Confissões de uma Garota de Programa

15/04/2010 | Categoria: Críticas

Filme independente de Steven Soderbergh constrói poética do cotidiano ao abordar a vida de uma garota de programa em Nova York

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A carreira do cineasta Steven Soderbergh é uma das mais curiosas e singulares do cinema norte-americano contemporâneo. Oriundo do cinema independente e bem integrado ao sistema de produção dos grandes estúdios de Hollywood, ele fez questão de manter o saudável hábito de mesclar filmes caros para o grande público (como a série de longas com George Clooney e Brad Pitt sobre roubos espetaculares) com experiências dramatúrgicas direcionadas a públicos mais especializados. “Confissões de uma Garota de Programa” (The Girlfriend Experience, EUA, 2009) pertence a este segundo grupo de filmes.

O longa-metragem é o segundo fruto de um acordo de produção e distribuição assinado entre Soderbergh e a produtora norte-americana HDNet Films. Pelo acordo, o cineasta se compromete a dirigir pelo menos seis filmes minúsculos, com orçamentos unitários girando em torno de US$ 1,5 milhão de dólares. A regra básica é testar um novo formato de distribuição: os filmes são lançados simultaneamente, nos Estados Unidos, no circuito alternativo de salas de cinema, na televisão a cabo, em DVD/Blu-Ray e na Internet, num esquema de downloads pagos.

Na prática, cineasta e produtora demonstram perfeito conhecimento do quanto a estrutura clássica de distribuição de filmes (o filme é exibido nos cinema, sai em DVD e vai para televisão, em intervalos regulares de alguns meses) vem sendo desafiada pela circulação rápida induzida pelos novos suportes tecnológicos. Eles apostam que essa estrutura clássica cairá, dentro de alguns anos. Para Soderbergh, os estúdios terão que capitular e permitir que o público escolha o suporte (TV, DVD, cinema, etc.) em que deseja assistir ao filme desde o primeiro minuto em que for lançado.

Nada disso importaria muito se os filmes realizados dentro dessa nova perspectiva não fossem interessantes. “Bubble” (2006), primeiro fruto da empreitada, mostrava o cotidiano de três operários de uma fábrica de bonecos, vivendo vidas monótonas em que nada parece acontecer. “Confissões de uma Garota de Programa” segue a mesma linha, só que transportando a ação dramática para o mundo da prostituição de luxo em Nova York. Como no filme anterior, não existe propriamente uma progressão dramática; o filme está mais interessado em construir uma poética do cotidiano, em valorizar as ações do dia-a-dia de seus personagens.

Montadas em ordem não-cronológica, seguimos as trajetórias paralelas de duas pessoas: uma garota de programas que atende clientes ricos (Sasha Grey, atriz pornô conhecida na indústria norte-americana de filmes adultos) e o namorado dela (Chis Santos), personal trainer com ambições de abrir um negócio próprio. O cenário é a crise econômica que varreu o planeta em 2008, o que faz com que ambos enfrentem problemas financeiros. Os clientes começam a sumir para Chelsea, enquanto Chris não consegue arrumar um sócio.

Soderbergh demonstra maturidade – logo ele, cujo trabalho anterior demonstra clara tendência à verborragia e ao engajamento político – para não deixar o filme se transformar numa posição política relacionada à crise financeira. O que interessa ao cineasta é captar a essência do cotidiano dos dois personagens. O diretor é particularmente feliz na composição de Chelsea, a garota. Sem nos dar nenhuma informação relevante quanto ao passado dela, mostra-a como uma profissional impecável, absolutamente consciente do que faz.

Chelsea compra roupas caras e malha duro para manter o corpo em dia. Tem a habilidade de se transformar na mulher que cada cliente deseja. Se percebe que o homem com quem ela está deseja conversar, ela lhe presenteia com um papo articulado e agradável; se o sujeito prefere uma máquina de fazer sexo que não fale, ela simplesmente assume o papel. É uma atriz nata. A performance de Sasha Grey ajuda, já que a garota expressa uma frieza, uma alienação cortês adequada à profissão, mas tem olhos curiosos que revelam algo mais – talvez uma certa necessidade romântica de se integrar a uma sociedade que lhe é naturalmente refratária.

Também como em “Bubble”, esta é uma história sobre marginais. Não no sentido de fora-da-lei, claro. Chelsea e Chris são marginais que vivem inseridos dentro da sociedade, ou melhor, da alta sociedade – e o filme se concentra nas formas distintas como cada um lida com essa marginalidade. O namorado, por exemplo, tem total consciência da profissão da mulher, e lida com isso numa boa, já que sua mentalidade essencialmente capitalista (evidente na tenacidade com que persegue a idéia de abrir um negócio) consegue separar em esferas distintas a sexualidade e a vida profissional da mulher.

Embora em certos momentos o espectador tenha a impressão de que nada parece acontecer em “Confissões de uma Garota de Programa”, existe ali um drama em ebulição, e é esse drama que faz o filme ser melhor do que “Bubble”. Acontece que Chelsea tem um ponto fraco, e quando determinado cliente inadvertidamente toca nesse ponto fraco, o filme dá uma guinada – uma guinada com a qual nem namorada e nem namorado sabem lidar direito. Tudo isso conduz a um final bem triste, embora não no sentido tradicional; triste por causa da marginalidade daquelas almas, triste porque percebemos o quão infelizes e vazias são aquelas pessoas, ainda que elas mesmas não consigam notar isso. E aquelas pessoas, de certo modo, somos nós.

O DVD simples da Paris Filmes contém o filme com proporção de imagem original (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Confissões de uma Garota de Programa (The Girlfriend Experience, EUA, 2009)
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Sasha Grey, Chris Santos, Philip Eytan, Peter Zizzo
Duração: 78 minutos

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