Click

25/01/2007 | Categoria: Críticas

Comédia com Adam Sandler alterna bons e maus momentos e ressalta valores familiares

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Família! Família! Família! Família!”. Esta é uma linha de diálogo, proferida por Adam Sandler num momento crucial de “Click” (EUA, 2006), que resume não apenas esta comédia simpática e ocasionalmente engraçada, mas toda uma linhagem de filmes essencialmente norte-americanos. Como gênero, é provável que esse tipo de comédia que celebra os valores familiares esteja atrás apenas do western, em termos de capturar a alma, a essência do american way of life. A boa notícia é que “Click” oferece alguma diversão, mesmo para quem não nasceu naquele país, e mesmo escorregando na obsessão, que acomete diretores de cinema na América do Norte, por piadas envolvendo flatulências e animais engraçados.

Quem acompanha cinema com alguma freqüência vai notar, sem muito esforço, enorme semelhança entre “Click” e o megasucesso “Todo Poderoso”, que Jim Carrey protagonizou em 2003. Os dois trabalhos têm, como protagonistas, homens estressados, divididos entre a ambição profissional e os parentes queridos. Nos dois casos, esses sujeitos nascidos e educados na sociedade que mais estimula a competição recebem artefatos mágicos que lhes permitem manipular tempo e espaço de maneira sobrenatural. No meio de muitas piadas – algumas engraçadas, outras nem tanto – os dois acabam tomando lições de moral muito parecidas.

No entanto, não dá para acusar “Click” de ser mera cópia do filme com Jim Carrey. As duas produções, como dito antes, fazem parte de uma linhagem da comédia norte-americana que remonta ao ano de 1946, quando foi lançado o clássico “A Felicidade Não se Compra”, de Frank Capra. O longa-metragem com James Stewart também lançou a moda dos “filmes de Natal”, aquelas obras que muitas famílias dos EUA assistem, reunidas, durante as festas de final de ano. São filmes erguidos sobre um lema simples: não existe nada melhor do que a família. Basicamente, “Click” conta a mesma histórica, só que com a roupagem da geração do videogame. Não é à toa que o artefato mágico em torno do qual a história se assenta é um controle remoto.

O filme é sobre Michael (Adam Sandler), um arquiteto profundamente dividido entre a família, que adora, e o trabalho, que pode lhe oferecer bem mais do que a casa de subúrbio onde mora. Ele é um cara estressado que vive se atrapalhando com a dúzia de controles remotos que habitam a sua sala. Certa noite, irritado, ele entra em uma loja em busca de um controle que unifique todos os outros e facilite seu descanso noturno. Acaba trombando com o estranho Morty (Christopher Walker), que lhe arruma um aparelho muito especial, capaz de dar fast forward nas partes chatas da vida (banhos, engarrafamentos) e congelar outras. Logo, Michael vai aprender que a traquitana pode lhe ajudar a acelerar uma promoção no emprego. A partir daí, o filme envereda por uma viagem quase surreal rumo ao futuro. Melhor ver por você mesmo.

“Click” é a terceira parceria entre o diretor Frank Coraci e o ator Adam Sandler, e apresenta o mesmo tipo de humor irregular que caracteriza a carreira do comediante. Menos histriônico e mais simpático do que Jim Carrey, o ator faz o tipo “amigão”, e muitas das melhores cenas do longa-metragem fazem uso dessa característica “cara-legal-que-poderia-ser-meu-vizinho”. São muito boas, particularmente, as seqüências que mostram a interação entre Michael o filho pentelho do vizinho, um ruivo sardento viciado em novidades tecnológicas. Mas a grande sacada do filme, aquela que provoca as gargalhadas mais altas, está nas cenas que tiram sarro da quase onipresente narração de James Earl Jones (para quem não sabe, a voz de Darth Vader) em dezenas de filmes americanos.

Por outro lado, o elenco tem um ponto fraco muito evidente – o canastrão David Hasselhoff, como Ammer, o chefe chato de Michael – e vez por outro a história descamba para piadas grosseiras e repetitivas que a gente já viu em muitos outros filmes, como na cena em que Michael usa o controle remoto para “congelar” o tempo e soltar um pum, barulhento e fedido, bem embaixo do nariz de Ammer. Isso sem falar da piadinha envolvendo o cachorro da família e um pato de pelúcia, que ganha pelo menos sete variações ao longo da projeção, cada uma menos engraçada do que a anterior. Mesmo assim, a simpatia do personagem principal é cativante e garante a diversão. E a beleza das atrizes Kate Beckinsale (a mulher de Michael) e Katie Cassidy (a filha adulta) ainda funciona como bônus para os rapazes.

O DVD da Sony traz o filme com boa qualidade de som (Dolby Digital 5.1) e imagem (widescreen anamórfica). Entre os extras, trilha de comentário com o diretor e cenas cortadas, sem legendas em português.

– Click (EUA, 2006)
Direção: Frank Coraci
Elenco: Adam Sandler, Kate Beckinsale, Christopher Walker, David Hasselhoff
Duração: 107 minutos

| Mais


Deixar comentário