuros financeiros. Ao conhecer um astro decadente de cinema (Tim Allen) e ajudá-lo em uma situação complicada, Mike parece abrir uma porta para novas oportunidades profissionais, para si mesmo e para a esposa brasileira (Alice Braga), insatisfeita com a mentalidade pouco prática do marido. Num filme de David Mamet, porém, nada é o que parece. Há outros personagens: um empresário esportivo canalha (Rodrigo Santoro), um policial praticante de jiu-jitsu (Max Martiny), uma advogada vítima de abuso sexual (Emily Mortimer).

Todas as peças do quebra-cabeça são postas na mesa por Mamet num primeiro ato bem ao feitio do roteirista/diretor. Ele apresenta os personagens isoladamente. Aos poucos, o roteiro começa a traçar conexões entre eles, em um processo contínuo levado a cabo com habilidade pelo diretor. Este processo só chega ao final no terceiro ato, quando finalmente são reveladas as motivações de cada um. Como de hábito, os diálogos inteligentes são um ponto forte, algo natural para um homem que veio do teatro. Mamet se recusa a fazer exposição de maneira óbvia. Os diálogos são oblíquos, esquivos, e obrigam o espectador a raciocinar para completar lacunas, interpretar situações e extrair significados. Isso pode incomodar parte da platéia, acostumada a receber informações mastigadas, mas é um dado sempre elogiável, porque faz o público participante ativo da experiência cinematográfica.

Os personagem bem escritos e consistentes auxiliam o elenco a manter um desempenho uniforme, de nível bastante elevado. O Brasil ganha bastante destaque na trama, com vários diálogos e músicas em português. Alice Braga está ótima, e Rodrigo Santoro mostra personalidade nas poucas cenas em que aparece. A expressão corporal de Emily Mortimer, sempre arisca, como um animal assustado, mostra o cuidado com que ela construiu um personagem mercado pelo trauma. Apesar de tantas boas performances, Chiwetel Ejiofor brilha um degrau acima dos colegas. Ele encarna o personagem com absoluta perfeição, projetando a paz interior de alguém para quem a honra é mais importante do que qualquer coisa. Durante quase todo o tempo, Mike é pura calma e controle, apesar de enfrentar um grande dilema ético ao mesmo tempo em que vê o mundo desabar à sua volta.

Apesar das qualidades, “Cinturão Vermelho” não é um filme perfeito. O argumento guarda características tipicamente hollywoodianas, contendo rimas internas que, apesar de inteligentes, já se tornaram clichê (observe como as instruções que o professor dá ao aluno policial, na cena de abertura, serão essenciais para ele mesmo, na última seqüência). Além disso, o terceiro ato tem a narrativa um pouco truncada, e é certamente melodramático e inverossímil. Nesses momentos, o filme carece de maior senso de realidade. Mesmo assim, “Cinturão Vermelho” é drama adulto, bem construído e excepcionalmente interpretado.

O DVD simples, da Sony, preserva o enquadramento original (widescreen anamórfico) e tem áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– Cinturão Vermelho (Redbelt, EUA, 2008)
Direção: David Mamet
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Alice Braga, Tim Allen, Emily Mortimer
Duração: 99 minutos

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