Corpo Que Cai, Um

11/06/2008 | Categoria: Críticas

Hitchcock pode ser duro com os personagens, mas continua a ser o mestre do suspense

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Alfred Hitchcock teve uma época de ouro. Entre as décadas de 1950 e 1960, dirigiu vários clássicos consecutivos, sempre utilizando técnicas inovadoras e narrativas idem. Mas todo o material escolhido pela cineasta inglês sempre deu a impressão à platéia de ser parecido. Ou seja, embora “Janela Indiscreta” e “Psicose” (apenas para citar dois exemplos) sejam bem diferentes um do outro, eles carregam semelhanças temáticas. Ambos contêm a assinatura inconfundível de Hitchcock. “Um Corpo Que Cai” (Vertigo, EUA, 1958) é talvez o filme mais diferente que o mestre do suspense dirigiu, na sua melhor fase.

Essa constatação não é feita, sob nenhuma hipótese, para depreciar uma obra-prima inquestionável. “Um Corpo Que Cai” é apontado pela maior parte dos críticos da atualidade como a grande obra-prima de Hitchcock, um posto que divide com “Psicose”. Curiosamente, porém, a saga em preto-e-branco de Norman Bates foi concebida como um filme ligeiro e encarada assim durante muitos anos, antes de ter valor crítico agregado depois que François Truffaut o elegeu como o melhor de Hitchcock. Truffaut era muito respeitado. Mas o fato é que “Um Corpo Que Cai” sempre foi objeto de observações bem estranhas dos críticos. Talvez porque nunca foi um produto típico de Hitchcock.

É verdade que há, no filme de 1958, uma boa quantidade de elementos cênicos que Hitchcock sempre reutilizava em seus filmes. O mais óbvio deles é o principal papel feminino, entregue – como sempre – a uma loira, a atriz Kim Novak. Um dos atores favoritos do lorde inglês também bate ponto na trama, James Stewart. Mas preste atenção nos papéis que ambos desempenham no longa-metragem, e você vai perceber que, sob a aparência de normalidade, o enredo de Hitchcock representa uma ruptura parcial do mestre do suspense com um passado cinematográfico de personagens claros, moralmente impecáveis.

Scottie Ferguson (Stewart) é um policial que descobre, em uma antológica seqüência de abertura, que tem medo de altura. Durante uma perseguição, ele vacila, sofre de tonturas e acaba deixando um colega morrer. Por causa disso, entra em tratamento e aceita, durante essa folga, um caso como detetive particular. A tarefa que lhe cabe é seguir a mulher de um amigo, Madeleine Elster (Kim Novak), pelas ruas de San Francisco. Não, o sujeito não desconfia que ela anda lhe traindo. Ele acha que a esposa está sendo possuída por um espírito feminino. Mesmo achando tudo muito louco, Scottie topa ajudar o amigo. A perseguição acaba por envolver Scottie em uma trama complicada que por pouco não o leva à loucura completa.

O personagem de Scottie se revela um dos mais complexos e intrigantes da carreira de Hitchcock. Tampouco James Stewart estava acostumado a interpretar tipos assim. Ocorre que, em mais um golpe certeiro de domínio cinematográfico, Hitchcock engana sua platéia, quebrando a trama em dois filmes completamentes distintos. Na primeira metade, é um drama sobrenatural intimista, inteligente e, até certo ponto, previsível. Tem um lado thriller excelente, mas comum. De repente, a trama dá uma guinada, e vira um pesadíssimo drama sobre um homem obcecado por um fantasma. Scottie se transforma. O detetive traumatizado vira um sujeito enlouquecido, obsessivo, transtornado por uma paixão tão avassaladora quanto fantasmagórica.

Como isso acontece? Há um ponto climático bastante evidente, mas não seria inteligente revelá-lo ao espectador antes do tempo. Muito melhor é ver o filme por conta própria e observar, mais uma vez, a maestria de Hitchcock em manipular enredos. Aqui, o mestre do suspense não tem medo de subverter a idéia do herói clássico, de moral impecável. O diretor também dá uma nova dimensão à expressão “loira ambígua e misteriosa”, tantas vezes usada para descrever suas protagonistas.

O filme possui um colorido rico, magnético, que transborda de tons vermelhos crepusculares e verdes explosivos. As cores da roupa da personagem femina nunca são gratuitas; há sempre uma razão para cada peça, para cada cor (críticos de referiram ao filme, em 1958, como um “pesadelo em technicolor”, uma definição impecável). A inesquecível cena em que Madeleine se transforma em Judy, iluminada pelo néon verde do hotel em que ela está hospedada, tem uma qualidade fantasmagórica raríssima de encontrar. Além disso, as paisagens de San Francisco evocam um senso de melancolia que nenhum outro filme de Hitchcock possui.

Existe uma integração fluida e quase absoluta entre forma e conteúdo, entre enredo e estilo. Este é um filme circular; o círculo (ou melhor, a forma espiral) domina tudo, desde o enredo (a vertigem do protagonista, que empresta o nome original ao filme) até a parte estilística (o penteado compartilhado por Madeleine e Carlotta), passando pelos cenários (a missão franciscana está no primeiro e no terceiro ato, abrindo e fechando a trama de mistério que domina o roteiro) e até mesmo pela música sublime de Bernard Herrmann, toda dominada por linhas melódicas circulares. É tudo tão perfeito que a história se desdobra naturalmente, um triunfo do cinema clássico, em que o narrador permanece sob as sombras.

Além disso, a idéia da morte percorre todo o filme. Esta tristeza é acentuada por cenas antológicas, como aquela em que Scottie e Madeleine discutem ao pé de uma sequóia secular, em um diálogo que traz o mistério da reencarnação como subtexto sutil. Talvez seja essa faceta espiritualista, unida a uma implacável e inesperada dureza com que o diretor trata seus personagens, que transformem “Um Corpo Que Cai” no filme mais deslocado dentro da filmografia de Alfred Hitchcock. Como diz Martin Scorsese no documentário que acompanha o DVD, trata-se do trabalho mais pessoal do grande mestre. E isso não é pouco.

Existem duas versões de “Um Corpo Que Cai” em DVD brasileiro, mas elas só diferem realmente na capa. A primeira foi lançada pela Columbia e a segunda, pela Universal. Ambas possuem negativo restaurado, som Dolby Digital 5.1, imagens no formato original (widescreen 1.85:1) e um bom documentário (29 minutos, com legendas em inglês), enfocando tanto a produção do filme como os detalhes do processo de restauração.

– Um Corpo Que Cai (Vertigo, EUA, 1958)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: James Stewart, Kim Novak, Tom Helmore, Barbara Bel Geddes
Duração: 129 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


3 comentários
Comente! »