Conduta de Risco

26/03/2008 | Categoria: Críticas

Thriller dramático focaliza advogado em crise moral dentro de mundo corporativo habitado por tubarões

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um dos personagens mais obscuros de “Pulp Fiction”, o clássico de 1994 que transformou Quentin Tarantino em estrela, é um sujeito elegante chamado Wolf. Harvey Keitel, muito bem vestido, o interpretou como alguém cheio de confiança e tranqüilidade. A profissão de um homem como Wolf dificilmente poderia ser resumida em uma palavra, como engenheiro ou dentista. A tarefa dele é controlar situações espinhosas de emergência, varrendo todo tipo de sujeira para baixo do tapete. Naquele filme, Wolf fazia este serviço para um gângster. O personagem que empresta o nome ao engenhoso thriller dramático “Conduta de Risco” (Michael Clayton, EUA, 1997) tem o mesmo tipo de trabalho, mas o exerce em favor de uma mega-empresa de advocacia. Ele é o cara a quem os chefões recorrem, a qualquer hora do dia ou da noite, para limpar a sujeita deixada pelos clientes.

Michael Clayton (George Clooney) habita o nebuloso mundo das grandes corporações, em que os executivos vivem às voltas com telefones celulares e não têm tempo para brincar com os filhos. Um mundo cinzento, onde é preciso fechar um olho (ou dois) para continuar em ascensão profissional. Roteirista veterano (os três exemplares da franquia Bourne) e diretor estreante, Tony Gilroy filma esse mundo como um ambiente permanentemente tenso, de aura pesada, em que a ambigüidade moral é a característica mais marcante. Neste universo de tubarões empresariais, os executivos são obrigados a tomar decisões que freqüentemente borram limites de ética e decência. Às vezes, depois de algumas dessas decisões, eles vão se transformando em pessoas de quem não gostam. Alguns nem sequer percebem isso. Outros entendem, mas aceitam as conseqüências do que fazem. E há aqueles que, como Michael Clayton, estão em plena crise moral, graças a um processo incipiente de tomada de consciência.

George Clooney tem a aparência perfeita para o papel que representa: penteado impecável, ternos caros, expressão cansada. Ele se sente preso numa posição que detesta. É divorciado, tem um filho pequeno e vive sem paciência para a criança. Está afundado em dívidas, graças a um erro estratégico do irmão alcoólatra que dirige um restaurante. O próprio Clayton tem também um vício – as rodas de pôquer. Ele sente saudades da época em que atuava como promotor do bairro de Queens, uma vizinhança de classe média em Nova York. Graças à vida movimentada e às dívidas, porém, sequer pensa em mudar de atitude. Pelo menos até que um dos sócios da firma para a qual trabalha (Tom Wilkinson) entra em parafuso e ameaça entregar uma causa que pode acusar um prejuízo de US$ 3 bilhões para um dos maiores clientes da empresa.

Mais do que a direção bem cuidada, o grande trunfo de “Conduta de Risco” está no roteiro engenhoso, escrito pelo próprio diretor. Atuando com desenvoltura num ambiente que conhece muito bem (a trama de “O Advogado do Diabo”, que ele também escreveu, é bem semelhante e aborda os mesmos temas), Gilroy embaralha a cronologia sem qualquer aviso, obrigando o espectador a prestar muita atenção para compreender as motivações dos personagens e os elos afetivos que existem entre eles. Os diálogos, sempre elétricos, adultos e freqüentemente ambíguos, recusam a exposição fácil e apresentam um leve pendor para o melodrama sofisticado. Frases como “Não sou o tipo de cara que você mata, sou do tipo que você compra!”, ou “Arrume um mapa do tesouro e comece a cavar” (como sinônimo para “pague sua dívida agora”) não são ditas no mundo real, mas causam um efeito dramático poderoso no contexto da história.

Como todo bom thriller, “Conduta de Risco” oferece material humano sólido sob a superfície. O tema principal é o mal-estar da civilização, a ganância corporativa como motor da vida moderna – um tema batido, mas apresentado com uma abordagem diferente, não-linear, que investe mais na composição sólida de personagens do que nos meandros melodramáticos da trama. Um filme assim normalmente atrai bons atores, e o elenco comprova a teoria com performances excelentes de George Clooney, Tilda Swinton (sensacional na pele da executiva capaz de qualquer coisa para abafar um escândalo potencialmente destruidor) e Tom Wilkinson.

Além disso, Tony Gilroy também demonstra que tem bom olho para a construção visual da história, optando por uma fotografia discreta e realista, que utiliza sabiamente a iluminação para sublinhar aspectos sutis do roteiro. Perceba, por exemplo, como os tons azulados e artificiais dominam as cenas que envolvem o lado profissional de Michael Clayton, enquanto as tonalidades pastéis são utilizadas para demarcar os aspectos pessoais da vida do personagem – exatamente aqueles aspectos que lutam para sobressair, no tumulto emocional que é a cabeça do advogado. E preste atenção, por fim, como o roteiro utiliza elementos aparentemente insignificantes, como o livro vermelho que pertence ao filho pequeno do protagonista, para ampliar e ecoar a temática da moralidade ambígua que tanto o tortura. Pode não ser uma obra-prima, mas é cinema adulto e de qualidade.

O DVD da Universal contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Conduta de Risco (Michael Clayton, EUA, 2007)
Direção: Tony Gilroy
Elenco: George Clooney, Tom Wilkinson, Tilda Swinton, Sydney Pollack
Duração: 119 minutos

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