Código 46

30/05/2005 | Categoria: Críticas

Fascinante panorama do futuro serve de base para melancólica história de amor

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

No futuro indefinido de “Código 46” (Code 46, EUA, 2003), a clonagem já é uma realidade. Famílias podem escolher entre ter filhos de maneira natural ou in vitro. Nesse panorama, os governos totalitários decidem que precisam adotar uma política rígida de controle dos clones, a fim de evitar anomalias resultantes do cruzamento de indivíduos com código genético semelhante. Esta política é o Código 46, que proíbe casamentos e relações sexuais entre pessoas que tenham mais de 25% de semelhança nos seus genes. O fascinante panorama sobre o qual se assenta a trágica história de amor futurista de Michael Winterbottom é explicado em letreiros, no início da projeção.

“Código 46” é um triunfo de roteiro e direção de arte. Com um orçamento de US$ 7,5 milhões, ridículo para padrões de Hollywood, Winterbottom consegue erguer um mundo futurista repleto de sutilezas que dão credibilidade à ação. Se não pode ter carros voadores, o diretor utiliza veículos do início do século XXI, mas isso não parece estranho no mundo do futuro pensado pelo roteirista Frank Cotrell Boyce. Porque esse mundo lembra mais uma versão pós-moderna das antigas cidades medievais, que eram cercadas por muros e visitadas apenas por cidadãos autorizados pelos governos.

Os muros de Winterbottom são virtuais. A rigor, no futuro imaginado por ele, os cidadãos precisam de passes especiais para entrar e sair das super-metrópoles em que vivem. Pense em Berlim Oriental, antes de 1989, e você terá uma boa idéia do que significa viver nesse futuro. As cidades são limpas, organizadas, quase assépticas. Nelas, os cidadãos circulam como autômatos. Do lado de fora, no entanto, milhões de não-cidadãos se amontoam em vilarejos gigantescos, como favelas monstruosas, encravadas em desertos que alcançam o horizonte de todos os lados. Eles não podem viajar e nem entrar nas metrópoles cercadas.

Os governos totalitários funcionam como corporações/fábricas de alta tecnologia. Não por acaso, a maior das corporações se chama Sphinx (em português, Esfinge). Os moradores das grandes cidades falam todos a mesma língua, cuja base é o inglês, mas que incorpora palavras de diversas outras linguagens, como espanhol, japonês e até o português. Nesse mundo, os cidadãos já conseguem trocar parte dos corpo, como dedos, e adquirem habilidades especiais, como telepatia, através de vírus e bactérias mutantes introduzidos nos próprios corpos.

O filme não perde tempo apresentando todo esse panorama fascinante ao espectador. O roteiro consegue a proeza de integrar todas essas informações à ação. Em outras palavras, o espectador não recebe os detalhes sobre o futuro antes do filme, em uma introdução; isso acontece durante a história. Michael Winterbottom evita didatismos. A platéia não sabe muito sobre as regras que regem a sociedade do futuro, e é obrigada a intuir muita coisa, preenchendo as lacunas do roteiro com a própria imaginação. Isso é muito bom.

“Código 46” acompanha basicamente uma pessoa: o investigador William (Tim Robbins). Morador de Seattle (EUA), ele é enviado a Shangai para descobrir quem está produzindo passes falsos de locomoção nas megalópoles dentro de uma fábrica da Sphinx. William está infectado por um vírus que lhe permite ler os pensamentos das pessoas, desde que elas lhe dêem alguma informação – qualquer uma – sobre si mesmas. Isso torna a sua tarefa infalível.

Durante as entrevistas com os suspeitos, ele descobre facilmente a culpada, uma mulher chamada Maria Gonzáles (Samantha Morton). Ela é uma trabalhadora atormentada por um sonho recorrente, que aparece sempre no dia do próprio aniversário. William sabe que ela é a culpada, mas não consegue denunciá-la. Ele se sente atraído por ela, a segue no metrô, e acaba desenvolvendo um relacionamento que pode ser extremamente perigoso para ambos, embora eles não saibam disso.

Com uma trama episódica e relativamente simples, Winterbottom realiza uma verdadeira colcha de retalhos, buscando cacos de inúmeros outros filmes para compor um mundo futurista pessimista. Há ecos de “Gattaca” (um relacionamento proibido por questões genéticas, atmosfera gélida), “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (o apagamento da memória), “Doze Macacos” (sonhos como veículo de comunicação entre passado e futuro), “Blade Runner” (hierarquia social rígida, linguagem que mistura vários idiomas).

Não há como deixar de reconhecer, contudo, as duas maiores fontes de referência de “Código 46”. A primeira é “Minority Report”, que reúne várias das características anteriores e ainda fornece a cara do futuro de Winterbottom, sem falar da presença da atriz Samantha Morton, em papel bem parecido com o que desempenhou no thriller de Steven Spielberg. A outra é “Encontros e Desencontros”, pois o filme se passa em uma metrópole oriental repleta de luzes de néon e aborda o encontro de duas almas que vagam melancolicamente pelo mundo.

Na verdade, é impressionante como Michael Winterbottom consegue, em pouco mais de 90 minutos, fazer comentários e provocar reflexões sobre um grande número de questões: o conceito de terceiro mundo, o caos fora das grandes metrópoles, o problema da falta de individualidade crescente nas sociedades mais desenvolvidas. O diretor contrapõe o conflito entre o pessoal e coletivo com inteligência, reservando ainda um papel fundamental para o amor dentro dessa discussão, que é rica e não se esgota ao final da projeção. “Código 46” é o tipo de filme que serve como ponto de partida para uma reflexão profunda sobre os rumos da civilização, o que não é pouco.

Vale uma menção especial, ainda, para duas seqüências interessantes do filme. A primeira, que se passa em um karaokê futurista, mostra o ex-Clash Mick Jones cantarolando uma canção da própria banda, o clássico “Should I Stay or Should I Go”; é a melhor demonstração do senso de humor afiado e esquisito do diretor. A outra é a pesada, bizarra e fascinante cena de sexo entre Tim Robbins e Samantha Morton. Essa seqüência tem provocado polêmica e até indignação por parte dos politicamente corretos, mas dá margem a uma reflexão muito conveniente sobre os temas abordados pelo filme. Vale a pena.

O DVD, da MGM, traz o filme em corte original (widescreen) e com trilha de áudio Dolby Digital 5.1. Há um pequeno documentário (17 minutos) e mais quatro cenas deletadas (juntas, somam menos de três minutos) e um trailer. Nada excepcional.

– Código 46 (Code 46, EUA, 2003)
Direção: Michael Winterbottom
Elenco: Tim Robbins, Samantha Morton, Togo Igawa, Jeanne Balibar
Duração: 92 minutos

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