Corra Que a Polícia Vem Aí

06/09/2005 | Categoria: Críticas

Comédia demolidora de David Zucker brinca com filmes noir e reúne dezenas de citações e piadas engraçadas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Líderes mundiais de credibilidade duvidosa estão reunidos em Beirute para uma reunião secreta. Lá estão Muammar Kadafi, Mikhail Gorbachev, o aiatolá Khomeini, Yasser Afarat e mais um punhado de sujeitos que, em meados da década de 1980, representavam os países com quem as relações institucionais dos EUA não eram muito positivas. Em meio a bravatas e ameaças terroristas, o garçom que serve os políticos começa a cancelar a reunião na base da porrada. Ele arranca o turbante do Khomeini, revelando um topete punk cor-de-rosa, e limpa com uma flanela a clássica mancha na testa de Gorbachev, gritando: “Eu sabia!”. Essa é a descrição do alucinado prólogo de “Corra Que a Polícia Vem Aí” (The Naked Gun, EUA, 1988), primeiro longa-metragem de uma série que fez bastante sucesso na época do lançamento.

O humor dos irmãos David e Jerry Zucker mais Jim Abraham, que se auto-intitulavam “o trio ZAZ”, já era bem conhecido dos amantes de comédias demolidoras e iconoclastas. Eles haviam feito o clássico “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu” e comandavam uma série de TV, de onde retiraram o detetive Frank Drebin (Leslie Nielsen) para essa franquia cinematográfica. O estilo adotado pelo trio se tornaria uma referência fundamental para o melhor da comédia criada nos EUA na década seguinte: uma metralhadora de piadas e gags politicamente incorretas, turbinadas com uma quantidade ilimitada de referências a clássicos do cinema.

Em filmes desse tipo, que funcionam como uma espécie de americanização do estilo satírico e corrosivo dos ingleses do Monty Python, a trama é o que menos importa; tudo o que os roteiristas querem é provocar o maior número possível de risadas nos espectadores. Mas não custa nada avisar que o enredo de “Corra Que a Polícia Vem Aí” não tem nada a ver com o prólogo. A tarefa de Drebin, desta vez, é investigar o que aconteceu com o antigo parceiro (O.J. Simpson, antes de ser acusado pela morte da mulher), ferido num suspeito tiroteio ocorrido no porto de Los Angeles (EUA). Ao mesmo tempo, Drebin faz parte do corpo de policiais que deve cuidar da segurança da rainha da Inglaterra (“proteger a rainha é algo que aceitamos com prazer, não importa quão estúpida seja a idéia de ter uma rainha”), em visita oficial à cidade.

A linha-base da narrativa remete diretamente aos antigos clássicos noir, em que o detetive se envolve com uma loira fatal (Priscilla Presley) e investiga dois crimes diferentes que acabam se misturando no final. Mas a trama possui uma influência enorme de “Sob o Domínio do Mal”, clássico de espionagem dirigido por John Frankenheimer, que também utiliza a idéia do hipnotismo para praticar crimes. Entre as dezenas de citações, merecem destaque as menções a “Ben-Hur” e “Dr. Fantástico”, na seqüência hilariante em que Drebin persegue um criminoso pegando carona num carro de auto-escola.

Ainda que a fórmula seguida por David Zucker esteja sujeita a envelhecer (a cena do prólogo, quando exibida para platéias com menos de 25 anos de idade, simplesmente não provoca risos, porque ninguém conhece os tipos que estão sendo satirizados), o filme apresenta um nível elevado de criatividade e tem piadas antológicas (preste atenção no risco de giz em volta do cadáver feito em pleno oceano, e tente ficar em silêncio!). Além disso, o longa-metragem é curto e não soa cansativo. Trata-se do programa ideal para uma noite de farra com os amigos.

O lançamento em DVD no Brasil foi feito pela Paramount. O disco é bastante simples. Mantém o corte original da imagem (widescreen 1.78:1), e tem som Dolby Digital 5.1, com poucos efeitos de surround (ou seja, usa raramente os canais traseiros). O único extra é um comentário em áudio, que reúne o diretor/roteirista e o produtor Robert Weiss. Há legenda em português no extra.

– Corra Que a Polícia Vem Aí (The Naked Gun, EUA, 1988)
Direção: David Zucker
Elenco: Leslie Nielsen, Priscila Presley, Ricardo Montalban, George Kennedy
Duração: 85 minutos

| Mais


Deixar comentário