Conto da Primavera

28/09/2007 | Categoria: Críticas

Um filme típico de Rohmer, narrando ciranda emocional entre jovens e repisando temas típicos da carreira do diretor

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Embora não apresente o mesmo viço que o ciclo de “Comédias e Provérbios”, concebido durante os férteis anos 1980 por Eric Rohmer, a quadrilogia intitulada “Contos das Quatro Estações” é um deleite para qualquer fã do veterano cineasta francês, um dos grandes nomes da nouvelle vague. Em todos os quatro filmes, Rohmer faz aquilo em que se tornou especialista: filma cirandas emocionais extremamente dialogadas, envolvendo gente jovem e sempre muito disposta a se apaixonar. “Conto da Primavera” (Conte de Printemps, França, 1990) tem as impressões digitais do autor por toda parte.

A trama tem semelhança evidente com um dos mais elogiados longas-metragens da carreira dele, “Pauline na Praia” (1983). A começar pela dupla feminina de protagonistas, que como no filme anterior é formada por uma mulher mais velha e uma garota mal saída da adolescência. Jeanne (Anne Teyssèdre) é uma professora de Filosofia bastante serena e segura de si. Moderna, ela decide não ficar na casa do namorado enquanto ele está viajando. Conhece Natasha (Florence Darel) numa festa e a jovem, fascinada, a convida para ficar na casa dela, pois o pai (Hugues Quester) também está fora.

O quarentão divorciado, por sua vez, também namora uma mulher mais jovem (Eloïse Bennett), mais ou menos da mesma idade da filha. As duas, como quase sempre acontece nesses casos, não se dão nada bem. É por isso que Natasha tenta de todas as formas empurrar Jeanne em direção ao pai. A mulher mais velha, calma e paciente, acha tudo muito engraçado, mas não consegue esconder certa atração real pelo charmoso dono da casa. O jogo afetivo vai se resolver, bem ao modo de Rohmer, durante um final de semana de folga, com todo mundo ocupando uma bucólica casa de campo bem ao estilo francês.

Como de hábito, o diretor francês aplica seu estilo despojado – longos planos gerais, câmera à distância, diálogos ininterruptos sobre assuntos banais – e observa, sem esconder certa dose de divertimento, os pequenos truques que cada um dos personagens utiliza para jogar charme em cima de quem lhe interessa, e para afastar com delicadeza quem está descartado da ciranda. É tudo muito leve e cômico, e a aparência de frivolidade dá ao trabalho uma aura de simplicidade que engana. Um espectador desatento pode pensar que está diante de uma comédia descartável, o que não é bem o caso.

Curiosamente, “Conto de Primavera” – bem como os outros três integrantes do ciclo das quatro estações – deu uma arejada na carreira do cineasta, porque o apresentou a uma nova geração de cinéfilos. A boa receptividade dos quatro títulos garantiu uma bem-vinda renovação na fama do cineasta, e isso é sempre positivo. De qualquer forma, por repisar temas tanta vezes (e melhor) elaborados pelo autor, a verdade é que o filme não está entre os mais interessantes da carreira dele. Mas é um Rohmer legítimo, sem dúvida, e isto significa que está acima da média.

O DVD nacional, da Europa Filmes, é espartano: imagem razoável (widescreen 1.66:1), áudio OK (Dolby Digital 2.0) e nada de extras.

– Conto da Primavera (Conte de Printemps, França, 1990)
Direção: Eric Rohmer
Elenco: Anne Teyssèdre, Florence Darel, Hugues Quester, Eloïse Bennett
Duração: 108 minutos

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