Coisas Belas e Sujas

16/05/2004 | Categoria: Críticas

Stephen Frears escala excelente elenco e tece trama inteligente, mas erra a mão na construção dos personagens

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Stephen Frears retorna a um universo bastante familiar com o filme “Coisas Belas e Sujas” (Dirty Pretty Things, Inglaterra, 2003): a vida na periferia de Londres, um submundo muito diferente da capital inglesa que vemos nos filmes produzidos pela cinematografia hegemônica do país. O cineasta dirigiu alguns dos melhores trabalhos do início da carreira, como “Minha Adorável Lavanderia” e “Sammy e Rosie”, com o mesmo tipo de ambientação. Agora, volta ao território, talvez para se reciclar e recarregar as baterias.

Não é possível afirmar, contudo, que este seja um projeto de entresafra para Frears. Na verdade, parece mesmo o contrário. A direção de arte, elemento de grande destaque na produção, é um bom exemplo. Há um motel (no sentido brasileiro da palavra, ou seja, lugar onde prostituas levam os clientes) decadente, um necrotério, um apartamento minúsculo e uma fábrica clandestina de roupas. Todos são locações extremamente bem construídas, passando o clima urbano decadente e melancólico que o longa-metragem pede. Não são locações construídas de forma desleixada ou apressada.

Por outro lado, Frears entrega a firme impressão de que talvez seja um cineasta superestimado. Nos dois trabalhos anteriores que foram ambientados na periferia de Londres, ele tinha como parceiro o roteirista e escritor Hanif Kureish. Até por causa da ascendência de Kureif, os filmes abordavam a vida dos imigrantes e descendentes de indianos e paquistaneses na capital inglesa. Vale lembrar que Londres possui grandes comunidades desses dois países, que foram colônias inglesas até o início do século XX.

O antigo Frears conseguiu, de fato, criar um retrato bastante denso da complicada relação entre as etnias estrangeiras e os londrinos de classe média. Investindo no naturalismo ou utilizando elementos do realismo mágico (como personagens-fantasmas que desvanescem no ar), Frears conseguiu tecer um admirável retrato da complexa relação cultural que une dominadores e dominados. O diretor não consegue obter o mesmo resultado em “Coisas Belas e Sujas”, o que não quer dizer que ele tenha feito um filme exatamente ruim.

“Coisas Belas e Sujas” funciona como um comentário social travestido de filme de suspense. O protagonista é o médico nigeriano Okwe (Chiwetel Ejiofor). Imigrante ilegal, ele trabalha como porteiro de um motel barato à noite, dirige um táxi de dia e masca folhas de uma planta indígena para dormir o mínimo possível. Um dia, ao tentar desentupir a privada de um quarto do motel, Okwe encontra um coração humano. Esse é o ponto de partida que vai levar o médico (o motivo porque ele não exerce a profissão só vai ser revelado no fim do filme, por isso não posso dar maiores explicações) a se defrontar com uma rede de tráfico de órgãos humanos, no submundo londrino.

Há outros dois personagens de grande destaque na narrativa. O primeiro é a camareira turca Senay (Audrey Tautou), com quem Okwe divide um apartamento e inicia uma grande amizade. O outro é o gerente do hotel, o espanhol Sneaky (Sergi López), um sujeito soturno e cínico que, Okwe desconfia, pode estar por trás da operação clandestina. O trio é responsável por uma grande qualidade e um defeito de igual tamanho no filme. No lado bom, as atuações dos três atores são excepcionais, especialmente dos dois homens, que passam muita energia ao defenderem os papéis.

No entanto, incomoda bastanque a construção equivocada das personalidades de cada um. Okwe, por exemplo, é um homem virtuoso, sábio, bondoso, inteligente, decidido – enfim, um anjo, sem fraquezas. Senay, por sua vez, é ingênua, pura e casta, mesmo vivendo num ambiente sórdido. Já Sneaky parece um perfeito canalha, e nada além disso. Essa construção maniqueísta jamais permite ao espectador crer que os três são pessoas reais; eles não passam de personagens de um filme. São unidimensionais, sem profundidade (algo que o brasileiro “Amarelo Manga”, que enfoca o mesmo tipo de pessoa, dribla com muita propriedade, apenas para citar um exemplo).

O roteiro de Steve Knight tem momentos de brilho, mas parece calculado demais, pouco espontâneo. Há elementos de comédia que poderiam funcionar, mas eles são colocados em momentos errados do longa. O diálogo entre Senay e uma prostituta, já no fim do filme, é o melhor exemplo dessa constatação. Contam-se duas piadas que, nas circunstâncias dramáticas em que o papo acontece, soam totalmente inadequadas, artificiais. As duas jamais travariam esse tipo de diálogo, se estivessem vivendo a situação e não interpretando.

Esses são pequenos detalhes que mancham o filme, pelo menos no sentido da crítica cultural que ele pretende fazer. Para um longa-metragem que leva a respeitável assinatura de Stephen Frears, pequenos detalhes podem tornar-se gigantes. Mesmo assim, as atuações (que comprovam novamente o talento do cineasta para dirigir atores no set) e o desenvolvimento da trama, inteligente e imprevisível até certo ponto, transformar o filme em uma interessante película de suspense. Mas só isso.

– “Coisas Belas e Sujas” (Dirty Pretty Things, Inglaterra, 2003)
Direção: Stephen Frears
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Audrey Tautou, Sergi López, Sophie Okonedo, Benedict Wong
Duração: 107 minutos

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