Como Festejei o Fim do Mundo

01/10/2010 | Categoria: Críticas

Filme romeno filtra ditadura sanguinária pelo olhar de uma adolescente cheia de vida

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O avanço da tecnologia digital e a conseqüente redução dos custos financeiros para a produção de filmes tem um lado ruim e outro bom. Do ponto de vista negativo, é fato que o número de longas-metragens que vêm sendo produzidos a cada ano é crescente, e a maior parte deles apresenta qualidade desanimadora. Por outro lado, a facilidade de filmar com poucos recursos e boa qualidade técnica, proporcionada pelas câmeras digitais, tem ajudado a revelar cineastas desconhecidos e de talento, capazes de produzir histórias simples, delicadas e humanas. É neste último caso que se enquadra “ComoFestejeio Fim do Mundo” (Cum mi-am petrecut sfarsitul lumii, Romênia, 2006).

O filme, com pano de fundo histórico, dramatiza a vida dos romenos de classe média durante os últimos anos da sanguinária ditadura de Nicolau Ceaucescu, filtrada pela ótica de uma esperançosa adolescente chamada Eva (Doroteea Petre). Trata-se de uma interessante variação do tema do amadurecimento, do rito de passagem à fase adulta, filmada por um diretor que não está particularmente interessado em criar uma obra política, ideológica ou engajada. Catalin Mitulesco procura ajustar o foco da narrativa nos personagens, que vivem dramas universais, porém imersos em uma atmosfera de apatia e desânimo, resultantes da repressão política. O resultado final lembra bastante o brasileiro “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, feito no mesmo ano.

Filha de proletários que se alimentam de sopa e batatas, em uma rua enlameada que parece situada num subúrbio do Recife, Eva é uma garota esperta, que vive uma paixão adolescente com um colega cuja família tem situação mais próspera. Certo dia, enquanto namoram, os dois quebram por acidente um busto do ditador romeno. Como ela é mais pobre, acaba levando a culpa pelo incidente, que provoca a expulsão da escola. Eva então vai estudar num colégio de subúrbio, para meninos ainda mais pobres do que ela. Lá, vai descobrir um insuspeito talento artístico, e também conhecer um rapaz magricela que tem sonhos românticos sobre fugir da Romênia, nadando pelo rio Danúbio para escapar da vigilância dos militares locais.

“Como Festejei o Fim do Mundo” faz parte de uma linhagem de cinema simples e despojado, que despreza elementos típicos de uma linguagem cinematográfica mais rebuscada (trilha sonora, movimentos elaborados de câmera, mixagem habilidosa de som), em busca de um resultado mais naturalista, mais próximo da vida real. O resultado é interessante, embora o filme não aprofunde os conflitos da adolescente. A narrativa permanece sempre a uma distância cuidadosa da personagem, com uma abordagem que lembra o cinema ascético de Robert Bresson. Boa parte da história é narrada do ponto de vista do irmão mais novo de Eva, um menino de 9 anos, que não entende muito bem as mudanças pelas quais a irmã passa.

Festejado em festivais de cinema de toda a Europa, “Como Festejei o Fim do Mundo” conquistou o troféu de melhor atriz da mostra paralela Um Certain Regard, no Festival de Cannes de 2006. Prêmio justo, já que a performance carismática de Doroteea Petre, jovial e cheia de sensualidade espontânea, incute no filme frescor e energia. Desta forma, o filme repetiu a trajetória vencedora de “A Morte do Sr. Lazarescu”, outro elogiado drama romeno, também premiado em Cannes. O filme de Mitulescu é um inferior, mas representa bem o tipo de cinema minimalista, centrado em histórias simples de gente do povo, que vem revelando o Leste europeu como território fértil para o surgimento de novos cineastas.

O DVD da Imovision não tem extras, mas respeita o enquadramento original (wide anamórfico) e tem bom áudio (Dolby Digital 2.0).

– Como Festejei o Fim do Mundo (Cum mi-am petrecut sfarsitul lumii, Romênia, 2006)
Direção: Catalin Mitulescu
Elenco: Doroteea Petre, Ionut Becheru, Jean Constantin, Mircea Diaconu
Duração: 106 minutos

| Mais


Deixar comentário