Como Fazer Bebês

01/01/2006 | Categoria: Críticas

Comédia britânica baseada em livro hilariante é obra de diretor inexperiente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

“Como “Fazer Bebês” (Maybe Baby, Inglaterra, 2000) investe forte em um filão, descoberto pelos cineastas ingleses há algum tempo, a partir da deliciosa comédia “Quatro Casamentos e Um Funeral”. São filmes leves, românticos, que não raro abordam problemas sérios sob uma perspectiva divertida (você deve lembrar de “Simplesmente Amor”, com um pequeno papel do brasileiro Rodrigo Santoro). Infelizmente, os britânicos são acostumados a um outro tipo de humor, mais satírico e depreciativo, e ainda não encontraram (com raras exceções, como o já citado “Casamentos…”) o timing correto para essas obras. É esse o caso da obra de Ben Elton.

A origem do filme está em um romance de sucesso na Inglaterra (lançado no Brasil pela editora Record, com o título “Inconcebível”). O livro era hilariante. Descrevia a luta inglória de um casal para tentar engravidar, a partir de dois pontos de vistas distintos. Ele, Sam Bell, um homem apaixonado pela esposa mas hesitante, até um pouco apavorado, com a idéia de ser pai. Ela, Lucy, uma secretária executiva louca para ter um bebê, e com um medo secreto de ser infértil. Elton escreveu o livro no formato de dois diários. Os textos seriam, em tese, mantidos pelos protagonistas, e Elton os intercala de modo a narrar a história de dois pontos de vistas diferentes.

Grande parte da graça do romance vem exatamente disso. Os pontos de vistas de Sam e Lucy são diametralmente opostos, e funcionam quase como arquétipos do comportamento de homens e mulheres diante da idéia de paternidade. Esse conceito, que funcionou muito bem no papel, sofreu bastante quando a narrativa virou filme. Ben Elton, que foi também roteirista do longa-metragem, apanhou feio do próprio livro, e não conseguiu uma solução que providenciasse dinamismo e fluidez à narrativa cinematográfica. Ele poderia ter criado um filme diferente, mais ou menos na linha do que Quentin Tarantino fez no terço final de “Jackie Brown”, mas preferiu ser conservador e criou uma comédia romântica tradicional, clássica. O resultado é que a diversão ficou pelo caminho.

Um dos grandes problemas do filme é a dupla narração em off. Narrações desse tipo são sempre problemáticas, mas quando um diretor decide usar o recurso durante todo o filme, e ainda por cima tem dois personagens narrando, o problema vira um verdadeiro empecilho. Dessa forma, “Como “Fazer Bebês” virou uma narrativa verborrágica e emperrada. Talvez, se Elton tivesse substituído a idéia do duplo diário por amigos íntimos com quem os dois protagonistas discutissem suas situações pessoais, toda a narrativa tivesse se beneficiado, ganhando ritmo.

Outro problema óbvio é a inexperiência do diretor,. Embora seja homem experiente em TV, com inúmeros créditos como roteirista (ele escreveu, por exemplo, o famoso programa “Mr. Bean”), Elton jamais havia dirigido antes, e isso fica evidente na falta de timing cômico para as piadas. Em outras palavras: cenas que são engraçadíssimas no livro se tornam chatas, enfadonhas e até constrangedoras na tela. É mais um problema de direção e montagem do que propriamente de atuação, pois os dois atores, Hugh Laurie (que faz Sam) e Joely Richardson (Lucy), estão razoáveis. E não custa prestar atenção no defile de gente conhecida, como Rowan Atkinson e Emma Thompson.

Mesmo nesse campo, porém, há problemas. Quem leu o livro vai lembrar que Sam, um executivo da rede de televisão BBC, encontra-se às voltas com uma dupla de humoristas de vanguarda que não têm a mínima graça, mas se acham gênios. Os personagens foram mantidos no filme, mas soam falsos, bizarros, estranhos – como personagens de um filme ruim, não como pessoas que realmente poderiam existir na vida real. Essa sensação de artificialidade, em resumo, é o que estraga o prazer de assistir a “Como “Fazer Bebês”, um bom projeto que poderia ter rendido uma comédia inteligente nas mãos de um diretor mais experiente.

O filme foi lançado no Brasil em DVD pela Europa, com qualidade ruim. Nas Regiões 1 (EUA) e 2 (Europa), foi lançado em discos simples, sem material extra, mas mantendo o formato original da imagem (widescreen 1.78:1) e com som Dolby Digital 5.1. A Europa deu cortes laterais na imagem (4:3) e usou um som inferior (DD 2.0).

– Como Fazer Bebês (Maybe Baby, Inglaterra, 2000)
Direção: Ben Elton
Elenco: Hugh Laurie, Joely Richardson, Adrian Lester, James Purefoy
Duração: 104 minutos

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