Contos Proibidos do Marquês de Sade

30/09/2003 | Categoria: Críticas

Filme investiga cruzamento entre arte e sexualidade, em marca registrada do diretor Philip Kaufman

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Cineasta cuja marca registrada costuma ser investigar o sexo enquanto ato libertador da condição humana, Philip Kaufman traça, em “Contos Proibidos do Marquês de Sade” (Quills, EUA, 2000), um perfil carismático do personagem, um dos artistas mais incompreendidos e polêmicos de todos os tempos. O filme reúne as marcas registradas da cinematografia do diretor – a abordagem do cruzamento entre arte e sexualidade – e aparece como um dos seus trabalhos mais inspirados, embora pouco chamativo.

O artista já havia abordado o mesmo tema, e sob uma ótica muito próxima, ao filmar “Henry e June”, onde narra, de forma livre, as desventuras e desdobramentos de um triângulo amoroso complicadíssimo, cujo epicentro é um escritor. A obra de Henry Miller nunca chegou a ser tão transgressora quanto a de Sade (alguma obra já chegou?), mas o norte-americano também era adepto da teoria edipiana do sexo libertador. A diferença é que Kaufman investiu alto na sensualidade, no primeiro filme. Dessa vez, preferiu explorar o lado psicológico.

O complexo triângulo amoroso a que Kaufman agora se dedica nunca chega às vias de fato. Na verdade, o tema é abordado de forma tão sutil – cortesia do ótimo roteiro de Doug Wright, baseado em peça de sua própria autoria – que pode passar despercebido aos menos atentos. A história acontece no século XVII, inteiramente dentro de um asilo, Charenton, onde o nobre francês passou mais de 27 anos preso, sob a acusação de “incentivar o Mal” em seus romances. Mesmo preso, Sade consegue traficar seus manuscritos para fora, com a ajuda da lavadeira Madeleine (Kate Winslet) e de um discreto não-vi-nada do padre Coulmier (Joaquin Phoenix), que dirige a instituição parisiense.

Escandalizados, Napoleão e seus dirigentes mandam para o asilo um psiquiatra conservador e de métodos violentos, Dr. Royer-Collard (Michael Caine). O que querem? Curar o marquês. De uma doença que, diga-se, nunca fica comprovada. Nunca ficou. O próprio Sade dizia que queria ser enterrado anonimamente, para que sua existência nunca fosse lembrada. Impossível. O homem é o verdadeiro rei do caos. Pornografia, pedofilia, necrofilia, coprofagia, estupros, assassinatos, torturas, está tudo lá, nas obras de um dos franceses mais polêmicos que já pisaram a Terra. A teoria básica: que o prazer descende da dor. O legado: dezenas, centenas de obras que examinam a sua arte, de filósofos como Nietzche e Antonin Artaud a cineastas como Pier Paolo Pasolini.

Retratar um sujeito de tamanha importância não é tarefa fácil, e Philip Kaufman sabia disso. Quando topou trabalhar no projeto, surgido sobre um roteiro vigoroso, que não abre espaço para palavrões ou cenas de sexo, escolheu a dedo os atores. Mas pecou por tratar o texto com rigor excessivamente teatral, algo típico em filmes de época, mas que Ridley Scott soube evitar com destreza em “Gladiador”.

Geoffrey Rush (Oscar por “Shine – Brilhante”) interpreta um Sade charmoso e intenso, mas lhe falta poder de sedução. Joaquin Phoenix faz o padre Coulmier sem maneirismos. Kate Winslet brilha mais, beirando a perfeição numa Madeleine que esconde sua verdadeira paixão até o último instante e não hesita em ajudar o marquês, apesar de nunca deixar claro se comunga ou não de suas idéias.

Nesse ponto está a chave do sucesso do filme: Doug Wright trabalhou com tanta minúcia no roteiro que exige atenção máxima do espectador para que este compreenda o verdadeiro sentido de cada uma das relações humanas que se estabelecem no decorrer das 2h10 de projeção. É um pequeno mosaico do ser humano que só se descortina quando reexaminamos o filme como um todo.

Wright, por sinal, é o protagonista da maior atração do filme em DVD, com um comentário em áudio. O disco possui, ainda, um pequeno documentário de bastidores. O som digital em cinco canais e a imagem com o corte original completam um lançamento competente mas sem grandes inovações, do ponto de vista técnico.

– Contos Proibidos do Marquês de Sade (Quills, EUA, 2000)
Direção: Philip Kaufman
Elenco: Geoffrey Rush, Kate Winslet, Joaquin Phoenix
Duração: 123 minutos

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