Companheiros

20/09/2006 | Categoria: Críticas

Sergio Corbucci exercita estilo bemhumorado em faroeste político que aborda a Revolução Mexicana

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Após iniciar a carreira como diretor assistente para o grande Sergio Leone, o cineasta italiano Sergio Corbucci seguiu firmemente os passos do mentor para se firmar como o segundo mais importante diretor de faroestes espaguete. Saiu da cabeça dele, por exemplo, a idéia para a popularíssima série de filmes com o personagem Django. Entre os aficionados do gênero, ele acabou ganhando uma alcunha pitoresca: “o outro Sergio”. Boa parte dos fãs considera este “Companheiros” (Vamos a Matar, Compañeros, Itália/Espanha/Alemanha, 1970) como a obra-prima de Corbucci, e também o melhor filme do estilo que não teve a mão de Leone.

Exagero. O filme é bacana e funciona como excelente exemplo do estilo de Corbucci, mas não chega a ser tão bom quanto o melancólico e violento “O Silêncio da Morte”, que o próprio cineasta havia dirigido dois anos antes. Parte dos cinéfilos que curtem faroeste espaguete atribui a qualidade da obra à trama levemente política, mas o melhor exemplar do gênero a abordar o tema da Revolução Mexicana também não é “Companheiros”, e sim “Uma Bala para o General” (1967), que Damiano Damiani havia feito três anos antes.

Na prática, este filme é uma bela coleção de clichês narrativos do spaghetti western. Está tudo aqui: o pistoleiro cínico e amoral, o nativo que funciona como sua contraparte cômica, um vilão misterioso de hábitos excêntricos, o visual ofuscante de empoeirados terrenos amarelados e céus azuis dos desertos emprestados de Almeria (Espanha), e a trilha sonora do mestre Ennio Morricone. Como moldura, Corbucci acrescenta suas características particulares, como uma dose extra e abundante de humor negro e seu ator-fetiche, Franco Nero.

Nero interpreta o mercenário sueco Yolaf Peterson, que encontramos entrando no México em plena revolução. Ele deseja vender armas para um dos revolucionários, o violento general Mongo (José Bódalo). O dinheiro que Mongo pretende usar para adquiri-las, porém, está trancado no cofre de um banco, e somente um revolucionário rival, o professor Xantes (Fernando Rey), possui a chave. O problema é que Xantes está preso nos EUA. Peterson tem um plano para libertá-lo, e para isso conta com a ajuda de Vasco (Tomas Millian), mas o vilanesco John “Mão-de-Madeira” (Jack Palance) pensa diferente.

Como em grande parte dos faroestes espaguete, a dinâmica do filme é toda criada entre dois personagens que se odeiam, mas por força das circunstâncias são obrigados a agir em conjunto. Leone fez o filme definitivo com essa história (“Três Homens em Conflito”), e basicamente o trabalho de Corbucci é recontá-la com mais violência e humor, acrescida ainda de elementos bizarros (a figura sebenta de Jack Palance, cujo personagem usa luvas de couro negro e anda sempre acompanhado por um falcão).

A ênfase visual da fotografia de Alejandro Ulloa está nas paisagens secas, iluminadas com luz ofuscante, e nos esplêndidos olhos azuis de Franco Nero – daí a quantidade anormalmente abundante de closes no rosto do astro italiano, então um nome importante dentro do gênero, graças à caracterização como Django, um dos personagens mais queridos pelos fãs. “Companheiros” é um filme divertido, que se apóia de modo certeiro no suingado tema musical composto por Ennio Morricone. Não é genial, mas está longe de ser fraco.

O DVD brasileiro, da New Line, é baseado na caprichada edição norte-americana lançada pela Anchor Bay. O filme está com qualidade muito boa de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e som (Dolby Digital 2.0, em inglês, italiano e português). Há ainda um trailer e um pequeno documentário (18 minutos) que inclui entrevistas dos atores Nero e Millian, além do maestro Ennio Morricone.

– Companheiros (Vamos a Matar, Compañeros, Itália/Espanha/Alemanha, 1970)
Direção: Sergio Corbucci
Elenco: Franco Nero, Tomas Millian, Fernando Rey, Iris Berben
Duração: 118 minutos

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