Contratei um Matador Profissional

08/06/2008 | Categoria: Críticas

Pouco conhecido, filme traz Aki Kaurismäki na melhor forma: senso de humor leve e surreal, narrativa sóbria e seca

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Desempregado e solitário, um contador francês que vive na Inglaterra decide se matar. Como não tem coragem para cometer suicídio, o rapaz junta todas as economias e contrata um matador profissional para fazer o serviço. Antes de morrer, ele conhece uma vendedora de flores e se apaixona. Procura o homem com quem fechou o contrato, mas não consegue encontrá-lo. Que bronca, hein? Pois bem: agregue a esta sinopse surreal os nomes do ator Jean-Pierre Leaud (o eterno Antoine Doinel, de Truffaut), como o protagonista, mais uma participação especial de Joe “The Clash” Strummer, e você tem nas mãos a formula infalível de um filme que simplesmente não pode dar errado. E não dá mesmo.

“Contratei um Matador Profissional” (I Hired a Contract Killer, Finlândia/Reino Unido, 1990) é um dos menos conhecidos trabalhos do cineasta finlandês Aki Kaurismäki, mas obedece a todos os principais postulados que regem a obra dele: uma trama simples e direta, tendo uma situação bizarra como ponto de partida; o senso de humor leve e sutilmente surreal, pontuado por elementos pop; uma visão ácida, mas muito bem-humorada, da Europa contemporânea; e uma narrativa sóbria e seca, que utiliza o mínimo possível de diálogos e aposta no poder da imagem – e no envolvimento direto da platéia – para gerar significados ao espectador.

Exibindo uma simplicidade contagiante, o trabalho conquista a platéia desde os primeiros momentos, provocando empatia imediata entre o público e o protagonista. O desajeitado Henri (Leaud, cujo jeito despojado se ajusta perfeitamente ao personagem) é um homens de 40 e poucos anos, taciturno, solitário, que perde o emprego por não ser inglês (e falar mal o idioma), quando a empresa entra em crise. Sem amigos, sem família e sem lar, ele não pensa muito para decidir que a vida não vale a pena. Henri age por impulsos. E é seguindo um desses impulsos que ele cai de paixão pela excêntrica Margaret (Margi Clarke), solitária como ele. Juntos, os dois terão que dar tratos à bola para escapar da perseguição obsessiva do assassino (Kenneth Colley), um sujeito grisalho, que usa luvas negras, caminha pela noite como um vampiro e está morrendo de câncer no pulmão.

O estilo de Kaurismäki parece um híbrido de Robert Bresson com Jim Jarmusch. Do primeiro, ele extrai as atuações sóbrias e impassíveis, os largos silêncios, a economia de música e diálogos. Do segundo vem o senso de humor sutil e surreal, bem como o molho levemente pop (a participação de Strummer). Kaurismäki baseia quase todo o filme em ação, pura e simples, e evita todo tipo de exposição. Esta opção dá ao filme uma dinâmica preciosa, exigindo o envolvimento do espectador com a trama para poder compreender as sutilezas da condução dramática. O senso de colocação de câmera é impecável (confira toda a seqüência que ilustra o confronto final entre a vítima e o assassino).

O cinema do finlandês é descendente direto de Bresson. Solitários de carteirinha, os personagens não falam muito, e a platéia precisa observar com atenção as reações dos atores para extrair significado das cenas. Pegue, por exemplo, a cena em que Henri, apaixonado, descobre que o assassino está por perto. Ele sai de boate, caminha até o prédio onde mora, e nota a ausência do bilhete que havia deixado na porta. Olha para os lados, apreensivo, e sai andando apressado. Nenhuma palavra, mas a platéia descobre várias coisas, a partir da justaposição de planos simples e da reação dos atores: 1) o assassino apareceu, e conhece o paradeiro de Henri; 2) este último sabe disso; 3) Henri se arrependeu da decisão e, agora, precisa fugir. Puro cinema.

O longa-metragem foi exibido no Brasil dentro da programação da Mostra Internacional de São Paulo, em 1991. Nunca saiu por essas bandas em qualquer formato de home video. Na Europa, é possível encontrá-lo dentro de uma caixa dedicada ao trabalho de Aki Kaurismäki. O disco simples tem apenas o filme (imagem widescreen 1.85:1 anamórfica, som Dolby Digital 5.1 em inglês).

– Contratei um Matador Profissional (I Hired a Contract Killer, Finlândia/Reino Unido, 1990)
Direção: Aki Kaurismäki
Elenco: Jean-Pierre Léaud, Margi Clarke, Kenneth Colley, T.R. Bowen
Duração: 79 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »