Cisne Negro

03/02/2011 | Categoria: Críticas

Darren Aronofsky incorpora o Polanski dos anos 1960-70 e produz um dos melhores thrillers de horror psicológico dos últimos anos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Darren Aronofsky garante: “Cisne Negro” (Black Swan, EUA, 2010) foi concebido e executado como um filme-irmão de “O Lutador” (2008). À primeira vista, a afirmação do diretor pode parecer um desatino. Afinal, temos um thriller de horror psicológico ambientado nos chiques bastidores de uma superprodução de balé contra um drama familiar a respeito de um lutador decadente de wrestling. Onde estariam as semelhanças? A resposta: no cuidadoso estudo de personagens trágicos empreendido pelos dois roteiros, nas interpretações brilhantes de seus protagonistas, no estilo sensorial de filmar (especialmente o uso da câmera e o desenho de som) e, claro, no resultado final: ambos são filmes magníficos.

“Cisne Negro” integra, grosso modo, um subgênero que vem sendo explorado de forma crescente desde os anos 1970, e que aposta em narrativas subjetivas – ou seja, contadas do ponto de vista de um personagem específico. A inspiração evidente do thriller de Aronofsky vem da trilogia informal que Roman Polanski dirigiu na virada entre as décadas de 1960 e 1970: “Repulsa ao Sexo”, “O Bebê de Rosemary” e especialmente “O Inquilino”, três obras-primas do horror psicológico, de cujo nível geral de qualidade o filme de Aronofsky não fica atrás. Seu filme é cinema conciso, bem narrado, e apresenta um dos mais eficientes usos de efeitos visuais computadorizados do cinema norte-americano contemporâneo.

A história é narrada a partir do ponto de vista de Nina (Natalie Portman), bailarina de uma grande companhia nova-iorquina cujo diretor (Vincent Cassel) decide rejuvenescer, substituindo a dançarina principal (Winona Ryder, em ponta de luxo) por um rosto desconhecido em uma montagem ousada do clássico “O Lago dos Cisnes”. A idéia inovadora da nova encenação consiste em escalar a mesma bailarina para os papéis antagônicos da heroína e da vilã (o tal Cisne Negro do título). Nina é forte candidata ao papel, mas esbarra num problema: seu perfeccionismo obsessivo, junto com a personalidade tímida e recatada, a faz ter dificuldades para encarnar a personalidade voluptosa da personagem má.

No primeiro ato, Aronofsky capricha em soluções visuais criativas para fazer o espectador mergulhar na personalidade de Nina. Sob as asas de uma mãe castradora que vê na filha a possibilidade de realizar seus próprios sonhos fracassados, a bailarina segue uma rotina espartana que lhe tolhe sonhos e desejos. Uma de suas válvulas de escape parece ser a auto-mutilação – propositalmente, Aronofsky mantém variadas possibilidades em aberto, indicando diversos caminhos possíveis que expliquem seu comportamento volátil. A possibilidade de ganhar o papel da superprodução, contudo, liberta uma Nina que nem todo mundo – ou quase ninguém – conhece, rumo a um terceiro ato arrebatador.

Cineasta conhecido por investir pesado em imagens e sons que mergulham o espectador em um universo mais sensorial do que propriamente emocional, Aronofsky aposta no desenho de som que valoriza ruídos hiper-reais (observe a cena em que Nina estala os dedos dos pés ao acordar pela manhã, ou a obsessiva preparação dos bailarinos que arranham as solas das sapatilhas para melhorar a performance) e em close-ups extremos dos rostos da moça para sublinhar seu caráter metódico e sua tensão permanente. A música de Clint Mansell, composta a partir de variações dissonantes e sombrias dos temas de “O Lago dos Cisnes” de Tchaikovski, ajuda a manter a atmosfera levemente onírica, reforçada pela direção de soturna, que usa com eficiência os contrastes entre preto e branco. De quebra, o discreto ruído de asas batendo que surge subitamente em pontos específicos da narrativa sinaliza a natureza do conflito interior de Nina e funciona como um índice do final do filme.

Elementos como o quadro evocando um teste de Rorschach na parede da casa do diretor da companhia, a estampa no travesseiro de Nina e as asas tatuadas nas costas da amiga e rival (Mila Kunis), além do uso sempre interessante de espelhos em tomadas-chave de diversas cenas, revelam que o filme lida com mais uma variação da temática do duplo (ou doppelgänger), muito explorada pelos autores góticos da literatura de horror do século XIX, e Aronofsky não se furta a mergulhar violentamente nessa veia romântica rumo ao terceiro ato, quando a câmera de Matthew Libatique dá um show particular ao “dançar” junto com Nina na nova versão do espetáculo clássico (a decisão de colocar a câmera dentro do palco se revela fundamental para sustentar a natureza sensorial das cenas de dança). As longas caminhadas em que a câmera segue o personagem à frente – recurso estilístico também usado em “O Lutador” – também emprestam ao filme tensão e agilidade extras.

Nenhuma dessas virtudes técnicas seria suficiente para fazer de “Cisne Negro” o grande filme que ele é sem a presença de Natalie Portman. De fato, todo o elenco está bem, em particular o sempre eficiente Vincent Cassel (sua cena de sedução é poderosa), mas a jornada emocional que a atriz imprime à protagonista ao longo do filme a leva (e a nós também) de um extremo a outro do cardápio de emoções humanas, numa entrega sempre salutar de ver em um ator. Esqueça o bom “Ilha do Medo”: o grande filme de narrativa subjetiva de 2010 está bem aqui.

– Cisne Negro (Black Swan, EUA, 2010)
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey
Duração: 108 minutos

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