Corpo, O

28/09/2003 | Categoria: Críticas

Mistério sobre a existência de Jesus Cristo rende filme cuja premissa é melhor do que o resultado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

A produção de “O Corpo” foi tão complicada que acabou por jogar o filme num limbo de descrença. Sem acreditar no sucesso desse suspense, os executivos de Hollywood preferiram adiar a estréia quase indefinidamente. “O Corpo” estreou primeiro na Espanha e, diante de um inesperado falatório, chegou ao Brasil no final de semana da Páscoa, uma semana antes de estrear nos EUA – caso raríssimo! Mesmo assim, sumiu rapidinho das telas e ganhou um lançamento meia-boca em DVD. Trata-se de um longa de aventura convencional, mas merecia uma carreira melhor.

O enredo do filme é intrigante: uma arqueóloga (Olivia Williams, de “O Sexto Sentido”) que trabalha nos fundos de uma loja em Jerusalém encontra, sem querer, uma antiga tumba. Dentro dela, um esqueleto com características que permitem aos especialistas acreditar que aquele é o corpo de Jesus Cristo. Para o Vaticano, a notícia é devastadora: imagine o que significaria para a Igreja Católica a descoberta de que Cristo nunca ressuscitou? Assustados, os bispos mandam à cidade um teólogo e ex-guerrilheiro latino-americano (Antonio Banderas, canastrão como sempre). Ele deve investigar a descoberta à exaustão.

Com essa história nas mãos, o diretor estreante Jonas McCord poderia ter feito um filmaço. Ele explora bem o impacto político e religioso que uma descoberta arquológica de tamanha importância teria – lembre-se que Jerusalém é uma cidade sagrada para não apenas uma, mas três religiões importantes: o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. As intrigas políticas e o cabo-de-guerra entre os diversos grupos (alguns querem ocultar a descoberta, outros preferem deixá-la às claras o mais rápido possível, mas todos têm interesse) são bem montados e inteligentes.

O grande problema é que o roteiro acaba resvalando para um lugar-comum que já encheu o saco há muito tempo: enquanto investiga tudo sob uma aura de imparcialidade, o padre Banderas vai se afeiçoando à arqueóloga com quem tinha uma rixa inicial forte. Daí para a afeição terminar em atração física é pouco. Há os personagens estereotipados de sempre (o terrorista que usa a política como desculpa para atos extremos de violência, o padre-arqueólogo que enlouquece lentamente) e boa parte dos diálogos pode ser adivinhado a léguas de distância.

Mesmo assim, McCord consegue obter um equilíbrio razoável entre ação e suspense (a parte da paixão bem que poderia ter sido esquecida) e conduz o filme a uma final inteligente. Nos EUA foi fracasso, mas não se incomode com isso: a situação do Oriente Médio, para os americanos, é tão intrigante quanto um Big Mac duplo com Coca-cola e fritas na hora do almoço. Para uma nação católica como o Brasil, “O Corpo” tem seu interesse. E o DVD ainda traz algumas cenas excluídas do filme, como bônus para os interessados.

– O Corpo (The Body, EUA, 2000)
Direção: Jonas McCord
Elenco: Antonio Banderas, Olivia Williams.
Duração: 108 minutos

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