Comunidade, A

10/05/2006 | Categoria: Críticas

Alex de La Iglesia cria eficiente comédia pop de humor negro com toques de Hitchcock

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O cineasta espanhol Alex de La Iglesia jamais escondeu do público que sua maior inspiração vem dos filmes de Alfred Hitchcock, a quem ele considera o mais perfeito realizador, do ponto de vista técnico. Em “A Comunidade” (La Comunidad, Espanha, 2000), quinto longa-metragem de uma carreira prolífica em filmes de baixo orçamento, Iglesia realiza uma homenagem direta ao mestre do suspense, mantendo ao mesmo tempo o pendor que sempre demonstrou para temas bizarros e levemente irreais. “A Comunidade” é uma eficiente comédia pop de humor negro, cheia de referências a filmes de cabeceira do diretor espanhol.

A história, como na maior parte dos filmes de Iglesia, é bastante simples, funcionando em certo nível de leitura como uma curiosa pancada no sistema econômico e social espanhol. Ela se passa em Madri e tem como protagonista a corretora de imóveis Júlia (Carmen Maura, musa de Pedro Almodóvar, excelente). Mulher na faixa dos 40 anos que vem enfrentando dificuldades financeiras para sustentar o marido recém-desempregado, ela precisa apresentar a um casal de clientes um apartamento que fica em um prédio decrépito de Madri. Entediada, o faz com mau humor, que se desfaz quando Júlia descobre que o lugar é maravilhosamente mobiliado, com sauna, colchão d’água e confortáveis sofás de couro.

Para tentar levantar a moral do marido, Júlia planeja um jantar romântico no lugar. O farra a dois é interrompida por um vazamento que vem do apartamento no andar de cima, onde mora um velhinho solitário que nunca sai de casa. Júlia chama os bombeiros, e com isso acaba desencadeando uma sucessão de eventos surreais que vão obrigar a mulher a ficar vários dias sem poder sair do apartamento, enquanto convive com um alucinado séqüito de vizinhos, que inclui um charmoso professor cubano de salsa e um rapaz voyeur fanático pela série “Guerra nas Estrelas”, que anda dentro de uma fantasia de Darth Vader (com respiração mecânica e tudo).

A inspiração principal – a interação forçada entre uma pessoa que tem algo a esconder e vizinhos bizarros que também não são o que parecem ser – é óbvia, e vem de “O Terceiro Tiro”, única comédia dirigida por Hitchcock. Há também certa semelhança temática com o thriller “Cova Rasa”, de Danny Boyle, e pitadas dos filmes claustrofóbicos de Roman Polanski que se passam em apartamentos fechados, como é o caso de “O Bebê de Rosemary” e “O Inquilino”. Sendo assim, Alex de La Iglesia exercita, aqui, o que sabe fazer melhor: uma colagem divertida e pessoal de referências pop, trituradas em uma narrativa leve e alheia à realidade. O cineasta constrói um mundo de fantasia e faz com que seus personagens nele habitem.

Quando se examina a curiosa fauna de vizinhos e o motivo pelo qual todos se dedicam a espionar a vida de Júlia, fica clara a esperteza do diretor espanhol, que aproveitou a situação dramática para alfinetar, com sutileza, o sistema econômico e social da Espanha. Afinal, o diretor constrói um séqüito de personagens vivendo à margem da sociedade, alheios ao peso da realidade, sempre apostando na chegada de uma fortuna incerta. Eles são como apostadores viciados em uma grande loteria, que se recusam dessa forma a viver a vida. De qualquer forma, talvez seja um erro tentar ver numa obra de Alex de La Iglesia algo mais do que uma trama criativa e engraçada, que só quer divertir.

O DVD nacional é da Warner. Disco simples, contendo o filme com boa imagem (wide 16:9 anamórfico) e som apenas razoável (Dolby Digital 2.0). Entre os extras, um pequeno segmento de bastidores e outro mostrando a entrega do prêmio Goya, o Oscar espanhol, em que Carmen Maura faturou o troféu de melhor atriz.

– A Comunidade (La Comunidad, Espanha, 2000)
Direção: Alex de La Iglesia
Elenco: Carmem Maura, Eduardo Antuña, Mariá Asquerino, Jesús Bonilla
Duração: 105 minutos

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