Corpo Fechado

29/09/2003 | Categoria: Críticas

Sucessor de ‘O Sexto Sentido’ é filme ambicioso e lento (e por isso desagradou as platéias), mas inteligente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O sucesso arrasador de “O Sexto Sentido” pode ter rendido milhões de dólares e muito prestígio ao diretor M. Night Shyamalan, mas também trouxe problemas ao indiano mais famoso de Hollywood. A expectativa do público para seu projeto seguinte beirou a histeria. A repetição da bem-sucedida parceria com o astro Bruce Willis, somada à contratação de praticamente toda a equipe técnica do thriller mais bacana de 1999, elevaram ainda mais as esperanças de que o diretor pudesse cometer um clássico. Para completar o desastre, a Disney vendeu o novo trabalho de Shyamalan como um filme de super-heróis. Some tudo isso e você tem a explicação do fracasso de “Corpo Fechado” (Unblreakable, EUA, 2000) nas bilheterias.

O problema é que “Corpo Fechado” não possui nenhum clichê dos filmes de aventura. Esqueça coisas como visual hipercolorido, ritmo alucinante, trilha sonora atordoante e ação ininterrupta. Se Shyamalan fizesse isso, poderia ter batido recordes de bilheteria. Mas a ação de “Corpo Fechado” é psicológica, não física. O ritmo segue lento até o final, os silêncios preenchem quase todos os momentos, as locações são decadentes, a fotografia é escura. Quem entrou no cinema esperando que Bruce Willis fizesse cara de mau e saísse distribuindo sopapos certamente se decepcionou. Porém, com a obra disponível em formatos home video, o espectador ganha a chance de reavaliar o trabalho. Porque trata-se de um filme muito legal.

O truque para compreender “Corpo Fechado” é despir-se de preconceitos. O verdadeiro fã de quadrinhos vai curtir a película porque a mensagem, desde os primeiros letreiros (que informam estatísticas ligadas à venda e ao consumo de HQs nos EUA), é que quadrinhos podem ser uma forma de arte válida. Justamente por isso, o personagem de Samuel L. Jackson, que anda com uma bengala de cristal, jaqueta púrpura e cabelo black power, pode ser considerado uma espécie de co-protagonista. Ele é o catalisador da trama, o personagem que vai provocar a ação, já que o protagonista em si (Willis) é lerdo e sem iniciativa.

Jackson vive Elijah Price, dono de uma galeria de arte seqüêncial (o conceito é do mestre Will Eisner, um dos primeiros a defender o mérito artístico das HQs) e fanático por quadrinhos. Ele sofre de uma doença rara que torna seus ossos muito frágeis. Elijah aparece como um furacão que põe mais desordem na vida já desarrumada do segurança David Dunn (Willis), depois que este escapa milagrosamente e sem um único arranhão de um desastre de trem de proporções épicas. A teoria de Elijah: se a natureza criou um homem de vidro, deve também ter criado seu contrário, um homem de aço. E Dunn poderia ser o tal sujeito.

Isso tudo acontece nos primeiros vinte minutos. No resto do filme, um desorientado Willis tenta descobrir se a teoria do exótico artista tem algum fundamento. Isso detona um processo de reavaliação da vida pessoal e profissional, enquanto David procura lentamente uma maneira de se reaproximar do filho e da mulher. Em outras palavras: “Corpo Fechado” está mais para drama do que para thriller, embora guarde momentos de suspense, revelações de segredos, uma seqüência realista de luta e uma surpresa inteligente no final. A tal surpresa não foi tão comentada quando a de “O Sexto Sentido”, mas tem importância igual para a explicação da trama. Shyamalan gosta mesmo de finais bombásticos.

Ademais, o cineasta é um formalista de rigor admirável, do mesmo naipe de Spielberg ou Hitchcock. Cada plano é filmado e coreografado com discrição e destreza. Nenhum zoom ou movimento de câmera, por mínimo que seja, está lá gratuitamente. Cada peça de roupa, cada cor utilizada, cada palavra dos diálogos econômicos tem um motivo para estar ali. Preste atenção, por exemplo, como Shyamalan e o fotógrafo Eduardo Serra iniciam cada nova seqüência com planos que valorizam reflexos ou espelhos (esta é uma pista importante a respeito do final).

Atente, também, para a cena que ocorre dentro da estação de trem – cada personagem que David Dunn toca, provocando-lhe visões, usa trajes de cores chamativas (laranja, vermelho), ao contrário de todo o restante da multidão, vestida em tons neutros. Ou verifique como o longo plano-seqüência de abertura foge do clássico esquema plano/contraplano para enfatizar o subtexto de uma típica cantada vulgar. São exemplos perfeitos do domínio absoluto que o diretor tem sobre a narrativa.

A obra em DVD, que chega às prateleiras com um requinte meio raro para lançamentos brasileiros, é da Buena Vista. Há um comentário em áudio do diretor, um pequeno documentário de bastidores e diversos storyboards da obra. A peça principal é uma coleção de cenas excluídas, todas com introdução de Shyamalan. É menos material do que a versão americana do filme, que está num disco duplo, mas não deixa de ser um bom lançamento. Enquadramentos (widescreen anamórficos) e áudio (Dolby Digital 5.1) estão OK.

– Corpo Fechado (Unbreakable, EUA, 2000)
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright-Penn
Duração: 106 minutos

| Mais


Deixar comentário