Coração Louco

08/07/2010 | Categoria: Críticas

Estréia de Scott Cooper no filme que deu o Oscar a Jeff Bridges mostra que o velho tema da redenção continua engajando emocionalmente a platéia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A história é meio batida: veterano artista que já foi famoso, mas anda em decadência, luta para dar a volta por cima graças aos incentivos de uma pessoa mais jovem que entra em sua esfera de influência inesperadamente. A última vez em que uma variação dessa jornada de redenção foi contada com sucesso, no cinema, ocorreu em 2008, com “O Lutador”, de Darren Aronofsky. As semelhanças do filme estrelado com Mickey Rourke com este “Coração Louco” (Crazy Heart, EUA, 2009) não são poucas. E, embora o longa-metragem de estréia do diretor Scott Cooper não esteja exatamente no mesmo nível de excelência, ainda assim oferece um belo espetáculo cinematográfico, no qual o grande ator Jeff Bridges tem muita culpa no cartório.

Sim, não há dúvida de que Bridges é a alma de “Coração Louco”, o catalisador que faz tudo dar certo. O Oscar recebido na cerimônia de 2010 é significativo (embora o prêmio em si nem represente premie o verdadeiro talento, haja vista a estatueta entregue a Sandra Bullock na mesma festa): desde que foi chamado pela grande crítica Pauline Kael de “o maior ator norte-americano”, quando ainda era uma jovem promessa no início dos anos 1970, Bridges anotou uma grande quantidade de bons filmes no currículo. Porém, sua predileção por produções de caráter alternativo (vale a pena mencionar o divertidíssimo “O Grande Lebowski”, dos irmãos Coen) nunca lhe deixou muito tempo sob os holofotes.

O fato é que o talento dele sempre esteve lá. Assim, o maior mérito do cineasta novato Scott Cooper foi mesmo dar a Bridges um personagem interessante e cercá-lo de um elenco competente, que mescla outros jovens promissores (Maggie Gyllenhaal, uma das melhores atrizes de sua geração, e o irlandês Colin Farrell) com veteranos de compotência já extensamente comprovada (Robert Duvall, sempre brilhante). O resultado pode ser comparado às melhores canções country: a estrutura pode ser a mesma de sempre, mas o talento se sobressai nos pequenos detalhes.

A referência à música country, obviamente, tem a ver com o protagonista de “Coração Louco”. Ele é Bad Blake (Bridges), veterano cantor country que já conheceu a fama em larga escala, mas entrou em decadência. Agora, sempre acompanhado de um violão e uma garrafa de uísque, ele vive permanentemente em turnê por pequenas e poeirentas cidades do meio-oeste americano. Corta as planícies de terra seca sozinho, numa caminhonete caindo aos pedaços, dormindo em hotéis de beira de estrada, tocando em boliches e bares de terceira categoria com o acompanhamento de alguma banda local formada por meninos aspirantes a músicos. É um alcoólatra dedicado e tranqüilo, e parece conformado, esperando a morte lhe levar numa nuvem de álcool.

A pessoa que dispara uma reviravolta na vida dele é uma repórter (Gyllenhaal) que trabalha para um pequeno jornal de Santa Fe (Novo Mexico). Ela é mãe solteira, já passou dos 30 anos, e parece conformada com a idéia de que seus melhores anos já ficaram para trás – assim como ele. Mas há uma diferença crucial: ela ainda acredita nas pessoas. Esse encontro fura, aos poucos, um buraco na couraça dura que recobria o coração de Blake. É só aí que começamos a conhecê-lo melhor. Seu ressentimento e desilusão, afinal, talvez tenham raiz na inveja pelo sucesso de um antigo pupilo (Colin Farrell), garotão que não tem metade do talento de Blake com o violão, mas possui a aparência certa para lotar ginásios.

A direção clássica de Scott Cooper lembra um pouco os melhores momentos de Clint Eastwood. Ele não abre espaço para firulas técnicas, limitando-se a registrar o esforço de Blake para se reintegrar à sociedade e suas constantes recaídas emocionais (quase sempre encontrando refúgio na garrafa). Sabemos que ele é um homem agradável, simpático e divertido devido à relação de carinho real que ele inicia com o filho de Jean, a repórter. Cooper não precisa nos lembrar disso a todo momento. Ele confia no espectador e, sobretudo, confia em Jeff Bridges.

O ator, é claro, usa a habilidade natural com o violão para executar pessoalmente os longos trechos musicais do filme, cantando e tocando com a desenvoltura de quem vive na estrada. A trilha sonora, construída com um punhado de canções simples e agradáveis do excelente T-Bone Burnett (quem curte o estilo caipira norte-americano em sua versão raiz, com violão e piano, tem uma razão a mais para se encher de encanto pelo longa-metragem), marca outro acerto. E Maggie Gyllenhaal comprova, de uma vez por todas, que tem bem mais talento natural para atuar do que o irmão mais famoso (Jake, de “Donnie Darko” e “Zodíaco”).

Tudo bem, o filme derrapa um pouco na estrutura narrativa familiar e já um tanto gasta – não faltam, por exemplo, uma cena em que Blake “estraga tudo”, e outra em que tenta se redimir de uma grande besteira, ambas quase obrigatórias em filmes que tratam do tema da redenção – e, de certa forma, não explora como poderia as nuances e complexidades da relação conturbada entre o cantor veterano e seu pupilo mais jovem e famoso. De toda forma, “Coração Louco” termina com uma nota sóbria e nos deixa com a sensação de que a velha narrativa cinematográfica clássica, sem peripécias juvenis ou efeitos especiais, continua imbatível na tarefa de engajar emocionalmente as pessoas na platéia.

O DVD simples e sem extras tem o selo da Fox e traz o filme com imagem correta (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Coração Louco (Crazy Heart, EUA, 2009)
Direção: Scott Cooper
Elenco: Jeff Bridges, Maggie Gillyenhaal, Colin Farrell, Robert Duvall
Duração: 112 minutos

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