Constantine

09/09/2005 | Categoria: Críticas

Suavizado para aparecer para público adolescente, personagem de gibi estrela filme apenas correto

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A eterna luta entre céu e inferno, ou Deus e Satanás, é um dos temas mais revisitados por artistas de crença cristã, nos últimos dois mil anos. Isso é natural, uma vez que o embate do bem contra o mal está fincado, com força, no inconsciente coletivo. Esse embate reaparece em “Constantine” (EUA, 2005), primeiro filme de Hollywood a ser baseado em um título da muito elogiada linha Vertigo, um selo que lança apenas títulos de quadrinhos adultos.

John Constantine, o protagonista que dá título ao filme, é um exorcista pouco convencional e um personagem interessante, que poderia ter rendido um filme mais violento e politicamente incorreto. Suavizado e simplificado para poder aparecer diante do público adolescente, porém, o personagem estrela um filme apenas correto.

De certo modo, muita gente esperava que “Constantine” fosse um sério concorrente a pior filme de 2005. Rumores dos sets de filmagens e fotografias de produção mostravam que o personagem sofria alterações visíveis em relação às aventuras que vive nos gibis. Afinal, nas histórias em quadrinhos, John Constantine é loiro, nasceu na Inglaterra e vive em Liverpool. O modelo do mago, para os desenhistas que o criaram, foi o cantor Sting. Você pode imaginar como ele é.

Os cenários ingleses, mais góticos e cinzentos, combinam muito melhor com o universo de Constantine, um mundo em que anjos e demônios caminham pelas ruas, mas só podem ser percebidos por pessoas com poderes sobrenaturais. No filme, porém, este universo está estabelecido na ensolarada e multicolorida Los Angeles, e o humor negro peculiar do mago (interpretado por Keanu Reeves) parece meio deslocado no meio de tantas luzes artificiais.

Mesmo com essas alterações que empobrecem o filme, “Constantine” está longe de ser o fiasco que se esperava. O longa-metragem tem diversão garantida para adolescentes e espectadores em geral, apesar de conter a cota usual de problemas de lógica. A culpa, nesse caso, parece ser do roteiro de Kevin Brodbin e Frank Cappello, que exagera na quantidade de detalhes, colando retalhos de várias histórias vividas pelo mago fumante nos gibis em uma única aventura. Para se ter uma idéia, o personagem do padre Hennessy (Pruitt Taylor Vince) é uma reunião de três diferentes coadjuvantes que aparecem nos quadrinhos – e olha que o padre gordão só tem três cenas dentro do filme!

O primeiro ato do filme, que apresenta os personagens e delineia a ação, exibe uma interessante montagem paralela de três eventos acontecendo simultaneamente. O primeiro evento, e também a primeira cena, mostra um catador de lixo mexicano desenterrando um artefato embrulhado em uma bandeira nazista. Como os letreiros que antecedem a seqüência informam que uma certa Lança do Destino (objeto cortante que um centurião romano teria usado para furar o pulmão de Jesus Cristo, na cruz) estaria perdida desde o final da II Guerra Mundial, sabemos que o artefato encontrado pelo mexicano é a tal lança. O mexicano, aparentemente possuído por um demônio, sai enlouquecido a caminho de Los Angeles.

Na cidade norte-americana, a policial Angela Dodson (Rachel Weisz) investiga o misterioso suicídio da irmã gêmea, que estava internada em hospital psiquiátrico e dizia ser capaz de ver demônios. Depois de encontrar duas ou três vezes com John Constantine, por acaso, ela começa a acreditar que ele pode ajudá-lo a investigar o que houve com a irmã. Constantine, por sua vez, também tem problemas. Ele acaba de ser diagnosticado com câncer de pulmão e descobrir que tem apenas alguns meses de vida, pouco tempo para matar demônios em quantidade suficiente de modo a garantir uma passagem para o céu. Por enquanto, ele sabe que está condenado a sufocar no inferno, pois tentou cometer suicídio na adolescência.

As três tramas demoram um pouco a engrenar, o que permite à platéia conhecer um pouco do mau humor de Constantine, bem como do mundo que o rodeia. O mago canceroso desconfia que algo de estranho e especial está acontecendo porque começa a encontrar, nas ruas de Los Angeles, uma quantidade bem maior do que o normal de seres de outras dimensões, como o malvado Baltazar (Gavin Rossdale) e o andrógino anjo Gabriel (Tilda Swinton).

Constantine também esteve no México recentemente e, lá, cruzou pela primeira vez com um demônio que tentava passar do plano infernal para o plano terreno da existência. Isso é algo proibido, segundo o pacto estabelecido entre Deus e o Diabo. Para Constantine, os acontecimentos mostram que há algo grande acontecendo, e ele vai tentar descobrir o que é, pois pode ser a última chance que tem para obter o desejado passe livre entre os anjos celestiais.

Trama promissora? Sem dúvida. Infelizmente, a opção hollywoodiana tradicional – muitos efeitos especiais e pouca profundidade no enredo – bate ponto com força. E as incoerências começam a aparecer, com mais freqüência, à medida que o filme se aproxima do final. Quer um exemplo? Pois bem, a certa altura do filme, Constantine decide ir a um clube noturno de Los Angeles, lugar freqüentado por anjos e demônios. Só tem acesso ao lugar quem consegue adivinhar os pensamentos do guarda-costas. O mago fumante, é claro, sempre consegue. Mas, afinal, qual é a relação entre exorcismo e telepatia? Em tese, por que alguém conversaria com outras pessoas se consegue ler os pensamentos delas?

Outro problema aparece logo no início, junto com o contrabandista de armas especiais que abastece o protagonista, Beeman (Max Baker, um sósia perfeito do cantor Elvis Costello). As armas que Constantine utiliza no cotidiano de exorcista são, ficamos sabendo, fragmentos das balas do atentado contra o Papa, besouros que vivem em casas mal-assombradas (“para demônios, são como unhas arranhando isopor”) e bafo de dragão, que o sujeito deve provavelmente ir buscar emprestado nos filmes de Harry Potter. Bizarro, para dizer o mínimo.

Os conceitos religiosos que o filme tenta utilizar também não possuem nenhum contato com a realidade. A certa altura, descobrimos que o Inferno também tem uma Bíblia, e que ela possui capítulos a mais. A tal Bíblia maldita ensina, entre outras coisas, que Lúcifer também tem um filho, e o espírito maligno tentou usurpar o seu poder, do mesmo jeito que o próprio Lúcifer fez com Deus. Parece que megalomania e desejo de controle absoluto são traços herdados geneticamente, afinal de contas.

Por fim, o filme dá sua própria versão do que seriam o céu e o inferno: dimensões diferentes da nossa, a humana, mas localizadas aqui mesmo, na Terra. Nas visitinhas que Constantine faz ao submundo, descobrimos que o inferno uma espécie de Terra após um holocausto nuclear. Até aí tudo bem, mas é inconcebível que ele vá ao inferno (usando uma absurda conjuração mágica que envolve um gato e uma bacia com água!), estando dentro de um apartamento, e aterrise no meio de uma avenida. Ora, se o inferno é outra dimensão da Terra, Constantine não deveria aparecer por lá dentro do mesmo apartamento, agora em chamas?

Se você ignorar esses problemas de lógica, o filme pode ser bem divertido. É ótimo poder constatar, por exemplo, que os roteiristas tentaram preservar o humor sacana e ácido de Constantine, o que rende boas piadas e diálogos impagáveis, como este:

– Ontem mataram minha irmã – diz Angela.
– Lamento – responde Constantine.
– Obrigado. Ela era paciente de um manicômio. Pulou do telhado.
– Pensei que fosse assassinato.
– Bem, Isabel tinha amor à vida.
– Oh, claro. Como uma paciente de um manicômio iria se suicidar? Seria uma loucura!

Pena que esses diálogos se concentrem mais do início do filme e jamais incluam palavrões ou a atmosfera sórdida dos amigos que Constantine mantém nos gibis – isso transformaria o filme em um longa-metragem para um público mais adulto, o que seria inconcebível para uma grande produção de Hollywood.

Pensando bem, esse é o maior problema de “Constantine”, tanto quanto de “Hellboy”, um filme-gêmeo (conexões Terra-Céu-Inferno, demônios, artefatos cristãos, vilões nazistas) que, no entanto, acabou mais bem resolvido: ambos são adaptações cinematográficas feitas para atingir um público mais jovem do que as obras originais em que foram baseadas. Daí o absurdo encerramento redentor de “Constantine”, um final iluminado demais para um filme que deveria ter permanecido nas trevas.

O DVD, da Warner, é duplo. O disco 1 contém o filme, no formato original de imagem (widescreen 2.40:1) e som (Dolby Digital 5.1). Um comentário em áudio reunindo diretor, produtor e dois roteiristas é o único extra. No disco 2, o material de bastidores, dividido em quatro seções, tem duração total de 70 minutos.

– Constantine (EUA, 2005)
Direção: Francis Lawrence
Elenco: Keanu Reeves, Rachel Weisz, Tilda Swinton, Peter Stormare
Duração: 121 minutos

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