Clã das Adagas Voadoras, O

13/07/2005 | Categoria: Críticas

Zhang Yimou aperfeiçoa receita de “Herói” e faz épico romântico de ação visualmente belo e emocionante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O cineasta chinês Zhang Yimou teve o cuidado de esperar quase três anos antes de lançar outro épico de artes marciais, depois do incrível sucesso de “Herói”. Por causa do complicado processo de distribuição no mundo ocidental, no entanto, este tempo evaporou, de forma que “O Clã das Adagas Voadoras” (Shi Mian Mai Fu, China/Hong Kong, 2004) chegou às salas de projeção dos Estados Unidos poucos meses depois do longa-metragem anterior. No Brasil, a situação foi ainda pior, pois apenas duas semanas separaram os dois lançamentos. Essa estratégia equivocada de lançamento prejudica bastante “O Clã das Adagas Voadoras”, o mais coeso filme chinês do gênero a ganhar as telas do Ocidente.

Por chegar ao mercado cinematográfico quase ao mesmo tempo em que a produção anterior de Zhang Yimou, o filme de 2004 acabou ganhando fama de ser uma espécie de tentativa esforçada do cineasta para repetir o sucesso do longa-metragem de 2002, reciclando a mesma fórmula. Descrever dessa maneira, no entanto, é simplificar demais as coisas. Sim, “O Clã das Adagas Voadoras” compartilha muitas semelhanças com “Herói”: o impressionante apuro visual, as complicadas e maravilhosas coreografias de lutas, a mistura de ação e romance, as reviravoltas bem elaboradas no enredo, o uso de lendas chinesas como base da narrativa. O que Yimou realizou, no entanto, foi um aperfeiçoamento do seu épico anterior.

Em “Herói”, por exemplo, havia uma bela história de amor. Mas a paixão entre os guerreiros Espada Quebrada e Neve Flutuante era quase uma trama paralela, secundária à ação principal, que era concentrada em um terceiro personagem. Em “O Clã das Adagas Voadoras”, a fusão dos dois gêneros acontece de maneira muito mais fluida; na verdade, o filme é uma trama shakespeareana de amor e morte, que cobre um triângulo amoroso trágico temperado com combates de espadas e artes marciais. O resultado é uma fusão instantânea entre o drama romântico e o filme de ação, de modo que a platéia não fica com a sensação de estar assistindo a dois filmes diferentes dentro de uma mesma moldura. Aqui, tudo se encaixa.

O enredo se passa no ano 859, na China. Um letreiro na abertura informa que a dinastia Tang, que governa o país, passa por um momento difícil. O governo corrupto e os altos impostos estimulam a aparição de grupos guerrilheiros rebeldes. O mais poderoso desses pequenos exércitos paramilitares é o Clã das Adagas Voadoras. Depois de prenderem um dos líderes regionais da quadrilha, os policiais Leo (Andy Lao) e Jin (Takeshi Kaneshiro) recebem uma missão ainda mais ousada. Os dois têm 10 dias para descobrir a identidade do chefe máximo e capturá-lo.

A única pista da dupla é uma dançarina cega que acaba de chegar no bordel local. Um informante dos policiais diz que ela integra o grupo. Os dois armam uma emboscada, conseguem prendê-la e desconfiam que ela é a filha do antigo chefão do grupo rebelde. Assim, armam um plano para que Jin, conhecido sedutor local, ajude Mei (Zhang Ziyi) e fugir e ganhe a sua confiança, de forma a descobrir a identidade e a localização do líder principal do bando. Ocorre que as coisas não são exatamente o que parecem ser, e a investigação acaba seguindo rumos completamente diferentes.

Do ponto de vista técnico, “O Clã das Adagas Voadoras” é um colírio visual. A fotografia de Zhao Xiaoding, indicada ao Oscar 2005, utiliza uma paleta variada de cores e enquadramentos tão insólitos quanto precisos (a luta no bambuzal tem diversas tomadas de baixo para cima, quando a câmera é inundada de luz) para ilustrar o jogo de sedução que se estabelece entre Jin e Min. Unida aos belíssimos cenários naturais – a maior parte do filme tem a ação passada dentro de uma floresta, com bosques, campos floridos e plantações de bambu – e à direção de arte impecável, que utiliza figurinos hipercoloridos de extremo bom gosto, ela transforma “O Clã das Adagas Voadoras” em um espetáculo incomparável para os olhos. Melhor ainda: não apela para truques narrativos como o jogo de cores, usado à exaustão em “Herói”, o que dá um aspecto mais naturalista ao todo.

Também impressionam as coreografias – e não apenas das lutas. A seqüência de abertura, dentro do bordel em que Lin trabalha, é literalmente de cair o queixo. Ela começa com uma dança suave e sensual de Min, e vai acelerando até acabar em uma luta capaz de deixar muitos olhos esbugalhados; preste bem atenção no instante em que Min desarma e ataca Leo, com uma espada, utilizando apenas um lençol – talvez seja um dos melhores momentos cinematográficos de artes marciais de todos os tempos.

A edição de Cheng Long manipula lindamente o tempo (ora usando câmera lenta, ora hiperacelerando a ação) e o espaço (alternando entre planos fechados e abertos daquilo que está sendo mostrado) para ajudar as coreografias a serem plásticas e acreditáveis ao mesmo tempo. Além disso, não há como não mencionar as fantásticas seqüências em que os guerrilheiros utilizam as adagas voadoras do título, como se fossem verdadeiros bumerangues mortais. A união de fotografia, direção de arte e edição produz um trabalho primoroso e meia dúzia de cenas de fazer fanáticos por seqüências de ação pularem nas cadeiras.

Pode-se argumentar que todos esses elementos já estavam presentes em “Herói”. Não é mentira. O verdadeiro golpe de mestre de Zhang Yimou foi trabalhar melhor o roteiro, de forma a amarrar as seqüências de ação dentro da trama. Em outras palavras, as lutas não são inseridas como parênteses dentro da narrativa, da clássica maneira que os musicais de Hollywood faziam nos anos 1930.

Naqueles filmes, de repente a ação parava e os personagens começavam a cantar e dançar, para depois voltar ao ponto em que haviam parado; as lutas, nos filmes de artes maciais, ocorrem quase da mesma maneira. Em “O Clã das Adagas Voadoras”, contudo, os personagens se apaixonam, odeiam, desejam, choram, admiram, cortejam e amam enquanto estão lutando. Yimou soube fazer o desenvolvimento emocional dos personagens progredir até mesmo dentro dos combates, sem fazer a ação dar saltos ou rés. E isso faz uma grande diferença.

A LK-Tel fez um bom lançamento em DVD, mantendo os extras da Região 1. Isso significa qwue, além de ter áudio Dolby Digital 5.1 e formato original (widescreen) das imagens, somos brindados com comentário em áudio do diretor e da atriz principal, mais dois documentários (o primeiro, de 45 minutos, sobre as filmagens; o segundo, menor, enfocando os efeitos digitais nas cenas de ação), storyboards, galeria de fotos e um videoclip para a canção que encerra o longa-metragem. Tudo legendado.

– O Clã das Adagas Voadoras (Shi Mian Mai Fu, China/Hong Kong, 2004)
Direção: Zhang Yimou
Elenco: Takeshi Kaneshiro, Andy Lau, Zhang Ziyi, Song Dandan
Duração: 119 minutos

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