Confronto, O

23/09/2003 | Categoria: Críticas

Kung fu, universos paralelos e efeitos especiais? Não é’Matrix’, mas a aventura ‘O Confronto’, com Jet Li

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

O que cinema tem a ver com física quântica? A resposta é uma expressão de duas palavras, capaz de fazer brilhar os olhos de especialistas, que fornece a temática de “O Confronto” (The One, EUA, 2002). O novo filme do astro oriental Jet Li aborda de forma interessante o tema dos universos paralelos. Esse conceito, ao contrário do que muita gente pensa, não foi desenvolvido por escritores de ficção científica ou roteiristas de quadrinhos. A teoria nasceu quando Albert Einstein definiu a Relatividade e vem sendo abordada com seriedade por físicos da nova geração.

De forma simplificada, o conceito estabelece a possibilidade de que infinitos universos coexistam com diferenças mínimas entre si. Nesse caso, seria possível que, em múltiplas dimensões paralelas, os aviões que derrubaram as torres do WCT em setembro de 2001 tenham errado o alvo, ou sido abatidos antes do choque. Outros exemplos? Zico poderia ter convertido o pênalti perdido contra a França em 1986; Paolo Rossi poderia ter se machucado antes do fatídico Brasil X Itália em 1982. E a vida nesses universos, então, teria tomado rumos bem diferentes. Pausa para exercer o direito da imaginação: pense em alterações que poderiam ter acontecido na sua própria vida. As possibilidades são ilimitadas. E o melhor é que a existência desses universos é cientificamente possível.

Interessado? Pois agora vamos a “O Confronto” em si. O surgimento de um filme que aborda esse conceito da física quântica não é exatamente uma novidade. Na década de 1980, por exemplo, a trilogia “De Volta Para o Futuro” explora essa idéia magnificamente. A grande inspiração do trabalho do cineasta James Wong, porém, está em outro trabalho, um verdadeiro ícone da geração cibernética: “Matrix”.

Nesse caso, dizer que “O Confronto” foi apenas inspirado no clássico dos irmãos Wachowski seria ingenuidade. O caso aqui quase chega às raias do plágio. As canções eletrônicas da pesada e o visual high tech parecem decalques do longa de 1999. O uso do efeito especial bullet time, em que a ação é vista em câmera lenta e podemos acompanhar os rastros das balas, escancara de vez a semelhança. O upgrade dado aqui, porém, é pouco enfático. Se em “Matrix” o efeito impressionava, a banalização ocorrida nos três anos que separam as obras deixa “O Confronto” com cheiro de velho.

Isso posto, é bom deixar claro que há qualidades no filme. Uma importante é a presença de Jet Li. Ele não fala inglês: recita frases decoradas sem perceber direito o significado delas. Só que tem carisma e é, de quebra, muito rápido nas lutas. É verdade que a coreografia burocrática não ajuda muito, o som (outro diferencial de “Matrix”) soa acanhado e a edição fragmentada interrompe demais o que poderia ser uma série de combates eletrizantes. A curta duração (87 minutos) e a despretensão desavergonhada do enredo, porém, deixam o filme com cara de filme-pipoca – e, assim, ele funciona direitinho.

No filme, os humanos já dominam uma tecnologia de viagens entre os universos paralelos. Esse procedimento é proibido, porém, e um grupo de policiais fica encarregado de impedi-lo. Só que um desses tiras descobre que, se matar um par noutra dimensão, a energia desse ser é dividida entre os restantes (aqui existe uma conexão com “Highlander”). Ele mata a todos, até que sobra apenas outro policial, esse do bem. Os dois Jet Li, tãos fortes e rápidos quanto Keanu Reeves no fim de “Matrix”, precisam decidir na porrada quem vai ficar para contar a história. O roteiro tem um monte de furos, mas não esqueça: é só um filme, não um tratado de física quântica.

– O Confronto (The One, EUA, 2002)
Direção: James Wong
Elenco: Jet Li, Delroy Lindo, Jason Statham
Duração: 87 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »