Corra Lola, Corra

26/08/2004 | Categoria: Críticas

Filme alemão se apóia mistura linguagens visuais para gerar uma pérola pop

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Filmes alemães são, para o espectador que só acompanha os lançamentos nos complexos modernos de cinemas, um grande ponto de interrogação. Muita gente associa a Alemanha ao passado cinematográfico. Os alemães são reconhecidos como grandes mestres de filmes da segunda geração do cinema, por causa do movimento expressionista de diretores como F.W. Murnau e Fritz Lang. Outros lembram da geração dos anos 1970, que revelou Werner Herzog e Wim Wenders. Todos faziam filmes de arte. Em 1998, um filme de apenas 80 minutos veio colocar a Alemanha no mapa do cinema comercial: “Corra Lola, Corra” (Lola Rennt, Alemanha, 1998).

O longa-metragem de Tom Tykwer é pura eletricidade, uma pérola pop. Nada de preocupações com construção de personagens, tramas super-elaboradas, direção de arte requintada. Nada disso; são 80 minutos, literalmente, de correria. Com um fiapo de trama e uma trilha sonora eletrônica tão atmosférica quanto nervosa, que ele mesmo ajudou a compor, Tykwer ousou fazer um filme genuinamente pop, um coquetel que mistura várias linguagens cinematográficas (fotografias Polaroid, desenho animado e até mesmo vídeo analógico amador) para contar a sua história de modo alucinado e extremamente visual.

Lola (Franka Potente) corre. O filme é isso: uma mulher correndo durante 80 minutos. Quem é Lola? Ninguém sabe. Calça e camiseta azuis, tatuagem em volta do umbigo, cabelos vermelhos, Lola atende ao telefone na primeira cena do longa-metragem. Do outro lado está Manni (Moritz Bleibtreu), o namorado, em desespero. Manni explica a situação: ele acaba de esquecer, no metrô, uma mala com 100 mil marcos alemães, fruto de uma transação com cocaína. O problema é que o dinheiro não era dele, mas de um barão do tráfico em Berlim. E Manni tem apenas 20 minutos para entregar a grana ao sujeito. Lola tem que dar um jeito na situação. E ela corre. Três vezes.

Três vezes? Sim; a corrida de Lola atrás dos 100 mil marcos é repetida três vezes. Nesse ponto, entra a verdadeira sacada de “Corra Lola, Corra”: um flerte radical com a Teoria do Caos. Parêntese, aqui, para explicar isso em breves palavras. A Teoria do Caos defende a tese de que uma pequena alteração nas condições iniciais de um estado ou situação pode gerar grandes diferenças no final. No filme, Lola larga o telefone e sai correndo do apartamento onde mora. Quando desce as escadas, cruza com um menino e seu cão. Minúsculas alterações nesse encontro (ela passa pelo lado, tropeça ou salta sobre eles) vão gerar três narrativas diferentes. Pequenas no início, essas diferenças vão se amplificando até chegar a três finais quase opostos entre si.

No caminho de Lola, a garota e o namorado cruzam com diferentes personagens – um mendigo, um rapaz numa bicicleta, um grupo de freiras, praticantes de musculação em um carro, funcionários de um banco – cujas trajetórias (também diferentes nas três versões) são resumidas em segundos, através do criativo uso de seqüências de fotos Polaroid.

Essa é apenas uma de várias demonstrações de criatividade do cineasta. Tom Tykwer prova, em “Corra Lola, Corra”, como é possível fazer um filme simples, veloz como um raio, criativo e inteligente. Ele usa vídeo amador (VHS mesmo) para filmar todas as cenas em que Lola e Manni estão ausentes, o que dá ao visual um tom granulado, levemente irrealm, quase onírico. Isso ajuda a emprestar ao filme a urgência de que ele necessita para funcionar.

Sucesso alternativo no mundo inteiro, o filme alavancou as carreiras de Tykwer e também da atriz principal, Franka Potente, namorada do diretor e símbolo sexual em festinhas alternativas de todo o mundo. Ela foi para Hollywood; ele decidiu filmar um roteiro inacabado do polonês Krysztof Kieslowski, com a australiana Cate Blanchett. Nenhum dos dois foi muito bem sucedido na empreitada, mas ambos carimbaram seus nomes numa ofensiva pop do cinema europeu que contou, entre outras coisas, com filmes bacanas como “O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain”.

No DVD da Columbia, que possui o filme nas versões widescreen (corte original, mais horizontal) e fullscreen (imagem no formato das TVs tradicionais), há um comentário em áudio da dupla e dois videoclipes.

– Corra Lola, Corra (Lola Rennt, Alemanha, 1998)
Direção: Tom Tykwer
Elenco: Franka Potente, Moritz Bleibtreu, Herbert Knaup
Duração: 80 minutos

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