Condenados a Viver

25/02/2007 | Categoria: Críticas

Obscuro faroeste espanhol de 1972 é considerado um dos mais violentos filmes europeus

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Todo mundo já sabe que, após entrar em declínio nos EUA, o faroeste teve um período de sucesso na Europa, entre as décadas de 1960 e 1970. A Itália foi o país mais prolífico, e por isso o filão ganhou a alcunha de spaghetti western, mas não o único. A Espanha vinha logo atrás (e alguns fãs gostam de classificar os filmes oriundos de lá com o rótulo de paella western). É de lá que vem o filme conhecido como o mais violento de todos os faroestes europeus: “Condenados a Viver” (Condenados a Vivir, Espanha, 1972).

O longa-metragem do diretor Joaquín Luis Romero Marchent tem uma característica interessante: abusa de planos fechados (ou seja, closes o mais próximo possível) nas cenas de violência. A película tem pelo menos uma dúzia de mortes exibidas das maneiras mais sangrentas e nauseantes; facadas e tiros à queima-roupa são as maneiras mais dóceis de matar os personagens. Pelo menos dois deles são queimados vivos (e o filme mostra isso em detalhes), e um chega a ser eviscerado. Definitivamente, “Condenados a Viver” não é para pessoas com estômago fraco.

Cabe ressaltar que a violência extrema não é uma característica exclusiva da obra de 1972. De modo geral, o faroeste praticado na Europa, tanto quanto o horror B produzido na mesma região, eram produtos que buscavam um público menos instruído e menos refinado, e por isso sempre abusaram de dois elementos que Hollywood evitava: sexo e violência. Por isso, o spaghetti western, e também os faroestes produzidos fora das fronteiras da Itália, se firmou como um gênero violento e sexista. As cenas de nudez gratuita também existem em “Condenados a Viver”.

Esses dois elementos, é claro, não o transformam em um filme ruim, porque ele possui um trunfo que a maioria dos faroestes europeus não tem: um roteiro instigante e original. O filme narra a jornada de sete prisioneiros de alta periculosidade que, guiados por um sargento e sua filha, devem ser levados para a prisão, no Forte Green, localizado dentro de uma região inóspita e isolada pela neve. O filme segue a viagem, que é cheia de imprevistos, lances desconcertantes e, obviamente, muito sangue.

Não existe protagonista em “Condenados a Viver”. O espectador desavisado pode imaginar que esse papel cabe ao sargento Brown (Cláudio Undari), por três razões: é dele a narração em off que abre a película, trata-se do único personagem apresentado pelo nome e ao invés de um apelido, e está do lado certo da lei. Porém, como o italiano Sergio Corbucci já havia demonstrado quatro anos antes, no excelente “O Silêncio da Morte”/“O Vingador Silencioso”, raciocinar sobre a estrutura narrativa de um faroeste europeu tendo em mente os códigos morais de Hollywood é um erro grave. A lição se mostra apropriada aqui.

A comparação com a obra-prima de Corbucci é uma constante nas críticas sobre “Cut-Throats Nine”, mas os dois filmes compartilham pouco mais do que o cenário gelado e montanhoso (algo natural, já que os montes Pirineus forneceram as locações para ambas as obras) e as surpresas surgidas com o desenrolar da trama. “Condenados a Viver” lembra mais uma espécie primitiva e distorcida de road movie que se transforma, lentamente, em um amargo estudo sobre a cobiça.

Uma coisa que o filme faz muito bem é apagar as fronteiras entre Bem e Mal nos personagens. O maniqueísmo, ainda bem, é algo que não existe nos faroestes europeus, e “Condenados a Viver” faz bom uso dessa característica. Todos os personagens têm alguma falha de caráter, e a partir do momento que os prisioneiros fazem uma descoberta casual a respeito do verdadeiro objetivo da viagem a Forte Green, as coisas mudam consideravelmente. Além disso, o próprio sargento Brown tem seu segredo particular, algo que elimina sua faceta heróica e o equipara automaticamente aos criminosos: ele sabe que no grupo está o assassino de sua mulher, e deseja aproveitar a oportunidade para descobrir a identidade do facínora e mandá-lo para outro mundo. Dizer mais do que isso seria estragar o prazer de descobrir um filme obscuro e interessante.

O filme foi lançado em DVD no Brasil pela Ocean Filmes. O disco contém o filme com enquadramento original (wide 1.85:1) e som razoável (Dolby Digital 2.0). A qualidade das imagens é apenas razoável, com cores gastas e imagens arranhadas. Não há extras.

– Condenados a Viver (Condenados a Vivir, Espanha, 1972)
Direção: Joaquín Luis Romero Marchent
Elenco: Claudio Undari, Emma Cohen, Alberto Dalbés, Antonio Iranzo
Duração: 90 minutos

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