Conan, O Bárbaro

08/10/2008 | Categoria: Críticas

Um herói pode ser ladrão, violento, beberrão e mulherengo? Resposta: se o sujeito for Arnold Schwarzenegger, pode sim!

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O surgimento de Arnold Schwarzenegger na cena cinematográfica de Hollywood se deu como o andróide indestrutível de “O Exterminador do Futuro”, certo? Errado: a verdadeira explosão do austríaco marombeiro aconteceu um pouco antes, quando roubou a cena em “Conan, O Bárbaro” (Conan The Barbarian, EUA/Itália, 1982). Esse épico adolescente está nas locadoras e lojas através de duas edições em DVD recheadas de extras. Trata-se de uma ótima chance de conferir uma das adaptações de quadrinhos mais fiéis, violentas e bem-humoradas já feitas em Hollywood.

Antes que o leitor de memória mais afiada comece a reclamar, um lembrete: o personagem Conan não surgiu em gibis, mas em livros de bolso, a chamada pulp fiction. O bárbaro da lendária terra da Suméria c0mpletou, aliás, 70 anos em 2002. O primeiro livrinho barato com o nome de Conan na capa, vendido em bancas de revistas dos EUA, foi lançado em 1932. O escritor Robert E. Howard foi um dos precursores do gênero capa-e-espada, criando um universo ambientado numa era longíqua, em que bárbaros e magos caminhavam pela Terra, milhares de anos atrás. Suas narrativas, porém, eram bem menos violentas e sexuais do que os quadrinhos, surgidos na década de 1970. Foram esses gibis que inspiraram o produtor Edward Pressman a desenvolver o roteiro, assim que ele viu pela primeira vez a figura musculosa de Schwarzenegger, em 1977. Pressman quis usá-lo num filme e a figura de Conan logo lhe veio à cabeça.

Ao contrário do que muitos podem pensar, o universo sumeriano não foi inspirado em “O Senhor dos Anéis”; os livros de Robert Howard vieram antes dos trabalhos de Tolkien. No caso do filme, a história se repete. Visto hoje, “Conan, O Bárbaro” exibe uma crueza que faz falta no filme de Peter Jackson. Além disso, confirma ter exercido uma certa influência em épicos modernos como o paparicado “Gladiador”. Esse último, principalmente, deve muito ao trabalho de John Milius. A obra de Ridley Scott soa como uma revisão menos criativa e mais sofisticada de Conan. Da seqüência de abertura (um exército arrasando uma aldeia no meio da neve) à linha básica do enredo (gladiador que busca vingança, na base da espada, contra vilões que mataram sua família), tudo no vencedor do Oscar de 2001 lembra o trabalho de Schwarzenegger.

A ironia está na recepção da crítica aos dois trabalhos. Como se sabe, “Gladiador” foi saudado como triunfo do cinema digital e renascimento de um gênero natimorto. Já o épico com Schwazenegger, apesar do sucesso entre adolescentes, foi torpedeado sem dó pelos especialistas e amargou o esquecimento por anos a fio. Injustiça: “Conan, O Bárbaro” tem fartas doses de violência e compensa as evidentes limitações orçamentárias com o uso criativo dos poucos efeitos disponíveis. Além disso, tem a vantagem de apresentar Schwarzenegger partindo para a porrada sem falar muito — ou seja, um papel feito sob medida para ele. Grande destaque também vai para a trilha sonora do grego Basil Poledouris, uma mistura pesadona de cordas e muita percussão, que serve brilhantemente como fio condutor do enredo.

“Conan, O Bárbaro” narra a saga de um escravo fugitivo, em busca de vingança contra o líder de um exército maligno que massacrou seus pais. O protagonista é um sujeito brutal e politicamente incorreto – Conan é ladrão, mulherengo e beberrão assumido, e gosta de usar a espada sem muita cerimônia. O festival de violência inclui muitas cabeças cortadas e até canibalismo. Como era típico dos anos 80, tem um vilão caricato (a peruca lisa de James Earl Jones provoca gargalhadas) e exageros trash (a sopa “de ervilhas e mãos”, como diz o diretor John Milius, é bem ridícula), mas isso tudo faz parte do charme tipo B da obra.

No aspecto técnico, o filme é bacana. As imagens restauradas com afinco favorecem as cores fortes, uma característica dos filmes da década de 1980; o sangue (muito abundante) poucas vezes foi tão vermelho como aqui. O formato widescreen foi preservado sem os famigerados cortes laterais. Já o som, transposto numa trilha de áudio remasterizada para o sistema moderno Dolby Digital 5.1, tem seis canais e valoriza bastante a percussão da trilha sonora, embora os graves use de forma meio tímida. O enquadramento original (wide anamórfico) está preservado.

Os extras que acompanham o DVD fazem do trabalho uma edição comemorativa de fôlego. Um documentário de 53 minutos (dirigido por Laurent Bozereau, o mesmo homem que dissecou criteriosamente as obras de Hitchcock) relembra todos os passos da produção, da escalação do elenco às manobras para conseguir a grana que pagou a filme, com o produtor italiano Dino de Laurentiis. Todos os envolvidos contribuem com histórias de bastidores: Schwarzenegger, o vilão James Earl Jones, o ator amador Gerry Lopez (que faz o ladrão e amigo de Conan), o diretor John Milius (que surfava junto com Lopez nas ondas do Havaí e foi o responsável pela escolha dele para o papel), o roteirista Oliver Stone, a produtora Rafaela De Laurentiis, dublês e mais um monte de gente. Cenas e fotos raras de bastidores ilustram o especial, muito bem bolado.

Além disso, Milius e Schwarzenegger contribuem com um comentário em áudio. Os desenhos de produção são apresentados num clipe animado, junto com canções da trilha sonora, em onze minutos. Há ainda dois trailers, biografias dos envolvidos e cinco minutos de cenas cortadas (nada muito importante). Como de praxe, a Fox colocou legendas em português em quase tudo, com exceção da trilha de áudio que une diretor e protagonista e dos trailers. A edição dupla especial tem tudo isso e mais um featurette (18 minutos) contando a história do personagem.

– Conan O Bárbaro (Conan The Barbarian, EUA/Itália, 1982)
Direção: John Milius
Elenco: Arnold Schwarzenegger, James Earl Jones, Sandahl Bergman, Gerry Lopez
Duração: 130 minutos

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