Convidado Bem Trapalhão, Um

29/09/2008 | Categoria: Críticas

Feito quase sem roteiro, filme comprova o domínio absoluto de Peter Sellers sobre todas as variações da comédia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Após a feliz experiência ao realizarem juntos os dois primeiros filmes da série “A Pantera Cor-de-Rosa”, em 1996, o diretor Blake Edwards e o ator Peter Sellers tinham virados bons amigos também longe das telas. Eles decidiram, então, consolidar de vez a parceria com uma comédia que poderia ser descrita como um besteirol sofisticado: “Um Convidado Bem Trapalhão” (The Party, EUA, 1968). Filmada praticamente sem roteiro, a produção não apenas comprova o domínio absoluto de Sellers sobre todas as variações da comédia, como também exemplifica de forma definitiva a inigualável capacidade do ator para extrair humor de qualquer situação, usando improviso e raciocínio rápido. “Um Convidado Bem Trapalhão” permanece até hoje como um dos filmes favoritos dos fãs do comediante.

Praticamente todo feito em um único cenário (uma mansão construída dentro dos estúdios da MGM, em Los Angeles), o longa-metragem foi realmente concebido como um veículo para os improvisos de Peter Sellers. Anos depois, Blake Edwards diria, em entrevistas, que o roteiro tinha apenas 55 páginas, contendo apenas metade da ação que vemos na tela. Se o astro cômico não tivesse soltado as amarras e desandado a improvisar durante as gravações, a metragem sequer seria suficiente para que o filme fosse lançado. Aliás, a ausência de roteiro pode ser notada na estrutura, bastante solta e episódica. De fato, a trama de “Um Convidado Bem Trapalhão” apenas amarra uma série de esquetes cômicos na mesma unidade de tempo e lugar: uma festa de gala na casa do chefão de um estúdio em Hollywood.

O ator indiano Hrundi Bakshi (Sellers), que acaba de ser demitido após destruir sem querer um set milionário, recebe convite por engano para a tal festa. Ele não conhece ninguém lá, e fica peruando pelos diversos ambientes, tentando puxar conversa aqui e acolá. O personagem é uma variação do Inspetor Clouseau, da série “Pantera Cor-de-Rosa”: um sujeito inacreditavelmente desastrado, com o dom infalível de provocar confusão. Logo na chegada ao casarão, por exemplo, ele perde um dos sapatos, que vai parar bem no meio da piscina localizada na enorme sala da mansão, para constrangimento geral. Entre um jantar hilariante servido por um garçom bêbado (Steven Franken) e inocentes partidas de sinuca com um galã, Hrundi vai se metendo em sucessivas confusões até o amanhecer.

Incluindo uma homenagem explícita ao mestre da comédia física francesa Jacques Tati (Hrundi chega e sai da festa dirigindo um minúsculo veículo de três rodas semelhante ao usado pelo mais famoso personagem de Tati, Sr. Hulot), Sellers responde por grande parte da excelência do longa-metragem. Fazendo rir ele é simplesmente fantástico, bom em virtualmente todas as modalidades de comédia: rápido nos diálogos (os encontros com o astro de faroeste são engraçadíssimos), excepcional nas gags físicas, excelente na comédia muda (tente não rir na cena do banheiro entupido!), e espetacular no manejo de diferentes sotaques, algo que já havia demonstrado em “Dr. Fantástico”, a brilhante comédia de humor negro de Stanley Kubrick. Sellers é tão bom que nem mesmo o desempenho brilhante do coadjuvante Steven Franken, como o garçom que toma todas, consegue roubar a cena.

O filme só não é perfeito porque a ausência de um roteiro bem trabalhado deixa o resultado final meio irregular, com algumas cenas (geralmente com menor participação do ator principal) bem menos engraçadas do que outras. A festa neo-hippie em que ocorre o clímax, por exemplo, não funciona muito bem, servindo mesmo para desviar a atenção do protagonista, que naquele exato momento está iniciando o que pode ser um romance com uma linda atriz novata (Claudine Longet). É lógico que a qualidade das piadas não deixa a bola cair por muito tempo. E para quem pensa que o enredo é bobo e artificial, convém prestar atenção na ironia dedicada ao retrato opulento dos bastidores de Hollywood, cheios de produtores oportunistas e atores burros, e também na sofisticação de certas piadas (a banda de jazz, por exemplo, que se embriaga com os próprios improvisos e não pára de tocar nem mesmo quando a água invade o salão de festas).

O DVD nacional é simples e não contém nenhum extra. O enquadramento original (widescreen 2.35:1 anamórfico) é respeitado, e a trilha de áudio é razoável (Dolby Digital 2.0). O lançamento é da MGM/Fox.

– Um Convidado Bem Trapalhão (The Party, EUA, 1968)
Direção: Blake Edwards
Elenco: Peter Sellers, Claudine Longet, Marge Champion, Steve Franken
Duração: 99 minutos

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