Código Da Vinci, O

10/10/2006 | Categoria: Críticas

Respeito absoluto à trama fascinante do livro carrega nas costas um filme sem ritmo e com excesso de diálogos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Mega-hiper blockbuster adaptado do segundo livro mais vendido de todos os tempos (logo após a Bíblia), “O Código Da Vinci” (The Da Vinci Code, EUA, 2006) recebeu um marketing tão esmagador à época do lançamento nos cinemas que, numa espécie de reação instintiva da crítica especializada, acabou massacrado sem piedade. Bastaram alguns meses, no entanto, para que uma reavaliação mais serena fosse possível, depois que a histeria coletiva se dissipou. E o que sobra é uma aventura despretensiosa que, apesar de muitos problemas de ritmo e do excesso de diálogos, se sustenta graças à história envolvente.

O maior pecado cometido pelo diretor Ron Howard e pelo roteirista Akiva Goldsman (ambos vencedores do Oscar por “Uma Mente Brilhante”) é o respeito absoluto à trama criada pelo escritor Dan Brown. Infelizmente, os méritos cinematográficos são escassos. Em resumo, trata-se de um filme-pipoca que só objetiva entreter o público, o que consegue, embora deixe certo gosto decepcionante. O filme lembra um carro velho com carburador entupido: engasga aqui e ali, de vez em quando morre, mas consegue chegar até o destino e, no fim das contas, funciona como um refúgio para o dono, que vive reclamando dos defeitos mecânicos, mas se sente confortável quando está dentro dele.

No geral, o longa-metragem assinado por Ron Howard deixa forte impressão de rascunho, de obra inacabada, lançada às pressas, sem que seu autor pudesse se debruçar com calma sobre a trama, de modo a construir as cenas de maneira mais cinematográfica, utilizando mais as imagens e menos as palavras. Este é o principal problema de “O Código Da Vinci”: as soluções narrativas para driblar o excesso de diálogos explicativos foram simplesmente ignoradas. Toda vez que Ron Howard precisa explicar algo para o público, simplesmente põe dois personagens para conversar longamente, e um deles explica tudo, tintim por tintim, ao outro (e, por conseguinte, à platéia). Os diálogos explicativos tomam a maior parte dos longos 149 minutos de projeção, o que é um exagero enorme. É um filme falado demais.

A constatação fica especialmente evidente na (boa) seqüência que se passa no Chateau Villette, quando Robert Langdon (Tom Hanks) e Sophie Neveu (Audrey Tautou) encontram Sir Leigh Teabing (Ian McKellen), na casa deste último. Durante bons 10 minutos, o lorde inglês fornece a uma boquiaberta Sophie uma apresentação áudio-visual completa – com arquivo Powerpoint e tudo o mais – sobre os segredos escondidos na pintura “Santa Ceia”, de Leonardo Da Vinci. A história narrada é fascinante, cheia de conspirações, e envolve os Cavaleiros Templários, o Cálice Sagrado e a linhagem secreta de descendentes de Jesus Cristo e Maria Madalena. O tom didático lembra o de uma aula dada por um professor universitário, descrição que se aplica ao filme como um todo (e, de certa forma, à obra completa de Ron Howard).

Algo errado com isso? Não necessariamente errado, mas sim trivial, burocrático, sem criatividade. Como se não bastasse isso, o roteiro de Akiva Goldsman respeita excessivamente os diálogos do livro, o que é um erro. Afinal, se a trama é realmente deliciosa e envolvente, a prosa do escritor norte-americano está repleta de lugares-comuns e chavões literários de terceira categoria, que escapolem para dentro do filme sem cerimônia, como penetras indesejados em uma festa de 15 anos. Desta forma, “O Código Da Vinci” nunca realmente engrena, limitando-se a repetir o mesmo ciclo de eventos do começo ao fim do filme: a aparição de uma charada, um diálogo explicativo, uma cena de ação e a solução do enigma, que fecha um ciclo e inicia outro igual, e assim sucessivamente. É competente, mas não empolgante.

O resultado carece de ritmo, de vigor, de equilíbrio, alternando cenas curtas e longas demais. A enigmática abertura no museu do Louvre, com o assassinato do curador (Jean-Pierre Marielle) que inicia a frenética caça ao Santo Graal, é um exemplo de seqüência que passa rápido, sem conseguir envolver a platéia, com eventos importantes sendo explicados apressadamente. Já a conversa entre Langdon e Sophie dentro do carro-forte em que fogem de Paris, por outro lado, dura além da conta, tentando criar um clima de intimidade entre os dois que jamais se concretiza de fato. Para piorar, Ron Howard ainda deu um jeito de incluir inúmeros flashbacks de acontecimentos históricos (a crucificação de Cristo, a gravidez de Maria Madalena, o Concílio de Nicéia), um recurso caro e desnecessário, que faz o filme se alongar além da conta e ainda trava o desenvolvimento da ação no presente.

O excesso de didatismo, cacoete sempre presente nos filmes do diretor, incomoda especialmente por passar certa insegurança na narração. Nesse sentido, a tomada que encerra o longa-metragem, no Louvre, representa uma espécie de microcosmo do filme: explica tudo com exagero de detalhes, sem deixar o mínimo espaço para a imaginação. Ron Howard leva o público pela coleira, mantendo-o quietinho, sem deixar duvidas ou espaços na narrativa que levem a platéia a pensar, refletir, fazer sozinha algumas descobertas. Enfim, o público não participa ativamente de “O Código Da Vinci”, limitando-se a consumir passivamente a carga de imagens processada com o estilo asséptico do diretor.

Um dos maiores problemas do roteiro é que, na telona, a solução de cada charada parece fácil demais. No livro de Dan Brown, o leitor tem uma idéia muito clara do grande esforço necessário para que Langdon e Sophie cheguem à solução de cada enigma. No filme, as descobertas parecem casuais, epifanias, como se os dois fossem gênios que só precisassem esperar um pouco para que a solução mágica surja à mente. O melhor exemplo disso é no momento em que a dupla precisa descobrir uma senha bancária de 10 dígitos, e o faz em cerca de cinco segundos.

Em parte, a culpa deste defeito em particular é do estilo literário de Dan Brown, que no livro narra a ação quase que o tempo todo dentro da cabeça dos personagens, de modo subjetivo. Registrando no papel os pensamentos de Langdon e Sophie, o escritor complica a transformação desses momentos para o cinema, já que nos filmes a história precisa ser contada através de ações; a câmera não tem como invadir a mente dos personagens para fazer o público saber o que eles estão pensando. Com mais tempo e criatividade, Ron Howard poderia ter descoberto maneiras de narrar o movimento interior dos personagens sem recorrer aos diálogos.

Para completar, a enorme polêmica religiosa criada pelo livro, que gerou reclamações do Vaticano, abriu caminho para dentro do filme como uma fruta estragada, gerando uma mudança negativa no personagem principal. Robert Langdon, o acadêmico que no livro introduz Sophie aos mistérios da organização clandestina Priorado de Sião, virou no filme um estudioso cético, que jamais assume como verdadeiras as alegações de Dan Brown sobre a suposta descendência de Cristo. Não há dúvida de que o caráter de Langdon foi alterado pelo roteirista para suavizar as acusações contra o filme e diminuir os ataques de religiosos contra a obra, algo que poderia reduzir o interesse de boa parcela do público.

Se mesmo com tantos problemas “O Código Da Vinci” ainda funciona, é porque a história bolada por Dan Brown é empolgante. A fidelidade canina ao livro, se reduz o filme a uma mera cadeia de diálogos explicativos, pelo menos preserva a excelência da trama, com a ajuda de um bom elenco. Tom Hanks e Audrey Tautou, o par central, estão bem. O destaque positivo vai para Ian McKellen, interpretando com naturalidade invejável e criando os poucos momentos de humor da produção. A nota destoante é Paul Bettany, no papel do albino assassino Silas, cujo rosto com cicatrizes escondido por uma capa escura o faz parecer o Imperador da série “Star Wars”.

No aspecto técnico o filme é competente, fazendo ótimo uso das locações verdadeiras (a Temple Church, em Londres; a Capela Rosslyn, na Escócia; e especialmente o Louvre, em Paris), apesar da edição rotineira, que sempre apresenta cada nova locação com uma tomada aérea do lugar, onde estão os personagens. Isso, contudo, não incomoda. O único detalhe realmente incômodo é a insistência de Ron Howard em capturar parte dos diálogos sem cortes, mantendo a câmera rodando em torno dos personagens que conversam. O recuso é uma ilusão de ótica que pretende dar à platéia a sensação de movimento, de ação, mesmo quando ela não existe.

No fim das contas, o maior beneficiado é o espectador que não leu o livro. Para esta fatia da platéia, “O Código Da Vinci” cresce bastante, já que as revelações inesperadas e reviravoltas na trama injetam tensão, um elemento quase ausente na trama para aqueles que já a conhecem. No fim das contas, o problema todo é esse: falta tensão, emoção real, envolvimento emocional. Mas se você levar em conta a qualidade dos filmes-pipoca da temporada (“Anjos da Noite 2”. “A Era do Gelo 2” ou “Armações do Amor”, por exemplo), “O Código Da Vinci” ainda tem algo a oferecer.

O DVD de locação lançado pela Columbia Filmes é simples e sem extras. O filme tem imagem mutilada nas laterais (fullscreen 4:3) e som excelente (Dolby Digital 5.1).

– O Código Da Vinci (The Da Vinci Code, EUA, 2006)
Direção: Ron Howard
Elenco: Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Paul Bettany
Duração: 149 minutos

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