Colheita do Mal

22/10/2007 | Categoria: Críticas

Hilary Swank mostra que não sabe escolher projetos e participa de horror cristão de terceira categoria

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Uma mera espiada na ficha técnica de “Colheita do Mal” (The Reaping, EUA, 2007) leva à forte suspeita de que o filme, um suspense sobrenatural, seja o equivalente cinematográfico à iguaria culinária que chamamos, em alguns locais do Nordeste brasileiro, de “baba de cachorro”. Aliás, chamar tal prato de iguaria talvez seja um pouco de exagero, já que a ele nem mesmo possui ingredientes pré-definidos: basta pegar os restos de comida guardados na geladeira e fazer com eles uma sopa. A definição encaixa perfeitamente no filme do cineasta jamaicano Stephen Hopkins. O longa-metragem é um apanhado de pedaços que parecem sobras de produções anteriores do gênero, organizadas em um todo irregular e bobo..

A lista é longa, mas qualquer bom conhecedor de filmes de horror católico vai reconhecê-los: de clássicos como “O Exorcista” (1973), “A Profecia” (1976) e “O Bebê de Rosemary” (1968) a títulos mais recentes de qualidade duvidosa, a exemplo de “Stigmata” (1999) e “O Dom da Premonição” (2000), o roteiro de Carey e Chad Heyes vai buscar elementos em todos eles. Acrescente à equação uma ambientação sombria numa New Orleans entulhada de estereótipos (“Coração Satânico”, “A Chave-Mestra”), em termos de paisagens e arquitetura, e o resultado é “Colheita do Mal”: um Frankenstein fílmico que tenta meter medo através de recursos desgastados, cortes estrobocópicos acompanhados de ruídos esquisitos de volume subitamente aumentado.

A história inclui um protagonista claramente decalcado de “O Exorcista”, fonte de inspiração para nove entre dez longas que mexem com assombrações de origem bíblica. Katherine (Hilary Swank) é uma ex-seminarista que sofreu com o assassinato de marido e filhos, anos antes, e desde então perdeu a fé, dedicando-se a investigar supostos milagres e dar a eles explicações científicas. No início, o filme informa que ela usou a Ciência para explicar todos os 48 casos previamente investigados. Katherine é convocada a visitar um pequeno vilarejo, localizado nos pântanos da Louisiana, onde aparentemente as pragas bíblicas que assolaram o Egito na época de Moisés estão reaparecendo, sem explicação aparente.

Após este ponto de partida não exatamente promissor, o filme se dedica a repetir, um por um, todos os tipos de clichê já experimentado em longas-metragens semelhantes. Isso inclui pesadelos editados como se fossem clipes de uma banda de metal gótico, aparições de crianças sinistras de olhos esbugalhados, cenas com animais raivosos descontrolados e uso em abundância de iconografia religiosa. O veterano Stephen Hopkins, diretor de filmes de horror B e séries de TV, inclui na equação até mesmo um equivocado flerte romântico, um tanto inverossímil para uma mulher de couraça tão dura. Para piorar, o candidato a galã rural é interpretado pelo inexpressivo David Morrisey, também ator de uma das piores bombas do ano anterior, “Instinto Selvagem 2”.

Diante de tantos problemas, é impossível não ficar pensando onde uma atriz talentosa como Hilary Swank, dona de dois Oscar, estava com a cabeça na hora de assinar o contrato para participar de uma produção tão vexatória. O pior é que até parece uma regra na carreira dela, já que Swank sempre dá seqüência às vitórias no grande prêmio do cinema com um filme mediano (“O Dom da Premonição” em 2000, “Dália Negra” em 2006), para depois enfiar o pé na jaca e se meter em filmecos de terceira categoria (O Núcleo” em 2001, e este aqui). Puro desperdício de talento. “Colheita do Mal” só é recomendável mesmo aos fanáticos por filmes de horror cristão, que usam a Bíblia como fonte de assombrações.

O DVD, lançado pela Warner, tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), e inclui ainda quatro featurettes sobre as filmagens.

– Colheita do Mal (The Reaping, EUA, 2007)
Direção: Stephen Hopkins
Elenco: Hilary Swank, David Morrisey, Idris Elba, AnnaSophia Robb
Duração: 96 minutos

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