Como Água

16/03/2012 | Categoria: Críticas

Tecnicamente pobre e carente de contextualização para os leigos em MMA, documentário sobre Anderson Silva ainda é bom exemplo de superação

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O Brasil tem sido, desde sempre, um dos países mais importantes para o mercado do MMA (sigla para Mixed Martial Arts). A ascendência da popularidade desse esporte brutal ao longo do ano de 2011, contudo, tem sido um fenômeno midiático impressionante. Nesses poucos meses, atletas antes cultuados por um punhado de admiradores vêm se transformando em ídolos populares comparáveis a estrelas de telenovelas ou jogadores de futebol. O mais festejado desses atletas é o paulista Anderson Silva, personagem principal de “Como Água” (Like Water, EUA, 2011), um bom documentário com foco de interesse algo limitado.

De fato, o lançamento brasileiro de “Como Água” constitui um curioso caso de exceção na área de marketing cinematográfico. Afinal de contas, o longa-metragem foi bancado de forma independente e por um custo irrisório de US$ 300 mil. Circulou por festivais em 2011, e provavelmente teria sido lançado diretamente em DVD se o esporte praticado pelo protagonista não tivesse ganhado uma mídia monstruosa em 2011. Pois bem: o filme chega aos cinemas brasileiros com 170 cópias (número de lançamento de médio a grande porte) e respaldado por uma capa da revista Veja.

O grande problema dessa estratégia de lançamento é que “Como Água” não biografa a carreira de Anderson Silva, e nem contextualiza a sua imensa importância para a modalidade, na qual está entre os principais lutadores de todos os tempo. O filme apenas acompanha sua preparação para uma luta específica – o épico combate contra o americano Chael Sonnen, em 7 de agosto de 2010, no qual Silva levou uma surra durante quatro rounds e meio, mas encaixou um golpe de jiu-jitsu e fez o adversário desistir da luta quando faltava pouco mais de um minuto para o término. Tanto a luta em si quanto a fase de preparação, em que Sonnen falou cobras e lagartos a respeito do brasileiro, forneciam material para um drama de prender o fôlego.

Qual o problema, então? É que “Como Água” parece ter sido realizado para os já iniciados em MMA. A parcela do público que só conhece Anderson Silva de vê-lo em comerciais em TV e programas de auditório deve, em muitos momentos do filme, ficar meio perdido. Isso é algo natural, considerando que o longa-metragem foi concebido antes da explosão midiática que impulsionou o MMA ao posto de esporte favorito dos brasileiros, mas prejudica um bocado a compreensão total das sutilezas do drama que se desenrola na tela.

Figuras de destaque do mundo das lutas, inclusive os brasileiros Rodrigo Minotauro e Lyoto Machida, aparecem no filme – Lyoto tem até crédito de roteirista. No entanto, quem não conhece MMA talvez não entenda o que eles fazem ali, e nem contextualizem a importância de Anderson treinar junto a atletas de tal gabarito técnico. Alem disso, o momento culminante da exibição (um resumão da luta contra Sonnen), mostrado de maneira burocrática, não enfatiza realmente o drama vivivo pelo lutador brasileiro dentro do octógono, já que um leigo em artes marciais não consegue perceber realmente quem está ganhando e quem está perdendo o combate, em especial quando a luta se desenvolve no solo, com os lutadores ajoelhados ou deitados. Então, iniciantes em MMA podem ter dificuldades para perceber claramente quão perto Anderson esteve da derrota naquele dia.

O maior mérito do filme de Pablo Croce não está no quadro geral, portanto, mas na ênfase correta nos pequenos detalhes, em especial nos crescentes conflitos interiores vividos pelo lutador brasileiro ao longo dos dois meses de preparação para a luta. Espectadores atentos perceberão como Anderson, embora disciplinado no plano físico, tem problemas para manter o foco e estabilizar a parte mental. Longe da família, ele parece impaciente, irritadiço e desconfortável com o UFC, a organização dentro da qual ele luta. Nesse sentido, “Como Água” se transforma num ótimo exemplo de superação. Afinal, não é todo mundo que consegue driblar o tanto de dificuldades enfrentado pelo ídolo, em vários níveis diferentes (da ausência da família ao próprio cansaço mental, dos apupos com o público americano ao embaraço diante da desconfiança com que os gerentes do UFC o encaram, sem falar de ter que lidar com a vantagem do adversário durante toda a luta), e sair vitorioso e renovado de uma situação difícil como a apresentada.

Na parte técnica, é importante ressaltar que o baixo orçamento salta aos olhos de modo gritante. A captação de áudio é bastante deficiente, de modo em que muitos momentos fica complicado compreender os diálogos. As imagens das lutas são cedidas pelo UFC (não há tomadas exclusivas, e não existem closes ou planos-detalhes que possam enfatizar a tensão, a angústia e os sentimentos vividos pelos atletas) e há algumas passagens claramente ensaiadas. Assim, o longa funciona muito melhor para quem já é fã de MMA. Quem não conhece bem o esporte vai precisar de um cartão de visitas um pouco mais didático.

– Como Água (Like Water, EUA, 2011)
Direção: Pablo Croce
Documentário
Duração: 76 minutos

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