Contato

21/03/2007 | Categoria: Críticas

Ficção científica de Robert Zemeckis discute a viabilidade de uma fusão pacífica entre fé e ciência

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

É quase uma regra em Hollywood. Sempre que um novo cineasta consegue ingressar no seleto clube dos super-poderosos da indústria cinematográfica, depois de assinar uma série de filmes de sucesso entre público e crítica, ele ganha carta branca para embarcar num projeto pessoal. Exemplos? Francis Ford Coppola com “A Conversação” (1974), depois de “O Poderoso Chefão” (1972); e o “King Kong” (2005) de Peter Jackson, após os onze Oscar de “O Retorno do Rei” (2003). Um dos casos mais personalistas e interessantes é o da ficção científico-religiosa “Contato” (Contact, EUA, 2007), de Robert Zemeckis.

Diretor e roteirista de mão cheia, Zemeckis já havia enchido os cofres da Universal de grana, na década de 1980, com a trilogia “De Volta para o Futuro”. Dois outros filmes dele, “Uma Cilada para Roger Rabbit” e “Forrest Gump”, haviam faturado cifras absurdamente altas. Este último ainda se tornara o grande vencedor do Oscar de 1995, repleto de críticas positivas. Ou seja, Zemeckis estava tão na crista da onda que a Warner o liberou para fazer qualquer filme que desejasse, na seqüência. Zemeckis escolheu a versão para tela grande de um difícil romance de Carl Sagan, um dos cientistas mais visionários do planeta. O longa usava o arquétipo do primeiro contato com civilizações alienígenas para filosofar sobre uma improvável, mas possível, aproximação entre Religião e Ciência, ou entre razão e fé.

Se o tema já era difícil, mais complicado ainda era a entrada de Zemeckis no projeto. Afinal, a produção já estava em desenvolvimento, nas mãos do diretor australiano George Miller. Após duras negociações, o estúdio liberou os direitos autorais de dois filmes (as duas continuações de “Mad Max”) para Miller, a fim de convencê-lo a ceder a vaga de diretor para o norte-americano. Assim foi feito. Ao fim de um longo e caro processo de filmagem e pós-produção, com a inclusão de efeitos especiais inéditos a um custo de US$ 90 milhões, Zemeckis enfim entregou à Warner um corpo estranho: um melodrama longo (153 minutos), lento e reflexivo, centrado nos personagens, sem cenas de ação e com um final aberto, inconclusivo. Tudo aquilo que o público médio costuma desprezar.

Embora possa ser classificado como relativo fracasso de bilheteria (apenas US$ 100 milhões), “Contato” continua a ser uma ficção científica singular, diferente, que atinge perfeitamente o objetivo do cineasta: reafirmar que, quando discutimos a existência de Deus, ou de seres superiores que não conseguimos ver, estamos na verdade tentando descobrir respostas a perguntas milenares sobre nós mesmos – quem somos, e o que fazemos por aqui. É uma história calma, conduzida por um personagem sólido, que mantém os temas abordados na mente do espectador, durante muito tempo depois da projeção. É mais ou menos “2001”, de Kubrick, com uma história linear.

É verdade que a veia melodramática de Zemeckis comete alguns excessos. O filme perde muito tempo, por exemplo, investindo no romance entre a protagonista Ellie Arroway (Jodie Foster, excelente), uma astrônoma solitária e determinada a encontrar sinais de vida inteligente fora do planeta, e o jovem reverendo Palmer Joss (Matthew McConaughey), sendo que o interesse amoroso entre os dois não acrescenta absolutamente nada à trama principal: a descoberta de sinais de rádio, emitidos de uma estrela a 26 anos-luz da Terra, que são interpretados como a primeira tentativa de contato feita por alienígenas.

Problemas à parte, “Contato” possui muitas qualidades. Toda a parte visual foi feita com extremo cuidado, e isto inclui cenas de beleza plástica intensa (o momento em que Ellie ouve o sinal pela primeira vez, a montanha-russa interplanetária). Zemeckis realiza muitas tomadas de incrível refinamento, sempre longas e sem cortes, e até mesmo as famosas trucagens utilizando cenas reais, recurso que o diretor havia usado em “Forrest Gump”, reaparecem com mais discrição. O subtexto, que explora a relação entre fé e razão, também é bem trabalhado. Além disso, Zemeckis dribla perfeitamente a dificuldade de lidar com um tema cheio de jargões, incluindo uma seqüência explicativa, sobre como se dá a tradução da mensagem alienígena, que Ron Howard tentou copiar, com resultado inferior, em “O Código Da Vinci” (2006).

O DVD da Warner traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem três comentários em áudio, em que podem ser ouvidos Zemeckis, Foster e produtores, e alguns clipes com testes de efeitos especiais. Não há legendas nos extras.

– Contato (Contact, EUA, 1997)
Direção: Robert Zemeckis
Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, Tom Skerrit, James Woods
Duração: 153 minutos

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