Conan – O Bárbaro

15/09/2011 | Categoria: Críticas

Equivocado do começo ao fim, filme soa como mistura mal-ajambrada de “O Senhor dos Anéis” com “Gladiador”, somando-se pitadas de “A Múmia” e alguma nudez feminina

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

A primeira seqüência de “Conan – O Bárbaro” (Conan the Barbarian, EUA, 2011), sem contar o prólogo, dá uma boa idéia dos 113 minutos que vêm pela frente. Um narrador anônimo – que em momento algum dá as caras – nos informa a respeito de um guerreiro lendário que “nasceu dentro de uma batalha”. A seqüência nos mostra quão literal é a sentenção. Entre braços decepados e jatos de sangue, observamos o bárbaro Corin (Ron Pearlman) abrindo a barrigão da esposa para permitir que ela, após ceifar a vida de dois ou três adversários mesmo prestes a dar à luz, possa ver o bebê antes de fechar os olhos para sempre. Antes mesmo de ter o cordão umbilical cortado, o pequeno Conan encontra o peito da mãe. E sorve sangue, ao invés de leite.

O modo com o diretor Marcus Nispel encena o nascimento inverossímil poderia funcionar como um catálogo de técnicas narrativas sobre como impedir que o espectador estabeleça alguma empatia com um filme assim. As interpretações são teatrais, exageradas, empostadas em tom artificial de declamatório (e continuam assim pelo resto do filme). A câmera filma o casal e o bebê colada aos rostos dos atores, deixando a imagem chapada e sem profundidade na maior parte do tempo – um erro imperdoável para um filme em 3D. A batalha, feroz até que a mulher comece o trabalho de parto, abre uma espécie de clarão para que ela possa ter o filho com certa tranqüilidade, um absurdo reforçado pelo caos absoluto estabelecido nas primeiras imagens da cena. Até mesmo os sons da batalha, que poderiam envolver o espectador e sinalizar que a luta continuava, são amortecidos e ouvidos apenas ao longe.

Antes mesmo dessa abertura desastrosa, “Conan” já dava sinais de que não passaria de um equívoco cinematográfico. O prólogo, que estabelece a ação dramática num local e num tempo lendários, proporciona uma exposição rasteira, criva o espectador com uma série desnecessária de nomes de cidades, continentes, tribos e pessoas, tudo por cima de uma seqüência pavorosa de imagens de mapas, num arremedo muito mal disfarçado de “O Senhor dos Anéis”. Esse arremedo inclui a existência de um artefato mágico capaz de dar poder total sobre o mundo lendário àquele que reunir as diversas partes desse objeto, o que firma o longa-metragem como mais uma tentativa de lucrar sobre o sucesso da série de Peter Jackson.

Mais à frente, quando Conan (Jason Momoa) finalmente cresceu e se tornou um guerreiro adulto metrossexual, do tipo de usa sobrancelhas delineadas e está sempre cheiroso e de banho tomado, o filme abre uma segunda linha narrativa tradicional – uma história de vingança, em que o protagonista embarca numa jornada suicida para vingar uma morte na família. O responsável pelo crime, evidentemente, é o líder de um bando de ladrões (Stephen Lang) que também calha de estar tentando recuperar a antiga jóia perdida, o que lhe poderá dar não apenas controle sobre o mundo, mas também a oportunidade de ressuscitar a esposa. Em resumo: “Conan” é uma mistura mal-ajambrada de “O Senhor dos Anéis” com “Gladiador”, somando-se pitadas de “A Múmia” e alguma nudez feminina.

Tudo isso seria passável se Nispel ao menos filmasse com segurança e alguma inventividade visual. Não é isso que se vê. O diretor usa pouco um dos maiores trunfos dos filmes realizados em três dimensões (o efeito de profundidade) e erra a mão na montagem, filmando batalhas e lutas de espada à base de cortes rápidos e mudanças radicais no eixo da câmera. Seu elenco também é muito fraco, em particular o inexpressivo Momoa, que não consegue dar vida ao guerreiro supostamente atormentado que é Conan. O personagem icônico dos quadrinhos, imortalizado por Arnold Schwarzenegger no belo filme de John Millius, mais parece um fanfarrão primo de Jack Sparrow do que o lutador sombrio e furioso das encarnações anteriores. Tantos equívocos justificam o fracasso de público (somente US$ 20 milhões em quatro semanas nos EUA, após gastar U$ 90 milhões) e de crítica (22% de aprovação, ou reprovação, no Rotten Tomatoes).

– Conan – O Bárbaro (Conan the Barbarian, EUA, 2011)
Direção: Marcus Nispel
Elenco: Jason Momoa, Stephen Lang, Rachel Nichols, Ron Pearlman
Duração: 113 minutos

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