Commitments – Loucos pela Fama, The

28/04/2009 | Categoria: Críticas

Alan Parker vai à periferia da capital da Irlanda e entrega musical excitante, saboroso e bem humorado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Irlandeses são os negros da Europa. Moradores de Dublin, os negros da Irlanda. Habitantes dos subúrbios do norte da capital irlandesa, os negros de Dublin. É partindo desta teoria – de que são as moscas no cocô do cavalo do bandido em bangue-bangue italiano – que um grupo de jovens humildes e trabalhadores da cidade resolve formar uma banda e conquistar o mundo. A jornada deles, cheia de contratempos e boa música, está documentada em “The Commitments – Loucos pela Fama” (Irlanda, 1991). O filme de Alan Parker não é apenas um musical espetacular, cheio de humor e energia, mas exibe ainda uma simbiose única e muito curiosa entre ficção e realidade, porque o enredo do longa-metragem acabou atravessando a fronteira e se refletindo nas vidas reais dos atores.

Quando o diretor Alan Parker abordou o projeto, no começo da década de 1990, o filme funcionava como retorno às raízes – além de irlandês de origem pobre, Parker se tornou conhecido por dirigir musicais como “The Wall” e “Fama”. Para levar às telas com credibilidade a história do grupo de trabalhadores que lutava para transformar o sonho do sucesso em fato real, ele decidiu que precisava trabalhar com amadores, que fossem mais músicos e menos atores. Um elenco profissional, raciocinou, não seria capaz de dar o molho de autenticidade necessário para a história funcionar. O que fez Parker? Foi à periferia de Dublin e fez testes com aproximadamente 1,5 mil rapazes e moças pobres que enfrentavam, sem muitas perspectivas, as altas taxas de desemprego daquela região.

Na prática, isto significava praticamente fazer um documentário. O diretor saiu dos testes com um grupo raçudo e talentoso. Poliu o roteiro baseado no livro do escritor Roddy McDoyle com fartas doses de humor e música, e foi em frente. O resultado é um longa-metragem delicioso, brilhante, que captura com exatidão a atmosfera de excitação juvenil e rivalidade, de esperança e inveja, de amizade e disputa, que existe num grupo de adolescentes trabalhadores tentando fazer carreira musical. Melhor ainda: Parker escolheu o estilo musical perfeito. A teoria desenvolvida pelo protagonista, o aspirante a empresário Jimmy Rabbitte (Robert Atkins), procede. Soul é música “sem frescura”, uma mistura de suor e sexo e hormônios. Não é música de virtuosos. É puro coração.

Filmado todo em locação, na periferia de Dublin, “The Commitments” funciona porque detém perfeitamente a aura de realismo da experiência. Veterano, Parker dirige com mão firme, alternando os diálogos cheios de humor ferino e juvenil (há diversas cenas engraçadíssimas, incluindo a longa seqüência de testes com toda a vizinhança – os “candidatos” da ficção foram interpretados realmente por candidatos rejeitados dos testes reais promovidos por Alan Parker) com números musicais longos e cheios de suingue. A música, quase toda composta por clássicos do soul (Smokey Robinson, James Brown, Wilson Pickett), é genial e bem executada.

“The Commitments” fez muito sucesso em 1991, e a razão não está apenas na qualidade da música, ou no alto grau de realidade que o projeto conseguiu alcançar. O trabalho cinematográfico também é espetacular: Alan Parker desenha, com simplicidade e sutileza, a trajetória da banda. A qualidade musical começa vacilante, mas vai ganhando dinâmica, sabor e intensidade, gradativamente, ao mesmo tempo em que as relações pessoais dentro do grupo passam por um processo inevitável de deterioração. Assim, quando a banda finalmente está em ponto de bala, seus integrantes não se suportam mais – e o filme retrata este processo com habilidade. Tudo chega ao auge numa noite repleta de bebida, música genial e desencontros divertidos, dentro de um bar bem vagabundo, daqueles onde a alma do verdadeiro rock’n’roll sempre poderá ser encontrada. Amém.

Ah, a tal simbiose entre ficção e realidade aconteceu porque os integrantes da banda fictícia realmente conseguiram desenvolver uma química música verdadeira. As filmagens terminaram, mas os ensaios não. O sucesso mundial do filme, com a trilha sonora vendendo quinze milhões de exemplares e praticamente forçando um lançamento de um Volume 2 no mesmo ano, deu a certeza de que eles precisavam – e a banda ultrapassou o limite entre real e imaginário, migrando de dentro para fora das telas. The Commitments, o grupo, fez turnês internacionais (inclusive vindo ao Brasil), lançou discos e permitiu aos integrantes desfrutaram um pouco de um sucesso que jamais aconteceu na dimensão ficcional. Legal, né?

Lançado em edição simples e sem extras no Brasil pela Universal, o longa está disponível no exterior em duas edições. A mais completa, dupla, tem um filme com excelente qualidade de vídeo (widescreen 1.85:1 anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1). Há comentário em áudio do diretor, quatro documentários (91 minutos no total), três clipes musicais, trailer e seis spots de TV. A edição nacional preserva enquadramento e áudio originais.

– The Commitments – Loucos pela Fama (Irlanda, 1991)
Direção: Alan Parker
Elenco: Robert Atkins, Johnny Murphy, Andrew Strong, Angeline Ball
Duração: 118 minutos

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