Conquista da Honra, A

21/06/2007 | Categoria: Críticas

Clint Eastwood discute os conceitos de culpa e heroísmo filmando o marketing por trás de uma guerra

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A guerra não é a mesma coisa para quem está dentro dela e para aqueles que a vêem pela TV. A visão que os civis têm de um conflito, construindo um olhar a partir do noticiário, é completamente diferente do modo com os militares observam os mesmos combates. Para aqueles que não a vêem de perto, a guerra se mede através de heróis e mártires, de fotografias e textos; já para os soldados que lá estão, nada disso importa, a não ser assimilar rapidamente o medo e as visões horrendas de sangue e dor, de modo a conseguir manter-se sãos e vivos. Este descompasso entre a guerra na mídia e a guerra no front é o tema-chave de “A Conquista da Honra” (Flags of our Fathers, EUA, 2006), um dos dois filmes simultâneos que Clint Eastwood rodou sobre a batalha de Iwo Jima, lendário confronto da II Guerra Mundial.

O episódio histórico retratado pelo veterano cineasta é um dos mais conhecidos do conflito, apesar de ter ocorrido numa ilhota de areia vulcânica perdida no meio do Oceano Pacífico, bem longe do exército de Hitler. Apesar de ser um terreno estéril e sem valor financeiro, composto basicamente por praias de areia negra e habitado exclusivamente por animais e uns poucos militares, a ilha de Iwo Jima era considerado ponto estratégico na briga entre EUA e Japão. Para os primeiros, capturar o território significava controlar os campos aéreos do Pacífico e abrir a possibilidade de bombardear os nipônicos. Por isso, milhares de homens dos dois países se enfrentaram no local, entre fevereiro e março de 1945. Os americanos tomaram a ilha após 35 dias. Ao todo, 7 mil soldados dos EUA e 22 mil japoneses morreram durante esta batalha.

Curiosamente, pouca gente conhece os números e detalhes descritos acima. Para o norte-americano médio da época, que acompanhava a guerra pelas rádios e jornais, o momento mais lembrado da guerra é um símbolo poderoso de marketing: a famosa fotografia de uma bandeira dos EUA sendo erguida, num morro da ilha, por um grupo de soldados. “A Conquista da Honra” é uma narrativa não-cronológica que gira em torno desta imagem icônica, e a usa para levantar debates expressivos sobre tópicos importantes. O filme de Eastwood discute, sem demagogia ou excesso de patriotismo, os conceitos de heroísmo e culpa – na visão do cineasta, as duas coisas caminham de mãos dadas em tempos de guerra, e é impossível dissociá-las. De quebra, o filme ainda lança luz expressiva sobre o marketing por trás das guerras, nos lembrando ainda o velho e eficiente ditado sobre o valor de uma imagem acima das palavras.

O longa-metragem de Eastwood esclarece, sem rodeios, que a fotografia em questão nada tinha de importante ou histórico. Foi um registro banal, feito às pressas por um recruta qualquer, de uma mera troca de bandeiras numa posição sem importância, conquistada pelos soldados dos EUA em três ou quatro dias de conflito. A batalha de Iwo Jima ainda duraria mais de um mês, e tiraria as vidas de três dos homens que apareciam na foto. No entanto, aquela imagem foi distribuída aos jornais do país, publicada em mais de 200 deles, e tocou em um nervo vital do cidadão americano: ela representava uma vitória simbólica, a vingança sobre os japoneses que, meses antes, haviam atacado Pearl Harbor. A partir daí, o filme disseca sem pudor a maneira pouco honrosa como o governo norte-americano, sem dinheiro para bancar os bilhões de dólares necessários para a vitória, construiu ao redor da foto uma verdadeira muralha de marketing, de forma que os cofres não secassem, e as tropas pudessem se manter na luta.

O longa-metragem, baseado num livro de memórias escrito pelo filho de um dos combatentes, explica que os rapazes da foto (ou pelo menos aqueles que os comandantes do Exército americano acreditavam serem eles) foram levados de volta aos EUA, para participar de uma turnê de arrecadação de fundos. Longe da guerra, foram tratados como heróis, mas tinham que lidar com um demônio interior: a culpa esmagadora que sentiam por estarem vivos e longe da guerra, por causa de uma imagem que sabiam não ter qualquer importância efetiva. Ao mesmo tempo, eles sabiam que milhares de jovens como eles, americanos e japoneses, morriam diariamente naquele pedaço de terra preta.

O maior mérito do filme de Eastwood, a única novidade concreta que a obra traz à vasta filmografia de guerra existente em Hollywood, é lançar um olhar despido de julgamentos aos bastidores de confrontos bélicos, mostrando que balas não vencem guerras, mas golpes publicitários sim. Com coragem, Clint Eastwood mostra como bons marqueteiros conseguem estimular a conhecida veia patriótica do povo norte-americano, fazendo-a trabalhar em favor de uma causa sem qualquer preocupação com honra ou ética. O cineasta também tem o bom senso de evitar os julgamentos morais, recusando a idéia de que havia, no conflito, um lado certo e outro errado. Todos em Iwo Jima eram soldados defendendo suas pátrias. Esta idéia fica ainda mais sólida quando nos lembramos que Eastwood dirigiu, simultaneamente, o filme com o ponto de vista japonês da mesma batalha, “Cartas de Iwo Jima”.

Apesar de tudo isso, “A Conquista da Honra” não é uma obra-prima. Em termos narrativos, a opção de não seguir a cronologia dos eventos torna o filme um tanto confuso. Às vezes é bem difícil localizar cada seqüência numa linha cronológica correta. Também na estética, o trabalho não apresenta novidades, limitando-se a filmar batalhas com máximo realismo possível, de modo que o público possa perceber a brutalidade e o caos, o intenso significado de matar e morrer para um bando de rapazes ingênuos que acabaram de sair de um treinamento para presenciar uma carnificina. É um filme muito bem feito, tecnicamente impecável, com tomadas brilhantes que põem o espectador praticamente dentro da verdadeira Iwo Jima, com balas voando a centímetros da cabeça.

O problema é que tudo isso já foi mostrado antes, em filmes como “O Resgate do Soldado Ryan” (1998). O longa-metragem de Spielberg (que atua aqui como produtor executivo) parece ter funcionado como arcabouço onde Eastwood foi buscar muitas idéias visuais. Há uma longa seqüência de desembarque, violenta e visceral, que lembra bastante a antológica abertura do filme de 1998. Além disso, o tratamento visual das seqüências no front, com dessaturação das cores de forma a alcançar um registro quase em preto-e-branco, segue a mesma linha estética de “Soldado Ryan”. Vale observar, contudo, que uma análise exclusiva desta produção da Warner, sem levar em consideração o filme-irmão “Cartas de Iwo Jima”, é necessariamente incompleta. Como um todo, o projeto é ainda mais ambicioso do que o bom filme de guerra que é “A Conquista da Honra”.

O DVD duplo, da Warner, é excelente. O disco 1 traz o filme com ótima qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). O disco 2 tem dois documentários, um deles cobrindo o projeto do filme e o outro entrevistando verdadeiros sobreviventes da batalha. Há ainda três featurettes cobrindo aspectos dos bastidores.

– A Conquista da Honra (Flags of our Fathers, EUA, 2006)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Ryan Phillipe, Jesse Bradford, Adam Beach, John Benjamin Hickey
Duração: 132 minutos

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