Como Fazer um Filme de Amor

17/05/2006 | Categoria: Críticas

Estréia de José Roberto Torero na direção soa como uma boa piada contada por um comediante sem graça

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

José Roberto Torero é escritor elogiado. Tem intimidade com cinema, sim, mas como roteirista; entre outros trabalhos, ele escreveu o texto (um tanto melodramático, por sinal) do documentário “Pelé Eterno”. Por isso, a decisão de dirigir uma comédia romântica dá toda pinta de ataque de ego, impressão que fica mais forte depois que se vê “Como Fazer um Filme de Amor” (Brasil, 2005). Apesar de ter sido construído em cima de uma boa idéia, o longa-metragem apela para diálogos de humor duvidoso e direção de arte de novela, artificial ao extremo, na tentativa de satirizar o gênero.

A proposta metalingüística é uma grande sacada: expor para a platéia a fórmula clássica que guia a narrativa da maioria dos filmes – um herói, uma mocinha, um vilão, duas reviravoltas e um monte de clichês – através de um narrador que vai, cena a cena, mostrando cada um dos artifícios narrativos utilizados pelos bons contadores de história para construir uma obra de ficção. “Como Fazer um Filme de Amor”, portanto, foi talhado para exibições em cursos de cinema, em que os alunos estão aprendendo quais os recursos dramatúrgicos são utilizados pelos cineastas.

A melhor coisa de “Como Fazer um Filme de Amor” é a narração em off de Paulo José. A voz onipresente funciona não como guia da história, mas como uma espécie de guia de áudio escrito pelo diretor para alinhavar e explicar as escolhas narrativas. Aí, a voz sem dono vai ensinando como se escolhe a fonte usada nos letreiros de abertura, o que é um cenário eficiente, como uma cena deve começar e terminar, quais os momentos em que a narrativa precisa criar tensão na platéia. Usando linguagem simples e cheia de bom humor, o narrador é responsável pelos momentos mais cômicos, além de revelar alguns segredos que o grande público vai adorar descobrir (“aqui é a virada, que todo filme tem. É um ponto que deve acontecer aos 15 ou 20 minutos e mudar os rumos da história”).

O uso abusivo de clichês, que alguns poderiam apontar como problema, não incomoda nesse caso, porque a repetição de elementos já previamente testados e aprovados por outras platéias é necessária para que a narração em off funcione a contento. Cada clichê oferece ao narrador uma oportunidade de interferir, revelando um novo detalhe sobre a narrativa. Desse modo, desde o início a platéia sabe direitinho quem é cada personagem e qual a sua função na trama: o herói é o publicitário Alan (Cássio Gabus Mendes), a mocinha é a fotógrafa Laura (Denise Fraga), a vilã é Lilith (Marisa Orth), e o parceiro mau da vilã não tem nome (André Abujamra).

O arco dramático que o trio percorre também é absolutamente previsível. O mocinho e a mocinha se conhecem, se odeiam, são obrigados a conviver por causa de circunstâncias especiais (no caso, um trabalho de emergência que ela precisa realizar para ele) e vão, aos poucos, se conhecendo melhor e se apaixonando. Lilith e o parceiro punk de butique – a caracterização ridícula de Abujamra, com trajes inadequados e interpretação caricata digna do “Zorra Total”, é um dos defeitos mais evidentes da produção – têm a tradicionalíssima tarefa de impedir a união.

Grande parte do problema de “Como Fazer um Filme de Amor” está na direção hesitante, inexperiente, de Torero. Dela resulta, por exemplo, a estética de filme televisivo, com fotografia limpinha demais, uso excessivo de close ups nos rostos dos atores e locações que parecem tiradas de um musical da Metro – até a praia onde parte das cenas acontece parece ter sido construída em estúdio. Ademais, o longa-metragem carece de ritmo mais firme; se em certos momentos a narrativa caminha a grandes saltos, em outros o filme anda amarrado. São defeitos que um cineasta mais experiente não teria dificuldades em evitar.

Por fim, o uso de metalinguagem é tão abundante que acaba funcionando contra o longa-metragem, pois emperra demais o andamento da história. Há uma seqüência que serve como exemplo do problema: quando estão na praia, Alan e Laura são obrigados a passar uma noite juntos, a contragosto. No dia seguinte, acordam como seres humanos normais: sujos, descabelados, mal-humorados e com péssimo hálito. Aí o narrador manda voltar e a cena é repetida, só que com ambos limpos, bonitos e ostentando dois tremendos sorrisos Colgate.

A idéia é interessante e na hora até funciona, mas quando a mesma estratégia é repetida poucos minutos depois e o narrador manda parar tudo de novo, a narrativa trava, demora a andar e tudo acaba ficando meio cansativo. “Como Fazer um Filme de Amor” é como uma piada legal contada por um comediante sem graça: a gente percebe que ela é engraçada, mas não consegue rir direito. Na dúvida, prefira o delicioso filme-irmão “Quando Paris Alucina” (1964), brincadeira metalingüística que o charme de Audrey Hepburn e o pulso firme do diretor Richard Quine não deixam desandar.

O DVD da Vídeo Filmes é interessante. O filme preserva o formato da imagem (letterbox 4:3), tem som legal (Dolby Digital 5.1) e alguns extras: comentário em áudio do diretor, um trailer e um curto making of (8 minutos).

– Como Fazer um Filme de Amor (Brasil, 2005)
Direção: José Roberto Torero
Elenco: Denise Fraga, Cássio Gabus Mendes, Marisa Orth, Maria Manuela
Duração: 84 minutos

| Mais


Deixar comentário