Companhia dos Lobos, A

30/05/2004 | Categoria: Críticas

Estréia de Neil Jordan recria fábula de Chapeuzinho Vermelho com lobisomens e conotação sexual

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Uma versão adulta e repleta de simbolismos sexuais da fábula de Chapeuzinho Vermelho. Em resumo, esse é o enredo do barroco filme de estréia do diretor Neil Jordan. “A Companhia dos Lobos” (The Company of Wolves, Inglaterra, 1984) substituiu o lobo mau por um lobisomem, mas manteve os elementos essenciais do conto infantil: a avó, os morangos silvestres, a capa de lã vermelha da garota e até mesmo os famosos diálogos (“para que esses olhos tão grandes?” pergunta ela; “É para te ver melhor”, responde o lobo).

Neil Jordan agitou o cinema de horror europeu em 1984 com “A Companhia dos Lobos”. Na época, o gênero estava basicamente confinado aos Estados Unidos, onde as séries “Sexta-feira 13” e “A Hora do Pesadelo” estabeleciam uma conexão direta entre os filmes de terror e os adolescentes. O cineasta inglês preferiu um caminho bem diferente. Fez um sucesso razoável, inclusive vencendo o Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz, e despontou para uma carreira irregular em Hollywood. Jordan faria depois o bom “Entrevista com o Vampiro”.

“A Companhia dos Lobos” é uma tentativa honesta de sofisticar e intelectualizar o mito do lobisomem, como se Freud se juntasse ao mago Aleister Crowley para explicar a psicologia da fábula de Chapeuzinho Vermelho. A história se passa em uma época indefinida; os figurinos dão uma pista de que podemos estar numa vila burguesa do século XVIII, mas há uma rápida aparição de Satã (Terence Stamp, em ponta não creditada) num automóvel brilhando de novo. Também é difícil de estabelecer o que acontece de verdade e o que é de sonho de Rosaleen (Sarah Patterson), uma garota de 14 anos que está entrando na puberdade.

O simbolismo sexual é evidente. Na releitura de Neil Jordan, a avó Grannie (Angela Lansbury) representa a família repressora, que tenta afastar a menina dos impulsos sexuais nascentes; estes são representados pelos lobos “peludos por dentro”. É a avó que prenuncia o conteúdo do filme ao contar uma história fantástica sobre os sedutores homens de sobrancelhas grossas. A partir daí, “A Companhia dos Lobos” vai e volta no tempo livremente e inclui flashbacks de diferentes personagens dentro de um sonho da protagonista. Tudo isso dificulta bastante o acompanhamento da ação.

De qualquer forma, ela – a ação – não importa muito. É com o aparecimento de um estranho viajante solitário que o despertar sexual de Rosaleen se completa. O sexo, neste filme, é associado à natureza animal do ser humano (“o lobo que cada um carrega dentro de si, tanto homens quanto mulheres”, diz uma personagem em determinado momento). Por isso, as duas seqüências de transformação dos lobisomens resultam deslocadas, além de serem visualmente inferiores a obras antepassadas, como “Um Lobisomem Americano em Londres”.

Aliás, o baixo orçamento da película é evidente. A floresta em que Rosaleen e sua avó passeiam e colhem morangos jamais aparece em tomadas panorâmicas, o que evidencia a sua criação em estúdio. Mesmo assim, Neil Jordan acerta ao criar um clima soturno, utilizando-se basicamente de efeitos de iluminação (a cena em que a criança sonha pela primeira vez é representada com uma luz que se apaga num rompante, enquanto o vento enche o quarto e arranca o lençol da cama), enquadramentos em perspectiva subjetiva (como se algo ou alguém estivesse o tempo todo à espreita, no bosque) e uma assustadora trilha sonora de George Fenton.

Os melhores momentos de “A Companhia dos Lobos” são cenas isoladas, verdadeiros pesadelos em cores vivas. A seqüência onírica em que Rosaleen é perseguida por bichos de pelúcia e palhaços de brinquedo tem potencial para dar arrepios em qualquer um, adulto ou criança. Infelizmente, a narrativa não tem coesão e o filme fica enfadonho em vários momentos. Sem dúvida, uma estréia que promete, mas não cumpre totalmente. No Brasil, o filme vem em DVD simples, sem extras, com som Dolby Digital 5.1 e imagens originais em widescreen.

– A Companhia dos Lobos (The Company of Wolves, Inglaterra, 1984)
Direção: Neil Jordan
Elenco: Sarah Patterson, Angela Lansbury, David Warner, Stephen Rea
Duração: 96 minutos

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