Confissões de Schmidt, As

26/01/2005 | Categoria: Críticas

Alexander Payne investiga vazio existencial dos sujeitos com mais de 60 anos em filme comovente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Warren Schmidt está angustiado. Ele arruma a mesa de trabalho, limpa as gavetas, arruma tudo de novo. Olha para o relógio na parede obsessivamente. Perto da hora de largar, ele não consegue fazer mais nada além de fitar o relógio. Schmidt conta os segundos. Nenhuma palavra. O motivo de tanta angústia é algo que a platéia só vai descobrir mais à frente: às 18h em ponto, a vida de Schmidt vai tomar outro rumo, obrigatoriamente. Ele está oficialmente aposentado. E agora, o que fazer da vida? Essa é a pergunta-chave de “As Confissões de Schmidt” (About Schmidt, EUA, 2002), o impressionante terceiro filme do diretor Alexander Payne.

Dono de uma carreira respeitada no cinema independente norte-americano, Payne é um especialista em contar histórias sobre indivíduos sem rumo, que vagam pela vida sem objetivos. Seus personagens não são pessoas boas ou más, são apenas gente comum. Warren Schmidt é um desses sujeitos. Ele é um norte-americano de classe média bastante típico. É um cara que passou a vida inteira extremamente devotado ao trabalho. Agora, aos 60 e poucos anos, a aposentadoria o deixa com o dia livre. Ou seja, provoca um vazio existencial que ele não sabe como preencher, e que o força a reavaliar toda a sua vida.

Este é um drama muito comum na vida das pessoas com mais de 60 anos, mas que nunca havia sido abordado, antes, nas telas, provavelmente porque essas pessoas – o público-alvo mais óbvio do filme – não vão ao cinema. Mas Alexander Payne foge do óbvio, e faz isso com muita sensibilidade. Sua direção não prima pela técnica. Ao contrário, o filme tem estética bem despojada. De fato, Alexander Payne é um diretor de atores, um desses talentos que os grandes astros de Hollywood, sempre famintos por projetos que possam exigir mais das técnicas de interpretação, dariam um braço para terem como aliados.

O maior beneficiado por “As Confissões de Schmidt” acaba sendo, por tabela, Jack Nicholson. Aliás, o veterano é um dos poucos atores do primeiro time que soube envelhecer com dignidade, alternando algumas bobagens cinematográficas com filmes realmente bons. Em “As Confissões de Schmidt”, Nicholson oferece uma das maiores interpretações da carreira, finalmente conseguindo, depois de décadas, deixar para trás a persona de sujeito meio louco, para compor um homem melancólico, patético até, em sua busca por um sentido na vida quando sabe que pode ser tarde demais para isso.

De certa maneira, “As Confissões de Schmidt” lembra um pouco a excelente novela existencialista “O Estrangeiro”, de Albert Camus, só que vista de um ângulo diferente. No livro, o protagonista leva a mãe para um asilo, no final da vida, mesmo sob os mais veementes protestos da velha, que chora de saudades do filho. Ele sequer vai visitá-la. Acredita, com a maior sinceridade, que ao cortar os laços familiares, vai permitir que a velhinha construa novamente uma vida para si, e dê a ela algum sentido, antes da morte lhe alcançar. Ao fim do livro, a gente percebe que ele pode estar certo – a senhora reaprende a viver, e arruma até um paquera. A trajetória da mulher idosa, que o livro não acompanha, corresponde mais ou menos ao que acontece – ou deveria acontecer em teoria – a Warren Schmidt.

Alexander Payne é cruel e, ao mesmo tempo, afetuoso com seu personagem. Cruel porque Schmidt não perde apenas o emprego. Poucos dias depois, enquanto ainda tem dificuldades para preencher o tempo livre, ele perde também a esposa, Helen (June Squibb). A única referência que lhe sobra é a filha, Jeannie (Hope Davis), que mora em outro estado e está prestes a casar com um homem que ele odeia. Atordoado e confuso, Warren não vê outra saída a não ser arrumar o trailer de viagem e partir para a casa da filha, agarrando-se à esperança de poder convencê-la a desfazer o noivado.

Mas o diretor é afetuoso também. Ele dá uma companhia invisível que conforta o sexagenário, quando Schmidt, cheio de vontade de dar um sentido mais à própria existência, “adota” um órfão africano. Ngudu mora em outro continente, mas ao passar a remeter dinheiro mensalmente a uma organização não-governamental que cuida de meninos abandonados, Warren ganha uma nova referência, mesmo que imaginária. Junto com a grana, ele envia também cartas que narram um pouco da própria vida. Essas cartas se tornam uma espécie de diário, em que Warren descreve melancolicamente o próprio vazio existencial. A leitura desse material proporciona algumas das cenas mais desconcertantes do filme.

De alguma forma, “As Confissões de Schmidt” também é um road movie, já se transcorre, em boa medida, na estrada. Uma das grandes seqüências do filme, aliás, mostra o encontro de Warren com um simpático casal, num acampamento para viajantes rodoviários – um encontro que traz promessa de conforto e companhia ao sexagenário, mas que termina de forma patética e dolorosa.

Como grande diretor de atores, Alexander Payne soube escolher o seu elenco. Kathy Bates, como a descolada mãe do genro de Warren, mostra mais uma vez a grande atriz que é. Hope Davis também faz bonito, e até o habitualmente fraco Dermot Mulroney segura as pontas, embora em um papel um tanto apagado. O filme de Alexander Payne é original, denso e muito profundo. Vale muito a pena.

No Brasil, o DVD de “As Confissões de Schmidt” foi lançado pela PlayArte. Como é habitual para a distribuidora, é um disco pobre. Traz a trilha de áudio em formato Dolby Digital 5.1 e outra, com dublagem em português, e as imagens têm o formato Widescreen 16 x 9, perfeito para TVs mais alongadas. Não há material extra, exeto trailer e sinopses.

– As Confissões de Schmidt (About Schmidt, EUA, 2002)
Direção: Alexander Payne
Elenco: Jack Nicholson, Kathy Bates, Hope Davis, Dermot Mulroney
Duração: 125 minutos

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