Código de Conduta

27/02/2010 | Categoria: Críticas

F. Gary Gray se esforça um bocado para entregar um jogo de xadrez cinematográfico entre dois homens inteligentes, mas o resultado é pífio

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Clyde Shelton (Gerard Butler) é um pacato cidadão-modelo, pai amoroso e marido apaixonado, cuja residência é invadida certo dia por dois assaltantes sádicos. Ele sobrevive ao ataque, mas vê esposa e filhas serem brutalmente assassinadas. O que vem depois é ainda pior. Presos, os bandidos vão parar nas mãos de um promotor vaidoso (Jamie Foxx) que, preocupado menos com o caso e mais com sua própria imagem pública, aceita fazer um acordo que livra a cara do mais violento dos dois. O que você faria diante de um quadro assim?

A resposta da maioria dos espectadores, deve ser a mesma que ocorre a Clyde, e que compõe a trama de “Código de Conduta” (Law Abiding Citizen, EUA, 2009): vingança com as próprias mãos. Ao contrário de nós, porém, Clyde tem um trunfo. Ele é um gênio da tecnologia que ganha muito dinheiro com contratos secretos envolvendo o governo dos EUA. Assim, prepara minuciosamente seu plano de vingança, que só começa a concretizar 10 anos mais tarde. Ainda no primeiro ato, o outrora pacato cidadão está na cadeia, de onde comanda atentados mirabolantes a figuras proeminentes do sistema judiciário da cidade.

“Código de Conduta” foi concebido como uma espécie de jogo de xadrez entre dois personagens muito inteligentes. O enredo, basicamente, consiste em acompanhar as frenéticas tentativas que o personagem de Jamie Foxx faz para tentar antecipar e impedir a execução dos assassinatos que Clyde organiza em minúcias. Nesse sentido, o filme guarda alguma semelhança com “Seven” (1995). Melhor seria dizer que o diretor F. Gary Gray se esforça um bocado para chegar a um resultado que lembre vagamente a inteligência refinada e a condução firme da narrativa do longa-metragem de David Fincher, mas obtém um resultado pífio, vulgar e inverossímil.

O maior problema de “Código de Conduta” – mais do que as interpretações amorfas, a direção de arte verde-musgo que sugere vagamente um thriller de espionagem e o roteiro cheio de furos – é a direção burocrática. F. Gary Gray abusa de tomadas de helicóptero, explosões em câmera lenta e cenas ultra-violentas para tentar dar algum molho dramático a uma trama pouco inspirada. Nesse ponto reside o X da questão: se “Seven” era comandado por um diretor cuja inteligência se equiparava à do genial personagem-assassino, “Código de Conduta” está sob a batuta de um operário cujas soluções narrativas para os problemas de enredo jamais ultrapassa o nível do trivial.

Observe, por exemplo, as cenas de diálogo entre Butler e Foxx. Deveriam ser eletrizantes, cheias de grandes tiradas de humor de ambos os lados, e com argumentos sólidos que ajudassem o filme a ultrapassar o mero entretenimento descompromissado para discutir o tema que se propõe – o conceito distorcido de justiça que se pratica nos tribunais da atualidade, muitas vezes permitindo que criminosos confessos se safem de puniões mais duras devido a brechas na legislação, enquanto advogados e promotores mais preocupados com as carreiras do que com os clientes duelam para ver quem sobe mais rápido na vida.

No entanto, o roteiro de Kurt Wimmer não oferece mais do que um punhado de lugares-comuns. Se o início promete dois protagonistas cuja linha divisória entre heroísmo e vilania seja borrada e pouco nítida, do meio para o fim o roteiro se encarrega de demarcar claramente quem é o mocinho e quem é o bandido, providenciando até mesmo um arremedo de arrependimento que corrige o estilo de vida do promotor (que, para piorar as coisas, consegue atingir um status profissional que nem ele mesmo imaginaria ser possível!).

Atrapalha, também, a interpretação equivocada de Gerard Butler, evidenciando ainda mais sua limitação como ator dramático. Ele encarna Clyde Shelton como um homem irado, que ergue a voz e grita a cada vez em que é confrontado com o rival (ecos do Leônidas de “300”, talvez?). Ocorre que um gênio capaz de orquestrar um plano tão ousado e mirabolante só poderia tê-lo feito se tivesse um auto-controle absolutamente férreo, o que não é o caso aqui, nem de longe. Para piorar as coisas, F. Gary Gray deixa para explicar o modo como Clyde realiza seus atentados apenas no final do filme, e o faz apelando para uma solução vulgar, banal e incrivelmente inverossímil.

Se existe algo de positivo no filme é a coragem do diretor (que é negro) em repetir uma prática salutar que ele sempre adotou em Hollywood, em filmes como “O Negociador” (com Samuel L. Jackson), pondo atores negros em papéis de destaque que, em Hollywood, quase sempre são ocupados por um elenco de gente loira e de olhos azuis. Mas até essa ousadia é eclipsada pelo retrato superficial e falho dos dois personagens principais – é evidente a tentativa esforçada que Gray e Wimmer fazem para evitar uma caracterização maniqueísta de ambos, mas isso acaba acontecendo de qualquer forma, o que impede que o público sinta empatia real por qualquer um dos protagonistas.

O DVD brasileiro sai com o selo Imagem Filmes. O formato está em widescreen anamórfico (original) e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Código de Conduta (Law Abiding Citizen, EUA, 2009)
Direção: F. Gary Gray
Elenco: Jamie Foxx, Gerard Butler, Colm Meaney, Bruce McGill
Duração: 109 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


5 comentários
Comente! »