Cova Rasa

31/05/2005 | Categoria: Críticas

Estréia de Danny Boyle surpreende pele rumo pouco previsível e pelo humor negro preciso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Três amigos inseparáveis descobrem que o inquilino responsável pelo aluguel de um quarto vago no apartamento onde moram está morto e deixou, de bandeja, uma mala cheia de dólares. O que devem fazer? Com base nessa trama esquálida, o diretor escocês Danny Boyle dirigiu um pequeno filme engraçado e, ao mesmo tempo, assustador, que o fez iniciar uma das carreiras mais ligadas ao cinema pop dos anos 1990. “Cova Rasa” (Shallow Grave, Escócia, 1994) continua a ser considerado, por muita gente, como o trabalho mais bem acabado do diretor.

Considerando que Boyle faria na seqüência o cult “Trainspotting”, o elogio não é pequeno. Mas é merecido: “Cova Rasa” pode ser visto como um sombrio estudo do lado escuro da natureza humana, um filme sobre como a cobiça pode transfigurar o ser humano. Você pode pensar em “Cova Rasa” como uma versão pop do clássico “O Tesouro de Sierra Madre”, com humor negro roubado dos irmãos Coen. Essa é é uma descrição muito precisa do longa-metragem escocês. Curto, ágil, com boas atuações do elenco então desconhecido (Ewan McGregor e Christopher Eccleston ficaram famosos depois), o filme surpreende pele rumo pouco previsível do roteiro e, principalmente, pelo humor doentio, que contribui bastante para torná-lo uma obra ainda mais admirada por platéias jovens.

É natural que “Cova Rasa” seja visto com mais simpatia pelos jovens. Os três co-protagonistas de longa-metragem são todos jovens, e a inteligente seqüência inicial provoca forte empatia (ou antipatia, dependendo da sua idade e de seus hábitos) com a platéia. Os três, dois rapazes e uma moça, entrevistam diversos candidatos para ocupar o quarto vago no apartamento em que moram. Eles contam piadas, tiram sarro e irritam os possíveis locatários. O objetivo é encontrar alguém que tenha humor e preferências parecidos com os deles. O escolhido é Hugo (Keith Allen).

Na manhã seguinte, Hugo está morto. Tomou uma overdose de drogas na própria cama. Os três amigos descobrem o ocorrido e acabam percebendo que Hugo possui uma mala cheia de dólares. Como ele está lá há apenas um dia, e não teve tempo de avisar a ninguém sobre a nova moradia, o trio percebe que está diante de uma oportunidade: eles podem ficar com o dinheiro, se encontrarem alguma maneira de se livrar do corpo de Hugo. Isso, porém, fere a lei; não seria assassinato, mas seria crime de todo modo. O que fazer?

A tentação é grande. A médica Juliet (Kerry Fox) quer ficar com o dinheiro, e se coloca à disposição para incinerar o corpo do morto no hospital onde trabalha. O problema é o transporte. Os três percebem rapidamente que terão que desmembrar o cadáver. O jornalista Alex (Ewan McGregor) e o contador David (Christopher Eccleston) têm que tirar a sorte para ver quem vai fazer o trabalho sujo. O ganhador ainda terá que levar os pedaços do corpo até o hospital, assim como enterrar as sobras. Jogo duro, não?

Isso tudo, no entanto, é só o começo. Trabalho feito, os três jovens percebem rapidamente que o dinheiro pode até ter resolvido alguns problemas, mas certamente criou outros. Detetives surgem no apartamento à procura do morto. Outros homens, parecendo mais violentos, também; talvez a fonte do dinheiro não fosse exatamente lícita. As ameaças externas, no entanto, não são piores do que o desconforto que a desconfiança mútua dos três traz para todos eles. A amizade tão contagiante e intensa, demonstrada na primeira cena do filme, está arruinada. Para sempre?

“Cova Rasa” tem muita influência dos filmes dos irmãos Coen, e o mesmo senso de humor negro, mas uma atmosfera diferente – mais sombria, mais pessimista. A visão de mundo de Danny Boyle, ou sua opinião sobre as virtudes da humanidade, não são positivas, como fica claro quando se observa a obra posterior do diretor. Filmes como “Extermínio” ou o bombardeado “A Praia” compartilham com “Cova Rasa” a convicção de que a natureza humana tende perder o controle sobre as coisas quando se deixa contaminar pela cobiça. O final inteligente e original e a condução bem feita da tensão que permeia o filme – as cenas que envolvem o sótão do apartamento são particularmente claustrofóbicas e perturbadoras – fazem de “Cova Rasa” um trabalho maiúsculo.

Curiosamente, “Cova Rasa” jamais foi lançado no Brasil em DVD. Existe em antigas edições em fitas VHS, e passa com regularidade em sessões de madrugada na TV, mas não pode ser encontrado no formato digital. Nos EUA, a edição é simples: contém o filme (imagem widescreen, trilha de som Dolby Digital 5.1) e um trailer, sem nenhum extra de maior fôlego.

– Cova Rasa (Shallow Grave, Escócia, 1994)
Direção: Danny Boyle
Elenco: Ewan McGregor, Christopher Eccleston, Kerry Fox, Ken Stott
Duração: 93 minutos

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