Coraline e o Mundo Secreto

24/06/2009 | Categoria: Críticas

Fábula macabra sobre criança que transita entre dois universos paralelos é uma delícia para os sentidos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Coraline Jones é uma criança solitária. Filha de dois paisagistas devotados ao trabalho (e que, além de mal-humorados, odeiam mexer com terra e lama), ela se vê tomada por tédio e frustração quando a família se muda para um casarão com fama de mal-assombrado em terras ermas do estado do Oregon (EUA), onde nada acontece. Ou melhor, nada parece acontecer. Coraline percebe algo extraordinário durante uma das primeiras noites na propriedade, ao acordar e dar de cara com um estranho rato que salta como um canguru em miniatura. Ao segui-lo, a criança descobre um portal para um universo paralelo onde todas as pessoas têm duplos, só que com botões de costura no lugar dos olhos. Este é apenas o princípio da sinistra fábula em stop motion que leva o nome da menina.

“Coraline e o Mundo Secreto” (EUA, 2009) é assinado pelo diretor gótico Henry Selick (“O Estranho Mundo de Jack”), um especialista na velha técnica de animação com bonecos cujo gosto estético pende para o macabro. Aliás, não poderia haver nome mais adequado para dirigir a adaptação cinematográfica da novela ilustrada que deu origem ao filme, escrita e publicada pelo inglês Neil Gaiman em 2002 (com ilustrações do grande designer gráfico Dave McKean). Exceto, talvez, Tim Burton, cujo nome vem à mente inclusive por causa de suas associações anteriores com Selick, para quem Burton produziu o já citado “Jack” (1993) e também “James e o Pêssego Gigante” (1996), ambos com a qualidade gótico-excêntrica que o projeto original de Gaiman já tinha desde as páginas.

Selick associou seu nome ao filme praticamente desde a publicação do livro. Ele viu na história fantástica uma oportunidade de reavivar a própria carreira, afundada após o estrondoso fracasso da aventura “Monkeybone – No Limite da Imaginação” (2001). Deu tratos à bola, contratou uma equipe de 30 animadores (e 250 técnicos para construir cenários em miniatura) e não teve medo de usar tecnologia inovadora para trabalhar com stop motion digital (o que proporcionou economia de tempo e muitas oportunidades para sofisticar as composições visuais). O resultado final prova que ele estava certíssimo. Mexendo pouco na trama original, caprichando no visual lúgubre e recusando-se até mesmo a aliviar o tom adulto e as fortes imagens sugestivas de violência que existiam no livro, Henry Selick criou uma perfeita fábula macabra e aterrorizante, que Tim Burton teria orgulho em assinar.

O trabalho de animação, de encher os olhos, é sem dúvida o ponto forte do longa-metragem. Selick utilizou uma técnica inovadora, em que o stop motion é feito dentro de cenários computadorizados em três dimensões. Isso deu ao diretor a oportunidade de planejar e executar movimentos de câmera impossíveis (preste atenção na incrível seqüência em que o “pai” de Coraline constrói o jardim da mansão no mundo alternativo), além de utilizar a profundidade de campo com elegância e inteligência. Dessa forma, as composições visuais incluem ações em segundo plano que “dialogam” com os personagens mais próximos da câmera. Um dos motivos para o uso dessa técnica, claro, foi o lançamento do filme em salas de projeção digital em 3D, que amplificam ainda mais esta sensação.

Selick, porém, não cede à tentação de usar demais um dos piores clichês das projeções em três dimensões, que consiste em fazer objetos “saltarem” da tela em direção ao espectador, a fim de pregar sustos. Isto até acontece em um par de momentos da projeção (no primeiro, uma agulha de crochê quase “fura” os olhos da platéia), mas no geral Selick prefere usar a técnica com economia, para enfatizar a tridimensionalidade da ação na tela, fazendo os personagens muitas vezes transitarem de trás para a frente e vice-versa, sem cortes. Isso é muito bom. A nova tecnologia também amplia o nível de detalhes que a câmera captura, permitindo ao cineasta explorar texturas (tecido, terra, lama, mofo, lodo) e aumentar, dessa forma, a sensação soturna que a imagem icônica da produção – uma sinistra boneca-miniatura da protagonista com botões negros costurados nos olhos – encapsula com propriedade. Isso sem falar da incrível cena de sonho cuja cenografia emula, em versão 3D de derrubar o queixo, o quadro “Noite Estrelada” (meu favorito pessoal), de Van Gogh. Coisa de louco mesmo.

O enredo, por outro lado, não vai muito além de uma variação macabra-fantástica de histórias da carochinha sobre crianças solitárias que encontram refúgio em universos paralelos, a exemplo de “Alice no País das Maravilhas” ou “O Mágico de Oz”. Em todas essas fábulas, as características inatas dos adultos são exacerbadas na outra dimensão – o truque de “Coraline” é realizar a operação inversa, já que a mãe e o pai “alternativos” da garota são, aparentemente, muito mais legais e amorosos do que os verdadeiros – e apenas a protagonista, às vezes acompanhada de um animal, consegue transitar entre os dois mundos. A solução visual encontrada por Selick para diferenciar os dois universos também não é original, já que se mostra similar à utilizada por Tim Burton em “A Noiva-Cadáver” (2005), em que a dimensão real é retratada através de tonalidades frias e neutras, com muitas sombras, enquanto a dimensão alternativa parece muito mais colorida, animada e divertida. Não importa: “Coraline” é uma delícia para os sentidos e ainda causa arrepios na espinha.

O DVD da Universal tem áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1) e imagem no formato original (widescreen 1.85:1 anamórfico). Os extras incluem uma seção de cenas cortadas (9 minutos) e um ótimo documentário que cobre todo o processo da produção (36 minutos). Infelizmente, os extras possuem legendas apenas em inglês.

– Coraline e o Mundo Secreto (Coraline, EUA, 2009)
Direção: Henry Selick
Animação (vozes de Dakota Fanning, Teri Hatcher, Jennifer Saunders)
Duração: 101 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


16 comentários
Comente! »