Corpos Ardentes

22/10/2004 | Categoria: Críticas

Lawrence Kasdan estréia na direção com digna homenagem aos antigos filmes noir

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A lógica implacável de Hollywood jamais daria um vintém a um filme como “Corpos Ardentes” (Body Heat, EUA, 1981). Tudo bem, era a estréia cinematográfica de um dos protegidos de George Lucas, o nome por trás de “Star Wars”. Lawrence Kasdan, o diretor, havia roteirizado o segundo filme da legendária trilogia de Lucas, um ano antes. Mas, aparentemente, iniciar a carreira com um policial homenageando explicitamente um gênero falido – o film noir – era um passo em falso que poderia comprometer a carreira de Kasdan. Por isso, “Corpos Ardentes” quase não foi feito. Somente a intervenção de Lucas o tirou do limbo.

Seria uma pena se Lucas não tivesse usado seu prestígio para dar uma força a Kasdan. Até porque a tal lógica implacável de Hollywood às vezes escreve certo por linhas tortas. Senão, vejamos: afinal de contas, a saga intergaláctica na qual Kasdan havia trabalhando tanto tempo não era, também, uma homenagem a um gênero já morto (os seriados exibidos nas matinês dos cinemas) que havia sacudido as audiências nos anos 1930? Havia, portanto, uma semelhança entre “Star Wars” e “Corpos Ardentes”. Mesmo que ela fosse apenas conceitual.

Bom, acontece que, em termos de enredo, “Corpos Ardentes” realmente é um filme singular, diferente, quase estranho mesmo. Visto no século XXI, ele parece datado. Os horríveis óculos fundo-de-garrafa que o promotor Peter Lowenstein (Ted Danson) usa, ou o tenebroso bigodinho do advogado Ned Racine (William Hurt), o fazem parecer uma velharia coberta de poeira. Já a trama – e na essência de tudo é ela que importa – não perdeu o vigor. Tampouco a aparição deslumbrante, quase fantasmagórica, de uma Kathleen Turner apertada num esvoaçante vestido branco.

A personagem de Turner, Matty Walker, move o filme como um motor. Ela surge como uma aparição, numa quente e monótona noite, para aquecer (literalmente) a vida do advogado Ned Racine. Ele é um sujeito medíocre. Profissional relapso, vulgar com as mulheres, pouco inteligente e se lixando para tudo isso. Ela, por sua vez, é um peixe fora d’água. Tem o sex appeal de uma estrela de Hollywood, o vocabulário de uma prostituta de luxo e a força de vontade de um prisioneiro de guerra.

O filme desenvolve os personagens com muito cuidado. Racine é um tanto desligado (“você não é muito espero, é? Gosto disso em um homem”, ela lhe diz no primeiro encontro), mas não exatamente burro. Percebe rapidamente que tem nas mãos um tesouro que precisa manter – uma mulher fogosa, linda e rica. Ela deseja se livrar do marido rude, o empresário Edmund (Richard Crenna). Os desejos do casal movem a ação do filme para a frente. Os planos do novo casal incluem assassinato, mas as coisas podem não ser muito bem o que parecem.

Fiel ao espírito do film noir, Kasdan constrói uma fascinante personagem feminina de personalidade ambígua e caráter pouco confiável. Matty é a clássica loira fatal que saiu dos bares de Los Angeles nos anos 1930/40 diretamente para as praias da Flórida. Kasdan complementa o cenário situando a trama em uma onda de calor que faz os personagens circularem pela cidade com grandes manchas de suor. Esse fato cria uma curiosa e inteligente rima interna com o desejo ardente do casal apaixonado, algo que o título original sublinha com propriedade (e a tradução, ainda bem, mantém).

“Corpos Ardentes” não é um filme genial, mas faz uma digna homenagem ao gênero noir (repare na semelhança da trama com o clássico “Pacto de Sangue”, primeiro grande sucesso de Billy Wilder) e possui vida própria. Infelizmente, o tempo acabou deixando-o um pouco datado, mas a qualidade, para quem quiser, permanece na versão em DVD. O disco nacional tem duas versões do filme, uma em cada lado, em formatos fullscreen (imagem quadrada) e widescreen (com barras pretas acima e abaixo da imagem). Não há material extra.

– Corpos Ardentes (Body Heat, EUA, 1981)
Direção: Lawrence Kasdan
Elenco: Kathleen Turner, William Hurt, Richard Crenna, Ted Danson
Duração: 113 minutos

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