Conto de Inverno

21/11/2007 | Categoria: Críticas

Eric Rohmer cria mais uma heroína encantadora em trama que contém tristeza, mas nunca desânimo ou melancolia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O grande momento de “Conto de Inverno” (Conte d’Hiver, França, 1992), talvez o mais otimista e pungente filme de Eric Rohmer, corre sério risco de passar despercebido ao espectador mais apressado. Ele ocorre bem no meio da projeção, quando a heroína Felicie (Charlotte Véry) vai ao teatro, assistir à peça de Shakespeare que leva o mesmo título do filme. Felicie não é uma intelectual. Pelo contrário. Não gosta de ler, fala um francês coloquial pontuado por erros e não conhece nada de Shakespeare além de “Romeu e Julieta”. Ela vai ao teatro só porque está triste e quer matar o tempo, mas o que vê a toca em algum ponto vital. Felicie chora copiosamente. Quando a encenação acaba, algo dentro dela mudou. Uma simples encenação teatral acaba de dar outro rumo a uma vida que parecia desperdiçada.

Durante o espetáculo, a protagonista de “Conto de Inverno” não chora de tristeza ou de felicidade. Ela chora porque se reconhece dentro do texto de Shakespeare. É a mesma reação que certos filmes, geralmente aqueles pequenos e muito especiais, causam em nós. São histórias em que a gente se reconhece inteiramente, histórias que exorcisam um pouquinho de nossa dor. Não aparecem com muita freqüência, mas quando surgem têm uma força incontrolável. Filmes assim são como amigos íntimos: nos trazem conforto mesmo quando longe, nos lembram que não estamos sozinhos no mundo. Que podemos contar com um ombro amigo na “hora do lobo”, quando estamos sozinhos e não conseguimos olhar no olho de ninguém.

Qualquer um que guarde no coração um filme (ou uma peça, uma música, uma foto, uma obra de arte qualquer) especial vai se identificar com a heroína de “Conto de Inverno”. Felicie é uma jovem mãe solteira de classe média, que trabalha como cabeleireira em Paris e não consegue amar. Ela já amou, sim. Até demais. Cinco anos antes, viveu uma paixão arrebatadora durante uma temporada de férias na praia. Mas uma trapalhada na hora de trocar endereço com Charles (Frédéric Van Den Driessche) a fez perder contato com o grande amor de sua vida, o pai da filha Elise (Ava Loraschi). Desde então, Felicie não consegue se entregar de verdade a ninguém. No íntimo, ela ainda guarda uma esperança secreta de poder se reencontrar com Charles, embora a probabilidade estatística de isso ocorrer seja desprezível.

Os personagens de Rohmer são sempre encantadores, reais, gente que poderia existir de verdade e morar na esquina mais próxima. Pessoas com sonhos, desejos, esperanças e traumas. Nos filmes do diretor francês, como lembra o crítico Roger Ebert, os personagens importam mais do que o enredo. São os sentimentos, impulsos, encontros e desencontros que guiam a história, e não o contrário. Em “Conto de Inverno”, Felicie é facilmente reconhecível: alguém que amou intensamente, um amor que não foi fechado, e por isso ela não consegue continuar a viver afetivamente sem encerrar este ciclo. Felicie é linda e fascinante. Mantém relação simultânea com dois homens, mas não ama verdadeiramente nenhum deles.

No criado-mudo ao lado da cama da filha, está uma fotografia de Charles. Não é preciso pensar para saber o que isto significa. Honesta, a moça não engana ninguém. Ela gosta do cabeleireiro Maxence (Michel Voletti) e do bibliotecário Loic (Hervé Furic), mas não ama nenhum deles. Pior ainda – sofre por não conseguir amá-los. Especialmente no segundo caso, já que Felicie percebe que Loic a ama enlouquecidamente, e sabe que não é correspondido, mas mesmo assim a mantém por perto porque a presença dela o conforta. Assim, quando percebe que a encenação do texto de Shakespeare lhe provoca a sensação de identificação absoluta, algo dentro de Felicie muda.

Ela entende a peça com o coração, de uma maneira que um intelectual como Loic apenas intui. Transpondo o enredo do espetáculo para a própria vida, Felicie decide que somente a fé pode colocar um ponto final na angústia que sente há cinco anos (atenção: apesar de Rohmer ser um conhecido intelectual católico, não existe qualquer traço de doutrinação religiosa na trama). Ela não consegue explicar muito bem isso com palavras, porque não é uma pessoa letrada. Aliás, os personagens, como sempre acontece em Rohmer, discutem conceitos filosóficos de Platão e Pascal, mas tratam de aplicar estar filosofia às coisas concreta, à vida cotidiana. Não ficam debatendo elementos abstratos, como intelectuais. Eles vivem a filosofia, e vivem intensamente.

Há tristeza em “Conto de Inverno”, mas nunca desânimo ou melancolia. Além disso, quando Felicie finalmente encontra a fé, o filme resgata outro elemento recorrente em Rohmer – as coincidências, a ação do destino – para empurrar a ação até um ponto absolutamente inusitado. Esta situação surpreendente encaminha o filme a um final capaz de elevar a moral de qualquer um. A última cena, com a câmera parada na imagem de Elise chorando, é absolutamente emocionante. Como todos os filmes de Eric Rohmer, “Conto de Inverno” não é um cinema de epifanias ou malabarismos técnicos, mas um cinema de gente calorosa, com cheiro de vida. Um cinema imprevisível e estimulante sobre o amor.

O DVD simples da Europa Filmes não contém extras. O filme aparece com qualidade razoável de imagem (widescreen letterbox) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– Conto de Inverno (Conte d’Hiver, França, 1992)
Direção: Eric Rohmer
Elenco: Charlotte Véry, Frédéric Van Den Driessche, Michael Voletti, Hervé Furic
Duração: 114 minutos

| Mais


Deixar comentário