Coronel e o Lobisomem, O

14/08/2006 | Categoria: Críticas

Estréia de Maurício Farias no cinema revisita universo do Brasil rural de Guel Arraes em tom menos frenético

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

“O Coronel e o Lobisomem” (Brasil, 2005), ao contrário do que muita gente pensa, não leva a assinatura de Guel Arraes na direção. A produção marca a estréia em cinema do diretor Maurício Farias, profissional experiente de televisão. De qualquer forma, as impressões digitais de Guel estão espalhadas por todo o longa-metragem. Convém lembrar que Arraes é produtor e co-roteirista do filme. Além disso, a obra revisita um universo que Guel popularizou nos cinemas: um Brasil idílico, rural, brejeiro e pitoresco, com um herói malandro e mentiroso da mesma estirpe de Macunaíma e João Grilo (do “Auto da Compadecida”).

Outras características aproximam o filme da obra de Guel. O mesmo grupo de atores que trabalha há duas décadas com o pernambucano (Diogo Vilela, Pedro Paulo Rangel) marca presença em “O Coronel e o Lobisomem”. Todos esses elementos reforçam um fato que é público e notório: o público brasileiro já aprendeu a reconhecer em Guel Arraes não apenas um autor, mas uma grife. A menção do nome dele traz à memória, de imediato, um cinema que trabalha com ícones populares vivendo em um Brasil idealizado. Guel realiza um cinema popular, leve e ingênuo, com razoável sofisticação estética, mas sem o ranço intelectualizado que o público costuma associar aos filmes nacionais. Nesse aspecto, “O Coronel e o Lobisomem” é OK.

Há, porém, diferenças fundamentais entre o filme e a obra de Guel Arraes como diretor, a começar pelo tipo de registro cômico perseguido por “O Coronel e o Lobisomem”. Embora invista na farsa, um gênero de comédia que se caracteriza pelo exagero, pela caricatura das situações dramáticas e personagens, Maurício Farias procura imprimir à obra um tom claramente mais tranqüilo, menos frenético. Trata-se de uma comédia, sim, mas não uma comédia rasgada, como era o “Auto da Compadecida”. O tom geral, aqui, é de comédia romântica com generosas doses de realismo mágico, como se o mexicano Alfonso Arau (de “Como Água Para Chocolate”) concebesse um filme cuja ação fosse localizada no Brasil rural de Guel Arraes. Em outras palavras, o espectador passa a maior parte de “O Coronel e o Lobisomem” com um sorriso no rosto, mas as gargalhadas são raras. O humor é outro.

Roteiristas e diretor insistem que essa característica é intencional, o que é um dado positivo, pois indica personalidade e segurança do homem que está no comando da produção. Também é possível perceber uma diferença estética entre a película e a obra de Guel Arraes, já que Maurício Farias demonstra ter um olho mais apurado para o que se costuma chamar de “cinema clássico”. A edição é menos veloz, as imagens duram mais antes do próximo corte. Via de regra, quase todas as seqüências de “O Coronel e o Lobisomem” abrem com uma tomada panorâmica, um plano geral que situa o espectador no espaço, na geografia da cena. Esses pequenos momentos podem parecer imperceptíveis, mas dão ao filme um ritmo menos frenético.

Por outro lado, os diálogos e as atuações são típicos dos filmes do que se convencionou chamar de “núcleo Guel Arraes”, em referência aos profissionais que com ele trabalham na TV Globo. “O Coronel e o Lobisomem” é um longa-metragem verborrágico, que aposta numa espécie de humor involuntário, ao fazer troça não com as coisas que as pessoas falam, mas na maneira como falam – o jogo de palavras, o dialeto rural peculiar, as expressões regionais curiosas. Além disso, como se trata de uma farsa, os atores interpretam de forma exagerada, quase teatral, com sotaque fortíssimo, tom de voz alto e pausas dramáticas acentuadas. Isso pode incomodar algumas pessoas no início, mas uma vez que o público se acostuma e entra no clima, o filme flui de maneira eficiente.

“O Coronel e o Lobisomem” é um roteiro escrito a seis mãos, por um time experiente em cinema. Além de Guel Arraes, escreveram a obra o também pernambucano João Falcão (que está estreando na direção com o longa-metragem “A Máquina”) e o gaúcho Jorge Furtado (de “O Homem que Copiava” e “Meu Tio Matou um Cara”). O trio trabalha junto há muitos anos, na TV Globo, e por isso o texto do filme de Maurício Farias conserva uma unidade bem-vinda. Para adaptar o romance de José Cândido de Carvalho, eles efetuaram uma série de modificações na trama, concentrando a ação nas peripécias do coronel Ponciano de Azeredo Furtado (Diogo Vilela).

Furtado é um fazendeiro à moda antiga. Herdou o título de coronel e uma grande propriedade do avô, mas vive numa época que não é a sua. Ponciano é um homem preso a uma tradição rural que não tem mais lugar em um Brasil cada vez mais urbanizado – uma tradição onde a superstição é regra e que ainda aceita como reais seres lendários, como lobisomens e sereias. Por isso, vive de modo solitário. Como todos os heróis de Guel Arraes, é um homem cheio de defeitos: medroso, indolente, mentiroso, fraco e vaidoso, mas também cheio de calor humano e energia, o que no final das contas o faz simpático.

Como toda boa comédia romântica, o filme é um triângulo amoroso. Ponciano disputa o amor da prima Esmeraldina (Ana Paula Arósio) com o irmão de criação, Pernambuco Nogueira (Selton Mello), a quem atribui a acusação de ser um lobisomem que caça as boiadas da região da fazenda Sobradinho, na divisa de Minas Gerais com Rio de Janeiro. O filme é, na verdade, um grande flashback, que traduz em imagens a narrativa oral contada por Ponciano no tribunal, onde deseja provar que Pernambuco é mesmo um lobisomem e, com isso, impedir que o irmão de criação lhe tome a posse de sua amada fazenda.

Visualmente, “O Coronel e o Lobisomem” funciona que é uma beleza. As locações (no interior de Minas e nas praias de Fernando de Noronha) são perfeitas e a cenografia, incluindo os figurinos, traduz um ambiente que remete instantaneamente ao imaginário popular sobre o que foi o Brasil rural no início do século XX. Nesse aspecto, o filme falha apenas nos efeitos especiais, que são fracos e jamais passam a sensação de veracidade (preste atenção na seqüência do ataque da onça, obviamente feita com a ajuda de computadores). A parte final do filme, que inclui a aparição de uma criatura digital, deixa a fragilidade bastante evidente.

Para compensar, todo o elenco está bem, incluindo as pontas de luxo de Othon Bastos, André Beltrão e do saudoso Francisco Milani. Diogo Vilela possui o olhar vazio e alucinado de um homem enloquecido pela solidão, e Selton Mello tem o caráter ambíguo de um homem misterioso. O ladrão de cenas, contudo, é Pedro Paulo Rangel, dono dos momentos mais engraçados do filme como o fiel ajudante de Ponciano. Se ao final da projeção você sentir um leve gosto de decepção por não ter gargalhado tanto quanto esperava, lembre-se que o efeito geral pretendido pelo direto era outro – e ele o alcança com razoável eficiência.

O DVD da Fox não contém extras, mas traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– O Coronel e o Lobisomem (Brasil, 2005)
Direção: Maurício Farias
Elenco: Diogo Vilela, Selton Mello, Ana Paula Arósio, Pedro Paulo Rangel
Duração: 96 minutos

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