Colateral

19/01/2005 | Categoria: Críticas

Motorista de táxi vive pesadelo urbano em um dos filmes mais tensos do ano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um homem comum, de boa índole, de repente se vê envolvido em uma situação extraordinária, com direito a encontros tensos com policiais e criminosos. Essa frase resume a situação dramática predileta de Alfred Hitchcock; grande parte dos filmes do mestre do suspense adotava essa premissa para deixar a platéia suando frio. A sentença serve também para definir o pesadelo urbano de “Colateral” (Collateral, EUA, 2004), novo trabalho do cineasta Michael Mann. Trata-se de um dos grandes filmes de 2004, trabalho de um cineasta maduro que não tem medo de fazer um longa-metragem cuja única ambição é mexer com os nervos do espectador. E consegue.

Max (Jamie Foxx) é o protagonista. Ele trabalha como motorista de táxi há 12 anos, enquanto sonha em juntar dinheiro suficiente para abrir uma firma de limusines. Max é um sujeito tranqüilo, que lograr encontrar paz mesmo dirigindo no caos do trânsito de Los Angeles (EUA). Para isso, usa pequenos truques cotidianos. Ele carrega consigo a fotografia de uma ilha paradisíaca e se imagina lá sempre que a situação complica. É metódico até as raias da paranóia, e sabe utilizar isso para afastar o stress. Max limpa obsessivamente o táxi alugado que dirige, todos os dias. Também cronometra os trajetos que faz entre diferentes pontos da cidade, sempre em busca da rota mais rápida e sem congestionamentos.

O início do filme é fascinante. Michael Mann filma a meticulosa preparação de Max para mais uma noite de trabalho abusando de planos fechados. Dessa forma, o cineasta fornece uma porção de detalhes a respeito da personalidade do protagonista, sem a necessidade de diálogos. Quando a primeira passageira entra no táxi, Annie (Jada Pinkett Smith), já o conhecemos. A seqüência entre os dois também é interessante; ao mesmo tempo em ganhamos mais informações sobre Max, ficamos conhecendo um pouco a respeito de Annie. Só um pouco; sabemos que é promotora pública, que vai passar a noite acordada no escritório e que atuará em um caso importante no dia seguinte. Apenas isso. E é suficiente.

O diálogo improvável entre os dois rende um flerte. Então Annie sai, e Vicent (Tom Cruise) entra. “Nunca havia visto um táxi tão limpo”, afirma mais tarde o misterioso estranho, quando Max lhe pergunta porque ele entrou exatamente naquele no táxi. Vincent puxa conversa, há uma empatia, e o estranho faz a proposta: precisa visitar cinco endereços em Los Angeles durante a madrugada, e ser deixado às 6h da manhã no aeroporto. Paga US$ 600 pelo “aluguel” do taxista. Max reluta, mas aceita. É o início de uma torturante madrugada de terror para o motorista, e de uma tensa viagem de emoções fortes para o espectador.

Não há, a rigor, nada de novo no filme de Michael Mann. As situações, porém, são trabalhadas com cuidado e elegância. As referências mais óbvias do trabalho estão nos filmes de Martin Scorsese, especialmente “Taxi Driver” (de certa forma, Max é uma espécie de imagem em negativo de Travis Bickle, o motorista maluco que Robert De Niro transformou em lenda do cinema; os dois dirigem à noite e são evidentes maníaco-obsessivos, embora Max seja um cara legal). Há também ecos de “Depois de Horas” e “Vivendo no Limite”. Esses dois filmes, como “Taxi Driver”, também enfocam pessoas comuns passando por situações estressantes, nas madrugadas de grandes metrópoles.

Michael Mann é um cineasta maduro, e prova isso dedicando cuidado a cada cena, de maneira que a ação dramática progrida com firmeza. Não há buracos na narrativa. Um excelente ponto positivo está na trilha sonora, que despreza o uso tradicional de música sinfônica e intercala sons incidentais feitos com instrumentos urbanos (guitarra, baixo, órgão) e canções de vários estilos: o funk do Groove Armada, o jazz de Miles Davis, o hard rock do Audioslave, o folk de Paul Oakenfold.

Outro destaque é a fotografia de Dion Beebe e Paul Cameron. Como foi inteiramente filmado à noite, e grande parte das cenas se passa em locações externas, o longa-metragem foi fotografado com câmeras digitais. A decisão deu uma paleta de cores fortes e quentes ao trabalho, reforçando ainda a iluminação artificial (postes de luz, letreiros em néon) que é marca registrada de Los Angeles, uma cidade que Michael Mann ama – ele a filma como poucos diretores. A câmera digital ainda tem a vantagem de funcionar muito bem no uso de planos fechados em objetos e também nos rostos em close, características fundamentais da narrativa visual de “Colateral”.

Há uma pequena nota destoante no filme de Mann, e ela se chama Tom Cruise. E o pior é que não é culpa do ator. Vestido de cinza, cabelos pintados do mesmo tom do terno, Cruise compõe o seu Vincent com gravidade e mistério, mas a aura de bonzinho que ele carrega dos personagens anteriores – Cruise jamais havia feito um vilão, exceção feita ao Lestat de “Entrevista Com o Vampiro” – quebra um pouco a tensão que seu personagem, sozinho, deveria ser capaz de manter no ar o tempo inteiro. Já o comediante Jamie Foxx está perfeito como o assustado Max. É ele quem garante a química (leia-se a sensação de desconforto, ou a já citada tensão) entre os dois personagens que faz “Colateral” ser o ótimo filme que é.

O DVD duplo é muito bom. O filme comparece em cópia perfeita, com imagem widescreen original e ótima transferência, apesar das cenas noturnas, e som Dolby Digital 5.1. No segundo disco, além de um documentário, há vários pequenos segmentos, que mostram os ensaios do elenco (um deles, o mais curioso, apresenta Cruise atuando como entregador da FedEx). Vale a pena.

– Colateral (Collateral, EUA, 2004)
Direção: Michael Mann
Elenco: Tom Cruise, Jamie Foxx, Mark Ruffalo, Jada Pinkett Smith
Duração: 120 minutos

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