Cold Mountain

12/08/2004 | Categoria: Críticas

Longa de Anthony Minghella é elegante e bem feito, mas frio como o título original

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Cinema, como todas as outras artes, depende sobretudo de empatia. Ao espectador, não basta o filme ser bom. A obra precisa tocar algo dentro de nós, despertar algum sentimento. Se isso não acontece, é fim de caso. A platéia pode sair da projeção achando tudo legal e bonito, mas esquece do filme em alguns minutos e não volta a pensar mais nele. “Cold Mountain” (EUA, 2003), o épico sobre a Guerra Civil norte-americana de Anthony Minghella, funciona exatamente dessa maneira – ou seja, não funciona bem.

Antes de escrever sobre o filme, porém, eu gostaria de me posicionar diante da obra desse cineasta. Minghella é tido, dentro de Hollywood, como um diretor boa-praça, simpático, talentoso, inteligente e sensível. Os filmes que produz, contudo, sempre me passaram a impressão de frieza, de distanciamento emocional excessivo. Há diretores que permanecem em estado contemplativo diante da ação, sempre de forma exemplar (só para citar um, Ingmar Bergman). Não é o caso de Anthony Minghella. Numa expressão vulgar, os filmes dele não fedem nem cheiram.

Os norte-americanos têm uma palavra que descrevem artistas como Minghella: são cineastas “by the book”. Ou seja, diretores corretos, que seguem direitinho o manual-padrão do diretor de Hollywood. Por causa disso, os filmes que ele fez jamais me entusiasmaram. “Cold Mountain” não traz nenhuma mudança ao que o diretor fez antes. Tem ótimo elenco, texto refinado, fotografia elegante, uma longa e bem feita montagem paralela, direção de arte impecável. É, tecnicamente, perfeito. Mas não cativa e só emociona em raras seqüências, apesar do esforço do diretor.

O tema do filme, por sinal, é muito interessante. Ada Monroe (Nicole Kidman) é uma bela e jovem moça que, em 1864, vive no vilarejo de Cold Mountain com o pai, um pastor. Inman (Jude Law) é um tímido morador da mesma cidade. Antes que ele parta para a guerra, eles se encontram quatro ou cinco vezes. A paixão é tao recíproca quanto imediata. Ada e Inman trocam um único beijo, suficiente para que ele e ela não se esqueçam durante os três anos seguintes, apesar de um não ter notícias do outro.

“Cold Mountain” narra basicamente a dura viagem de volta de Inman a Cold Mountain, enfatizando também os problemas enfrentados por Ada, como a morte do pai e as dificuldades dela para tocar a fazenda, mesmo com a ajuda da desbocada Ruby (Renée Zellweger, numa espécie de versão antepassada de Bridget Jones). É a clássica história do filho pródigo. Quem gosta de épicos e filmes de época vai encontrar um produto de ótima qualidade técnica. O público mais exigente, porém, vai sentir rapidamente o maior problema: Anthony Mighella tem a mão pesada demais e manipula os clichês sem jogo de cintura. O diretor telegrafa a ação de tal forma que, em apenas 20 minutos, a plateia torna-se capaz de traçar os rumos de cada personagem.

Para ficar em apenas um exemplo, tome-se a apresentação de um rapazola de Cold Mountain que luta ao lado de Inman, na longa e violenta batalha que abre o filme. Não é preciso ter nenhum dom de adivinho para imaginar qual o destino do garoto nos dez minutos seguintes. Esse tipo de estratégia pode até funcionar quando o diretor tem um pouco mais de ousadia e evita os clichês narrativos, o que mantém a platéia em estado de tensão. Esse, contudo, não é o caso de Minghella.

Dessa forma, mesmo com um excelente elenco em mãos (e não falo apenas do casal protagonista, mas também – talvez sobretudo – ao ótimo grupo de apoio, com destaque para a jovem viúva interpretada por Natalie Portman, responsável pela melhor seqüência do filme), o diretor de “O Talentoso Ripley” compõe uma obra gélida e impessoal, que compartilha muitas semelhanças com o anterior “O Paciente Inglês”: a temática do amor impossível, uma certa tendência para a tragédia, o uso de uma fotografia que enfatiza as belas paisagens da natureza. “Cold Mountain” não é ruim, mas poderia ser muito melhor, se o diretor tivesse uma dose extra de coragem e ousadia.

– Cold Mountain (EUA, 2003)
Direção: Anthony Minghella
Elenco: Jude Law, Nicole Kidman, Renee Zellweger, Brendan Gleeson
Duração: 138 minutos

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